iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 

iG BUSCA

enhanced by


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

O capitalismo sem direitos do mundo

05/07 - 09:33 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

Ingrid Betancourt é cidadã colombiana-francesa. Sua libertação foi prioridade na França de Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, no decorrer dos últimos seis anos. Gabriel Betancourt, seu pai, um diplomata bem sucedido, foi diretor na Unesco, em Paris, onde privou da amizade do poeta chileno de esquerda Pablo Neruda.

AFP
Ingrid é recebida pelo presidente francês Nicolas Sarkozy na sexta-feira em Paris
Ingrid é recebida pelo presidente Nicolas Sarkozy na sexta-feira em Paris

Sua libertação mobilizou igualmente o governo norte-americano, que “ignora” as relações que Álvaro Uribe, atual presidente colombiano, manteve com Pablo Escobar, o líder do Cartel de Medelín.  Ingrid foi seqüestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2003, quando em campanha pela presidência de seu país, e mantida em cativeiro até o dia 2 de julho de 2008.

Não quero refletir sobre o caso em si. Há, na Espanha, hoje, 220 mil imigrantes colombianos legais, tão colombianos quanto Betencourt, mas, muito ameaçados, psicologicamente, pela “Diretriz de Retorno”, aprovada pela União Européia, sob a presidência de José Manuel Barroso Durão, um português, em 18 de junho passado.

A lei transforma em crime a imigração ilegal, tipificando-a, e sancionando-a com pena de seis a meses a um ano e meio de prisão. Ou seja, se um brasileiro entrar ilegalmente na Europa, pode permanecer preso até por dezoito meses, além das outras penalidades aplicáveis. A lei entra em vigor apenas em 2010, mas, reflete o colapso do sistema jurídico humanista europeu diante da crise econômica. Revela sua face colonialista.  Sua covardia diante das crises!

Há menos de um ano, a Espanha estimulava a chegada de marroquinos, colombianos, peruanos e brasileiros, que compõem seu maior contingente de imigrantes.  Precisava de mão de obra barata e “acuada”. Agora, com a crise, precisa de mão de obra ainda mais barata e ameaçada – seja “legal” ou “ilegal”.

Reuters
Zapatero, primeiro-ministro da Espanha
José Luis Rodríguez Zapatero, um “social-democrata”, enviou, em junho, por meio de seu Ministro da Justiça, Mariano Bermejo, projeto de lei ao Congresso espanhol, que prevê o controle do Conselho Geral do Poder Judiciário pelo Parlamento.

Segue a trilha do “fascista” Silvio Berlusconi, que tipificou como crime o ato de um Juiz de Direito autorizar, em investigações de improbidade administrativa, escutas telefônicas. Os europeus são marionetes dos EUA.

Antes da Primeira Guerra Mundial “estavam pouco interessados na Europa como entidade política”, no dizer de Demétrio Magnoli. A idéia de união do continente adveio de sua destruição, provocada pela Segunda Guerra, e, sobretudo, adveio da Doutrina Truman, de Harry Truman, presidente do EUA, de 1945 a 1952.

Truman afastou-se da Doutrina Monroe (1823), que continha os norte-americanos nos limites das Américas, e projetou a luta política de seu país – durante a Guerra Fria –, que sucedeu a Segunda Grande Guerra, para a Europa, (visando a impedir “a expansão do comunismo”) o que acabou por unificá-la. Truman lançou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, dividiu a Alemanha e Berlim em duas, ao lado de Josef Stalin e Winston Churchill e criou a CIA. Antes de se eleger presidente, dizia que “um homem era tão bom quanto outro desde que não fosse negro ou chinês”.

O Congresso estadunidense transformou, agora em junho também, o Programa George W. Bush de escutas ilegais em lei. Essa lei permite que, qualquer cidadão, seja “escutado” (violentado no direito fundamental de sua privacidade), sem prévia ordem judicial, em nome da Guerra ao Terror – entrelaçada, como se vê, com a Doutrina Truman, embora a Guerra Fria esteja extinta desde o fim da União Soviética, em 1991. 

Os europeus não podem prescindir dos “negros” e dos “chineses” de Truman, porque detestam trabalhar, desde os tempos das colônias. É como Oswald de Andrade descreve em “Negro fugido” (1924) “O Jerônimo estava numa outra fazenda / Socando pilão na cozinha / Entraram / Grudaram nele / O pilão tombou / Ele tropeçou / E caiu / Montaram nele”.

Afirma José Maria Zufiar, conselheiro do comitê social e econômico da UE, que a política social européia deixa ser solução – e exemplo para o mundo – para se tornar problema. É a vitória de Margareth Thatcher, que relançou o neoliberalismo no mundo nos anos 1980 (privatizações, crença no mercado), e liquidou especificamente o Estado do Bem Estar Social, erigido dos escombros da Segunda Guerra, pelos  centro-esquerdistas europeus ocidentais.

As guerras contra o Afeganistão e Iraque e a recessão norte-americanas, e o baixíssimo crescimento europeu, decorrente de sua preguiça “colonial” atávica, pressionado pelo débâcle de Washington, levam a essas leis, como a batizada de “Diretriz de Retorno” – um eufemismo fascista.

AP
Obama, candidato democrata nos EUA
Obama, candidato democrata nas eleições dos EUA
Churchill e, sobretudo, Truman pairam vitoriosos, com a expansão infinita dos valores de direita, dos valores da mais valia, ou no dizer de Slovoj Zizek “a verdadeira utopia é a crença que o sistema mundial atual (capitalista, sem direitos humanos) possa se reproduzir de forma indefinida”. Lembra Zizek ainda, citando Nicholas Stern, que o aquecimento global é o maior fracasso de mercado da história humana! 

A vitória do negro Barack Obama nas próximas eleições norte-americanas é a única esperança, embora limitada, tangível no horizonte, de reversão desse quadro de avanço do capitalismo sem direitos e de profunda anomia social. Caso contrário, como no poema de Neruda (“Alturas de Machu Pichu, V”), seguiremos, ao tentar matar essa morte de hoje, encontrando apenas uma rajada fria.

Leia também:


Saiba mais sobre o escritor Régis Bonvicino





US Multimídia


Publicidade


Matérias Relacionadas


Enquete