12/07 - 11:34 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
Dois fatos. O governo cubano proibiu a ida de Manuel Cuesta Morúa, porta-voz da Corrente Socialista Democrática Cubana – Arco Progressista, a Atenas para participar do Congresso da Internacional Socialista, retendo-o em Havana, e, também, proibiu-o de participar do Congresso do PSOE – Partido Socialista Operário Espanhol, do primeiro Ministro Rodríguez Zapatero, ambos na primeira semana de julho. Fidel Castro, no dia 7 desse mesmo mês, pediu – entre cínico e senil (não há outra interpretação) – às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que libertassem, sem condições prévias, todos os seus reféns, em virtude “da crueldade do crime de seqüestro e da desumanidade do cativeiro na selva amazônica”.
Uma pergunta.
Por que Fidel e Raúl não libertam seus duzentos presos políticos? Entre eles, há quarenta condenados à morte e vinte e dois jornalistas. Lembre-se que Fidel e Raúl fuzilaram (além das mortes induzidas pelo mar e pela fome) quatro mil e trinta e oito pessoas desde 1º de janeiro de 1959 até 2003. Dados disponíveis em qualquer website de direitos humanos. Lembre-se que o Código Penal ilhéu sanciona, com penas de reclusão, quem se encontra para discutir economia ou eleições ou para pedir, sem violência, liberdade aos prisioneiros políticos. Havana está cheia de “buzos” (mergulhadores) – doutores cubanos que vasculham latas de lixo à noite.
| - Reprodução |
![]() |
| Yoani Sánchez, autora do blog GenaraciónY |
Pedro Marqués de Armas, 43, é um dos melhores poetas não só cubanos mas de toda a língua espanhola. Viveu como um pária na ilha, por ser dissidente “literário”, até exilar-se na Itália em 2001, com apoio do Parlamento europeu. Em breve, um de seus livros, “Cabeças”, será lançado no Brasil pelas Edições Sibila. Hoje, esse médico psiquiatra, que estuda o suicídio em Cuba, reside e trabalha em Barcelona, tentando retomar sua carreira profissional. Ele não acredita em transição democrática e pacífica em Cuba.
Régis Bonvicino: Você acredita que Raúl Castro fará uma transição para a democracia em Cuba, com a fundação de partidos políticos novos?
Pedro Marqués de Armas: Não creio nessa possibilidade. A lógica do sistema totalitário cubano é, e seguirá sendo, exclusivamente política. Morto Fidel, Raúl tentará promover mudanças econômicas tangíveis (as de agora são farsas), no entanto, aumentando – simultaneamente – o controle e a repressão. E, se essas mudanças implicarem qualquer risco para o sistema, serão cortadas. Uma transição para a democracia só será possível depois da morte dos irmãos Castro, isto é, de quem encarna o “biopoder” em Cuba, por quaisquer que sejam as causas.
RB: O novo Presidente dos EUA terá papel decisivo em alguma transição cubana?
PMA: Quem deve ter papel central na transição cubana são os cubanos. Quando está em jogo um desastre de meio século, são os cubanos que devem acelerar o processo de reconciliação nacional. Isto implica que se reconheçam – publicamente – os crimes e o sofrimento causado às pessoas e que, também, as liberdades se tornem concretas e falem diversas linguagens. O papel dos EUA e da Europa são importantes do ponto de vista humanitário e econômico, mas nem um nem outro pode ser protagônico. A reconciliação cubana deve, por outro lado, ser um processo de reafirmação de sua nova soberania democrática no mundo.
RB: Há partidos políticos nos múltiplos exílios cubanos?
PMA: Existem partidos e numerosas organizações em todos os exílios cubanos: EUA, Espanha, França, Suécia etc. Por exemplo, União Liberal Cubana, Partido Democrata Cristão, Coordenação Social Democrata de Cuba, Diretório Democrático de Cuba, Partido da Renovação Ortodoxa, The Cuban American Nacional Foundation, entre outros.
RB: É possível a existência de um partido social democrata numa Cuba sem operários?
PMA: Há mais de dez anos existe o Partido Social Democrata em Cuba, de dimensão nacional. E há sindicatos no país, dependentes do Estado, sem moral para o trabalho, infelizmente. O importante, todavia, é que haja uma esquerda democrática forte em Cuba – muito distinta da castrista – para equilibrar a avalanche neoliberal que a tomará. Essa esquerda deve se preparar para os novos desafios sociais que estão por vir.
RB: O fato de Yoani Sánchez não ter sido autorizada a sair de Cuba para receber o “Premio Ortega y Gasset” é sintoma de que os intelectuais e artistas cubanos ainda seguem censurados e perseguidos?
PMA: Óbvio. O regime castrista sempre meteu seu focinho na vida dos intelectuais e artistas independentes. Todos são controlados. Sánchez é muito lúcida a respeito disso e, então, não lhe permitem sair da ilha e o próprio Fidel a desmerece e incita hackers a atacarem seu blog. Há poucas coisas mais terríveis, como observa Michel Foucault, do que o “poder de desqualificação” dentro de um sistema totalitário e, acrescento, do sistema cubano.
Um poema de Marqués de Armas
Clarabóia
e sem embargo
segue gente trepando
pela escada (que dava)
em vazio (ou que dizem) quedava
junto ao gancho maior
(Tradução de Marcelo Flores)
Leia também:

Publicidade