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Perloff afirma que Obama é melhor do que Kennedy

07/07 - 23:42 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

Marjorie Perloff é a principal crítica literária das poéticas contemporâneas em atividade nos EUA e, talvez, no mundo, segundo "The Eyclopedia of Literay Critics and Criticism", editada por Chris Murray. Vienense, naturalizou-se norte-americana, e, hoje, reside em Los Angeles.

Estudou no Barnard College, de Nova York. Seu primeiro trabalho como professora foi em Washington, DC, de 1966 a 1971, onde conviveu com a família de George Bush e suas filhas com George Walker Bush. É casada com Joe Perloff, um dos maiores especialistas em doenças congênitas do coração dos EUA, autor de inúmeros livros. Aposentou-se como Sadie Dernham Patek Professor of Humanities, da Universidade de Stanford, Califórnia.

Resgatou a poesia do irlandês William Butler Yeats de leituras hoje consideradas equivocadas e recuperou o modernismo norte-americano de Gertrude Stein, Ezra Pound e T.S. Eliot – ferozmente combatido, ao contrário do brasileiro, de Oswald e Mário de Andrade. Promoveu os então marginalizados poetas da Escola de Nova York (Frank O’Hara), os poetas de Black Mountain (Robert Creeley e o músico John Cage – seu amigo pessoal), os Beats (foi, igualmente, amiga de Allen Ginsberg) e os poetas da L=A=N=G=U=A=G=E poetry, movimento lançado em Nova York, em 1978, liderado por Charles Bernstein.

Lançou cerca de 20 livros. No Brasil, publicou "Artifício Radical", de 1991, (Edusp), o seu principal livro para muitos. Está para sair, pela mesma editora, Wittgenstein’s Ladder: "Poetic Language and the Strangeness of the Ordinary" (1996), com reputação de “clássico” também, no qual estuda Samuel Beckett, Robert Creeley e outros.

Em novembro de 2004, enviei-lhe mensagem eletrônica, lamentando a reeleição de George Walker Bush, quando, então, respondeu-me – num tom de consolo – que, em 2008, se elegeria Presidente dos Estados Unidos um jovem Senador negro de Illinois, Barack Obama, formado em direito por Harvard, e ex-diretor da revista jurídica daquela universidade. Nunca havia ouvido falar dele. Perloff considera o clintonismo uma doença, e o ex-Presidente Bill Clinton um demagogo, para não usar outros adjetivos.

Nesta segunda, concedeu-me essa pequena entrevista a respeito de Barack Obama, comparando-o com Bobby Kennedy, assassinado em plena campanha eleitoral, em 1968, em Los Angeles. Perloff não acredita que certos recuos táticos de Obama, diante da complexidade da sociedade estadunidense, circunstanciais, possam desfigurar-lhe o perfil de centro-esquerda e fazê-lo perder a disputa. Reputa-o infinitamente superior a John Kerry.

Recusa-se a pronunciar o nome George Walker Bush. E admite certa aproximação de Obama com Franklin Roosevelt (1882-1945), presidente dos EUA de 1933 a 1945 – criador dos programas sociais que socorreram os milhões de desamparados pelas crises de 1929 e 1931. Um dos livros de Obama foi publicado ano passado no Brasil: "A Audácia da Esperança" (Larousse). Não foi resenhado em nenhum dos principais jornais impressos brasileiros.

Quem quiser aprofundar-se em Marjorie Perloff vá a http://epc.buffalo.edu/authors/perloff/
The Eletronic Poetry Center é o melhor website de poesia dos EUA. Nele, ela possui inúmeros ensaios on-line.

Régis Bonvicino: O apoio de Camille Paglia (centro-esquerda) e de Susan Eisenhower, (direita), neta do presidente Dwight Eisenhower (1952-60), a Barack Obama representa uma confusão geral na América ou sinaliza mudança mais profunda ?

Marjorie Perloff: Penso que significa mudança real. Obama refoge aos rótulos políticos fáceis, embora seja progressista; ele tem suas próprias idéias e deixa claro que quer ir além do clichê “direita/esquerda” e, em conseqüência, pode conquistar eleitores com ideologias distintas.

RB: Concorda com Russell Banks quando ele afirma que não se via, desde a campanha de Robert Kennedy (1925-1968), em 1968, um político motivar de tal maneira ricos e pobres, brancos, negros e hispânicos, numa coalização inédita desde Franklin Roosevelt?

MP: Sim, concordo, com a ressalva que Barack Obama é muito diferente de Bobby Kennedy. Bobby foi um esquerdista ingênuo, místico, enquanto Obama é mais reflexivo, mais inteligente e bem mais elaborado.

RB: Uma coalização tão ampla não pode inviabilizar seu governo? Entre seus adeptos, quais ganharão a luta pelo comando da economia?

MP: Será difícil governar sem ampla coalização, até porque um Presidente deve, obrigatoriamente, governar para a diversidade da população de seu país. Economicamente, creio que Obama é cauteloso e centrista.

RB: Obama vai honrar o compromisso de campanha, se eleito, de retirar as tropas norte-americanas do Iraque em dezesseis meses?

MP: O tempo não é o marco principal nesse caso, se ele não o prolongar muito. O decisivo é que ele já repensa toda a relação dos Estados Unidos com o Oriente Médio e o mundo islâmico e prepara nova política externa, multilateral e dialógica. Ele está bem consciente que não é papel dos Estados Unidos invadir outras nações e ou manter o exército nesses territórios para sempre.

RB: O que você espera dele em relação à Cuba?

MP:
Há muito tempo os EUA deveriam ter restabelecido relações com Cuba e suspenso o “Embargo”. Obama deve reconhecer o governo cubano.

- Reprodução
RB: O que espera dele no âmbito das artes?

MP:
Seus livros são bons, bem escritos. Quando cursava Direito, escreveu muitos poemas. Ele realmente se importa com as artes, poesia, ficção, artes plásticas, música etc. É um escritor. Creio que tentará levar as artes eruditas a um público maior. Sua autobiografia "Dreams from my father", de 1995, é prosa de arte, filiada ao gênero das autobiografias de negros como Malcolm X (1925-65), um socialista, que foi assassinado em 1965, em Nova York, durante um discurso no Harlem. O pai de Malcolm - um pastor - já havia, por seu turno, sido assassinado por um integrante da Ku Klux Klan. Por outro lado, seu estilo sereno de discursar é comparado - por muitos - com o de Nelson Mandela, corretamente.

RB: É possível uma vitória de John McCain?

MP: É possível, mas, bastante improvável. Os norte-americanos estão profundamente decepcionados com George Walker Bush e com os Republicanos. Não creio em vitória de McCain, mas, ele pode, remotamente, surpreender.

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Saiba mais sobre o escritor Régis Bonvicino





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