26/07 - 08:34 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
O Movimento Antropofágico teve três personagens principais: a artista plástica Tarsila do Amaral (1890-1954), então casada com Oswald de Andrade, o próprio poeta e romancista Oswald de Andrade (1890-1954) e o poeta Raul Bopp (1898-1984). A primeira fase do movimento, inaugurado com o “Manifesto Antropófago”, de 1928, de lavra de Oswald e com idéias de Tarsila, veiculou-se por uma revista mensal, a “Revista de Antropofagia”. A segunda, em uma página do extinto "Diário de São Paulo" – conhecida como “Antropofagia Brasileira de Letras”, a partir de 29 de agosto de 1929.
O jornalista Geraldo Ferraz explica: “Em 1929, houve a cisão, surgindo em uma simples página de jornal a segunda fase, onde emergia uma grande radicalização, com a saída de Mário de Andrade. Na primeira fase, ninguém gostava de fazer um movimento político-sociológico. Ficaram uns poucos como Raul Bopp e Oswald de Andrade...”. Aliás, anoto que, nesse 2008, “Macunaíma” tornou-se igualmente octagenário.
Enquanto revista, o movimento publicou poemas de Murilo Mendes (1901-1975) e o importante “Anedota da Bulgária”, de Carlos Drummond de Andrade (1898-1984) – o maior poeta brasileiro de todos os tempos: “Era uma vez um czar naturalista / que caçava homens // Quando lhe disseram que também / se caçavam borboletas / e andorinhas, / ele ficou muito espantado / e achou uma barbaridade”. Na página do jornal, publicou-se o estudo da tela “Antropofagia”, de Tarsila do Amaral, até hoje uma artista plástica insuperável.
Chamo a atenção para duas afirmações do “Manifesto”: “Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida.” Hoje, o Brasil importa cultura de massas, despreza, por exemplo, a cultura erudita norte-americana (cultura crítica), e importa também “consciência” enlatada no campo da arte, no qual se vive momento epigonal. “A existência palpável da vida” significa curiosidade, invenção, o que nos falta. Vou abordar o movimento por um viés pouco explorado, um relato de Raul Bopp sobre ele.
Vida e morte
“Vida e Morte da Antropofagia” (Civilização Brasileira/MEC, 1977, Rio de Janeiro), de Raul Bopp, é documento literário relevante para a compreensão do movimento Antropofágico, de 1928, forjado por Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade e, também, para a inteligência da gênese do poema “Cobra Norato”, do próprio Bopp, autor para o qual vale a máxima “o menos é mais”.
Escreveu (na verdade, reescreveu ao longo de sua vida) “Cobra Norato”, 1928, (com capa de outro antropófago, Flávio de Carvalho) um dos mais importantes poemas do século XX brasileiro, e meia centena de poemas dispersos, desiguais. Em “Vida e Morte da Antropofagia”, único relato sobre o movimento, prosa memorialística, fragmentária, às vezes precária e até mambembe, todavia, coesa em suas idéias, repassa, na condição de testemunha ocular, a Semana de Arte Moderna de 1922:
“Enquanto Paris se agitava dentro de novas correntes culturais, no Brasil, somente algumas poucas áreas eram sensíveis à essa inquietação. Pressentia-se, em vibrações vagas, a necessidade de substituir a expressão artística por formas mais evoluídas. São Paulo, em problemas de arte, permanecia ainda num velho conformismo, amarrado a formas antiquadas, em contradição com sua pujança econômica”. Tratava-se, observo, de traduzir a pujança econômica da elite de então, que “ia e vinha todos os anos da Europa” em “arte moderna”, para serví-la – em outra palavras, ruptura com permissão da corte – contradição que a Antropofagia tentaria, seis anos mais tarde, superar.
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| A negra, de Tarsila do Amaral (1923) |
A antropofagia é a verdadeira Semana de 1922
Bopp não escapa da ideologia evolucionista das vanguardas – há muito criticada em termos teóricos – quando relata a gênese da Semana, talvez influenciado por ela mesma, mas vai se redimir desse “pecado venial”, quando anota sua participação no Movimento Antropofágico: “A reação modernista de 1922 desviou-se das formas habituais de expressão.
Aproveitou alguns fragmentos folclóricos, com uso de falas rurais. Desencadeou uma forte reação contra o mau gosto. Destruiu inutilidades. Mas seus dividendos nas letras e nas artes eram muito reduzidos. Não haviam trazido um pensamento novo, capaz de condensar as preocupações do momento. Com o retorno aos valores nativos, remexeram-se os mesmos temas nacionais refundidos em poesia ociosa”. Poesia e pensamentos “ociosos”, ou seja, decorativos, que seriam alvo dos antropófogos, implacáveis.
O Movimento Antropófago articula-se precipuamente para pensar um Brasil descolonizado e independente, que tomava de assalto as letras do outdoor Chevrolet, incensado pelos modernistas de “mera casca literária” (expressão de Bopp), para transformá-las em: “Contra o Padre Vieira. Autor de nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão” (“Manifesto Antropófago”, de Oswald de Andrade). Ou, em “Monjolo”, poema de Bopp, geométrico, paratático, composto de oito versos, entrecortados por um refrão violento, que dialoga com a tela “A Negra” e com o poema “pai negro”:
Fazenda velha Noite e dia
Bate-pilão
Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão
Relógio triste o da fazenda
Bate-pilão
Negro deita Negro acorda
Bate-pilão
Quebra-se a tarde Ave Maria
Bate-pilão
Chega a noite Toda a noite
Bate-pilão
Quando há velório de negro
Bate-pilão
Negro levado para a cova
Bate-pilão
“Monjolo”, escrito entre 1925 e 1927, é o melhor poema de Bopp, depois de “Cobra Norato” (poema antropófogo também), muito superior ao famoso “Coco”, no qual celebra Pagu (Patrícia Galvão, escritora), figura presente nos open house antropofágicos do casal Tarsila e Oswald, como ele mesmo narra em “Vida e Morte da Antropofagia”. O refrão é destacado em itálico por representar a voz do capataz. O tempo, “moderno”, é marcado em “relógio”. O verso “Quebra-se a tarde Ave Maria” insinua surra levada pelo negro liberto. Os versos podem ser entendidos como de oito sílabas como sugere o refrão de quatro. Esse poema não o levaria a Mário mas obrigatoriamente à antropofagia.
Bopp relata que o Movimento Antropofágico “oficializou-se” durante um jantar, em um restaurante especializado em rãs, no bairro paulistano de Santana: “Quando, entre aplausos, chegou o prato com a esperada iguaria, Oswald levantou-se, começou a fazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a doutrina da evolução das espécies. Citou autores imaginários, os ovistas holandeses, a teoria dos homúnculos, para provar que a linha biológica do homem passava pela rã – essa mesma rã que estávamos saboreando entre goles de um Chabli gelado. Tarsila inteveio: Com esse argumento. Chega-se teoricamente à conclusão de que estamos sendo agora uns...quase-antropófagos”.
Tarsila e Oswald: afetados artisticamente pela separação
| - Reprodução |
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| Oswald retratado por Tarsila (1922) |
Já Mário era, para ele, figura sóbria: “A sombra do professor do Conservatório Musical estava sempre a seu lado. (...). Era solteirão, morigerado e sem estroinices. Vivia pacatamente com as tias. Houve época em que ele acompanhava a procissão de vela na mão”. Explica que a antropofagia afastou os dois Andrades, em virtude de Mário sentir-se “satisfeito com a popularidade que lhe coube no inventário da Semana”, considerada insatisfatória por Oswald, que buscava o Brasil “de enlaces profundos”.
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| Auto-retrato de Tarsila (1923) |
Depois do “changé de dames geral”, que separou Tarsila e Oswald - que a trocou por Pagu (a musa teen) pouco antes do Congresso Antropofágico agendado para outubro de 1928, em Vitória, no Espírito Santo, e que não se realizou -, para Bopp o legado do movimento foi: “Com suas sátiras audaciosas, provocou uma derrubada de valores, de mera casca literária, sem cerne. Sacudiu hierarquias inconsistentes. Assinalou uma época”. Bopp registra todos os planos do movimento desde o de estimular uma religião própria antropofágica (indígena, negra e branca) ao de criar um dicionário. Ele registra algumas dessas palavras no livro, criticando a gramática portuguesa, num tom poético: “Carregou-se o casco do vocábulo com acentos de toda a espécie”. “Mironga” ou charme indecifrado, e “sombra”, invenção dele mesmo, para aquele que estivesse “com os olhos entupidos de escuro”.
Nunca é demais lembrar que o poema “No Meio do Caminho”, de 1928, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicado pela primeira vez pelo Movimento, que lançou a "Revista de Antropofagia", em maio de 1928, mensal, e, depois, migrou para uma página do "Diário de São Paulo", como já assinalei, no qual findou, após estampar em letras garrafais, sob o título "Suborno" o seguinte trecho da Bíblia – em poema ready-made anônimo: “Em verdade, se fizerdes o que vos digo, no dia do Juízo Final estareis comigo no Paraíso”.
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| Antropofagia, quadro de 1928 de Tarsila |
Cabe destacar que Bopp – um bisneto de alemães – foi o primeiro poeta brasileiro a trazer a Amazônia para o centro das atenções. Fez parte do curso de Direito em Belém, para ganhar proximidade com a floresta: “O romanceiro amazônico, de uma substância poética fabulosa, com o mato cheio de ruídos, misturado com a pulsação das florestas insones, não podia se acomodar num perímetro de composições medidas”. Declara, no livro, que a experiência o marcaria para toda a vida. Há o “Cobra Norato” poesia e há também o “Cobra Norato” antropologia, que, de modo pioneiro, soletrou a floresta Amazônica para o Rio de Janeiro e para São Paulo: “Esta é a floresta de hálito podre / parindo cobras / / Rios magros obrigados a trabalhar...”. Há um Bopp múltiplo, que permanece imprescindível – embora sem o protagonismo seminal de Oswald e Tarsila.
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