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Fábulas poéticas para os olhares de Nunca

10/07 - 13:35 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

Francisco Rodrigues da Silva, 25, que inventou para si o pseudônimo artístico de Nunca, começou a grafitar em Itaquera há mais de uma década. Foi criado por uma tia dos seis aos doze anos, em razão de sua mãe, dona Rubenita, ter vivido na Itália durante seis anos, para seguir trabalhando como empregada de uma família italiana. Conheceu seu pai apenas no início dos anos 1990. Nunca se mudou, em 1997, para o Cambuci, bairro onde viveu e manteve seu ateliê Alfredo Volpi. Participou de exposições coletivas na Galeria Triângulo, em 2005, na Fortes Vilaça, em 2006 (neste caso, com Adriana Varejão, Ernesto Neto, entre outros), no Museu AfroBrasil, na Grécia, e fez uma individual no MAM, dentro do Projeto Parede, também em 2006. Em 2008, pichou os muros frontais da Tate Modern, de Londres, a convite do Museu.

Nunca se distingue pela concepção dos olhares de suas personagens, pelo uso da cidade como suporte dinâmico, por um figurativismo crítico e por explorar quase nada o universo da pop art popular, ao contrário da maioria dos grafiteiros. Ele está fora do mainstream do grafite e o transcende.

Seus trabalhos são verdadeiras narrativas: contam histórias, muitas vezes complexas. Está voltado para a recriação das figuras indígenas e afro-brasileiras – por meio da técnica chamada trama holandesa – em situações urbanas agudas, reinserindo-as – sobretudo as indígenas, vítimas de um genocídio – no dia-a-dia da cidade, lembrando – pela violência ostensiva das figuras – um dos trechos do Manifesto antropófago, de Oswald de Andrade: “Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de d. Antônio de Mariz”. Ou então volta-se para a recriação estilizada, como caricaturas de figuras advindas da pop art erudita de um Roy Lichtenstein e seus traços duros e secos.

Yao Feng
Imitação de vida
Imitação de vida
No grafite Imitação de vida (avenida Brigadeiro Luís Antônio), que comento a partir de uma foto do poeta chinês Yao Feng, feita em maio de 2006, em São Paulo, a personagem tem o olhar vazado: suas íris, uns círculos quase completos, lembram vagamente cobras saltando do globo; o rosto (delineado pela cor branca e nítida, tanto quanto o nariz negro e proeminente) revela-se tenso, bastante contraído, com o nariz incisivo e a boca severa, raivosa, provocando medo em quem o vê. Alguém mais apressado poderia dizer que o olhar é vazio e expressa o vazio deste tempo. Mas, além disso, o rosto da personagem revela igualmente  temor. Desse modo, os passantes, num diálogo silencioso com o grafite, estão inexoravelmente incorporados a ele, numa trama de paranóia e susto.

Este é o trabalho mais lichtensteiniano de Nunca: seu exercício de compor com traços bem recortados. O título, inclusive, já o diferencia da maior parte de seus pares: Imitação de vida, quando – é de se supor – outros artistas do grafite escreveriam “imitação da vida”; na locução “imitação de vida”, pode-se ler, entre outras coisas, “imitação devida”, num tom agressivo com o modelo, no caso, Lichtenstein.

- Divulgação
Grafite em um muro de Atenas
Grafite em um muro de Atenas
Em outro grafite (num muro de Atenas), que se desenrola num mural gigantesco, uma personagem com características mais afro-indígenas ajuda um braço imenso, que sai praticamente da calçada, a enfiar um Cadillac na boca de uma personagem com características mais americanizadas, esta com máscara (de plástico?) e aquela com um cabelo-capacete, que nos remete ao corte de cabelo dos índios. Os narizes são diferentes: o do afro-indígena é menos saliente, o da personagem que engole à força o Cadillac é tão proeminente quanto o nariz da personagem de Imitação de vida; há um rosto solto, com um colar, que se assemelha a uma cobra, sobre o braço gigantesco; essa personagem traz, nas proximidades de uma de suas orelhas, penas, como aquelas usadas pelos índios.

Na foto, o grafite imenso esmaga a pequena calçada para dialogar diretamente com a pista, de onde parece ter sido arrancado o Cadillac. A interação mural/pista desmonta qualquer idéia de figurativismo passivo. Nunca inventa personagens que, na verdade, testemunham e interagem com a cidade. Daí a relevância dos olhares que cria para suas testemunhas e do traço figurativista de seu trabalho, um figurativismo reinventado e revitalizado pela pressão das ruas. Aliás, não há grafites exclusivamente “abstratos”, que não seriam peças pertinentes para a comunicação a que se propõem nas cidades. A personagem afro-indígena tem um olhar determinado, e a personagem que engole à força o Cadillac, um olhar perverso.

- Divulgação
Grafite no Minhocão
Grafite no Minhocão

Na foto de um outro grafite (Minhocão), o rosto maior tem os olhos negros, nítidos, de um negro. O olhar dessa personagem expressa crítica. O segundo rosto, um pouco menor, é feito num trançado preto e marrom, de aparência indígena, e seus olhos são losangos. Seu olhar expressa agressividade, mas, ao mesmo tempo, dúvida: não se sabe se ele apóia a aspereza do olhar da personagem de feição negra. Há uma razão: Nunca escreve a palavra “canibal”, o que explicita a competição entre eles. Um morcego, que leio a partir da mão que surge de modo abrupto na cena, com olhos vazados (unhas pintadas de branco), vem logo a seguir em busca de sangue (talvez de um desastre que possa acontecer no asfalto), e uma terceira personagem, um tipo de inca, com olhos verdes, mostra-se pronta para a guerra, enquanto os carros passam, com as caras de seus motoristas expostas, visíveis, em diálogo com o mural, que, aliás, mostra as laterais de concreto do viaduto.

Os rostos dos motoristas, atados aos cintos de segurança, olham para frente e parecem nada enxergar, a não ser a pista, ou seja, a competição frenética, acirrada. Na palavra “canibal”, do jeito que Nunca a escreve, partida em duas (“can” e “ibal”), lê-se portanto “can”, lata em inglês, e, por alegoria, igualmente “prisão” ou “aprisionamento”. “Iba”, que nos veio do tupi “iwa”, quer dizer “árvore”, “fruto”. A solidariedade se desfaz diante da luta pela sobrevivência, como nos aponta a palavra “bala”, contida anagramaticamente em “canibal”. Os vários tons de vermelho mostram-se adequados como escolha de cores para o painel.

Os dois mais melancólicos olhares de Nunca estão em dois grafites que retornam a suas recorrentes personagens afro-indígenas: figuras descaracterizadas, distorcidas, como todas. A primeira é um elaboradíssimo índio negro (avenida Brigadeiro Luís Antônio), grafitado ao lado de uma porta de garagem. Na porta, lê-se: 03/ MCs/ AND./ NUN/ CA. Excetuando-se a assinatura Nunca, os outros dizeres representam uma pichação alheia, incorporada ao trabalho. A notação remete, como toda pichação e todo grafite, às adivinhas, aos enigmas da tradição popular.

O ponto final em “AND.” é significativo e dialoga diretamente com os losangos perfeitos dos olhos extremamente entristecidos da figura: um conectivo, todavia, estancado por um ponto final. O nariz é adunco. E os dentes, muito brancos, com a boca meio aberta, contrastam com a tristeza dos olhos, revelando – “entre dentes” – raiva e vida.

O outro grafite de olhar melancólico (Largo do Cambuci) traz, na figura distorcida de um negro de orelhas pensas e imensas; dois outros homens, fazendo as vezes de olhos; um índio nu, de costas, faz as vezes de nariz. As três bocas estão abertas. Os olhares dos homens que substituem os olhos expressam, o do lado esquerdo, indignação, e o do lado direito, um vazio, como na personagem de Imitação de vida.

Não bastam dois olhos, é preciso quatro para testemunhar o que se vê, no entanto, o que se vê é omitido pelo autor da cena; não bastam duas orelhas, é preciso três para ouvir palavras ou sons, que também o autor omite da cena (que cena terrível seria essa?). Sim, três orelhas, porque a quarta, do lado esquerdo, é um pneu. O rosto parece se erguer de uma espiral de arame, que representaria o corpo (um corpo empalhado?). O índio-nariz parece querer empurrá-lo para longe do que ele vê e ouve: instala-se o paradoxo, como no poema “Áporo”, de Carlos Drummond de Andrade: “Um inseto cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape...”. Os olhares de Nunca não encontram escape: revelam por subtração, num plano ideológico, o desgaste acentuado do mundo e a falta de um pensamento eficaz que o transforme, inclusive, por meio das artes; é como se cumprisse o roteiro que Murilo Mendes viu em Malevitch: “Situa o objeto abatido/ Esgotado pelo futuro...”.

Entrevista de Nunca a Régis Bonvicino

Régis Bonvicino: Por que você adotou o nome Nunca?

Nunca: Foi uma maneira de expressar o que penso sobre as regras que nos são impostas, tanto psicológica quanto fisicamente, quando aprendemos a “viver” a vida que vivemos na cidade de São Paulo.

RB: Você grafita, pinta e/ou picha?

Nunca: Grafito, pinto, picho, me alimento, transo e durmo. E ainda o grafite é um ato político porque, em diferentes níveis, compromete o interesse do artista em algo concreto, por exemplo, em criar contrapartidas para a colonização à qual o Brasil está submetido. Em meu caso, varia de acordo com o que sinto no instante de cada trabalho, ou seja, aquilo que estou percebendo sobre determinada coisa ou se quero ou não deixar isso em relevo no resultado de uma pintura.

RB: Há um desejo crítico, reflexivo, de ato de risco em seus trabalhos?

Nunca: O simples ato de pintar na rua, independentemente do que se faça, já é um ato de risco, em todos os sentidos: muitos grafiteiros já morreram em virtude de balas da polícia ou de quedas dos prédios que escalavam para pintar. Outras vezes, por seu turno, o tema do trabalho é mais importante que o próprio ato de pintar. Não crio regras para como eu vou usar a cidade. Meu trabalho é figurativo e, na maioria das vezes, gosto de explorar a parte “decorativa” dele, mas tudo depende de como eu vejo o lugar (o muro) e de como eu estou comigo mesmo.

RB: Fale da construção de suas personagens: você as imagina já nos muros quando ainda estão em sua cabeça? Por que os olhares de suas personagens são tão expressivos?

Nunca: Eu gosto de andar pela cidade e de descobrir novos lugares que podem ser pintados. São Paulo é uma cidade que tem diversas possibilidades para a ocupação de espaço. Eu saio pelas ruas sem saber o que vou encontrar: uma parede, que há dois dias estava branca, hoje pode estar pichada, e isso muda o modo como eu vou usar o espaço, mas tudo começa em minha casa, quando me sento à mesa e começo a desenhar; tudo começa ali: eu pego minhas experiências e coisas que penso, elaboro, e passo para o papel. Desse desenho no papel, posso fazer uma tela, uma instalação, uma peça de teatro, as possibilidades são quase infinitas. Alguns lugares da rua podem ser complementares ao tipo de trabalho que eu vá fazer, mas podem servir apenas como um suporte para o que eu queira pintar, pela visibilidade que dará ao trabalho. Procuro estabelecer uma relação com quem passa pelo lugar que eu pintei, com a pintura que eu fiz, mas esse é um elemento tão relativo quanto o próprio ato de pintar. Os olhares das minhas personagens? Sempre me olho no espelho para pintar o olhar de uma personagem. Vejo-me como um registro ambulante de minhas experiências e procuro criar olhares claros e sutis.

RB: Quais são suas referências de grafiteiros, artistas plásticos, músicos, poetas?

Nunca: Hoje em dia, minhas referências estão fora do âmbito do grafite. Ultimamente, pesquiso e estudo artistas que vinham ao Brasil para catalogar o que era visto aqui na época dos conquistadores. Um desses artistas foi Maximilian Wied-Neuwied, um príncipe que, a convite de dom Pedro II, veio ao Brasil pra catalogar as espécies de plantas e animais e os povos indígenas. Estudo também Debret e tenho pesquisado, há algum tempo, sobre a cultura indígena brasileira. Tenho ouvido muito a Orquestra Afro-brasileira e lido e relido o "O tao da física" (de Fritjof Capra; São Paulo, Cultrix, 1985).

RB: Fale das técnicas que você utiliza para pintar.

Nunca: Hoje, o que mais me instiga são gravuras em metal, são técnicas para se chegar a um determinado resultado de sombra, luz e textura. O que tenho feito é aplicar esse processo a minhas pinturas.

RB: O grafite é hoje algo que se poderia chamar de banal? Grafiteiro é uma carreira como qualquer outra?

Nunca: O grafite é o que é por estar na rua e ser totalmente autônomo e descompromissado; fora da rua, o que se faz é utilizar a linguagem e a experiência que se tem com o grafite para fins comerciais e/ou outros; acredito que, quando se retira o grafite da rua, ele deixa de ser grafite. O mesmo se dá quando um artista se intitula grafiteiro, mas não tem essa experiência vivida e usa a linguagem do grafite sem dominá-la. Não sendo grafite, o que vai determinar se é instigante um trabalho que, por exemplo, está numa galeria, é se ele usa essa linguagem próxima daquilo que o artista traz da rua. A banalização do grafite normalmente se dá por meio de pessoas que não têm a experiência, mas que se utilizam da aparência da linguagem do grafite.

RB: Quando se percebe que um grafiteiro tem talento e outro não vale nada? Quais os elementos que decidem a qualidade de um grafite?

Nunca: Não sou “crítico de arte”. O que decide se um trabalho é bom ou não é sua qualidade estética e o compromisso do artista com o trabalho e, no caso do grafite, se o artista sabe ou não usar ativamente a cidade como suporte, ou se ele apenas “fala” que sabe fazer isso.

RB: Como você se sente ao ser mencionado no importante livro "Graffiti Brazil" (de Tristan Manco, Caleb Neelon e Lost Art; Londres, Thames & Hudson, 2005) como uma das novas estrelas da cena do grafite em São Paulo, tendo um capítulo exclusivo dedicado a seu trabalho? A consagração precoce (dados seus 24 anos) traz risco de cooptação?

Nunca: Para mim, a consagração é ter meu trabalho do jeito que eu quero que seja e sempre melhor. Meu trabalho vem sendo aprimorado desde meus doze anos, quando eu ainda criava nas ruas de Itaquera. Precoce é quando algo acontece muito antes do tempo, e tudo que vem acontecendo com meu trabalho vem em boa hora.

RB: Quais são seus lugares prediletos para grafitar e pichar nas ruas?

Nunca: A cidade toda é um ótimo lugar para pintar, é um lugar que pede para ser grafitado e pichado. Eu me sinto privilegiado de poder compartilhar esse sentimento de transformação da cidade com as pessoas comuns e com quem grafita ou picha.

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