27/06 - 11:02 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – ”Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!”. Mas, o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. – Toma diabo!, dizia ele; toma mais perdão bêbado!. Meu senhor!, gemia o outro. Cala a boca, besta!, replicava o vergalho. Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio – o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. – É sim, nhonhô.
– Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas
Antonio Caño, correspondente do El País em Washington, observa, em artigo de 1º de maio de 2008, que Barack Obama coloca-se – no cenário político-eleitoral – como um negro sem vínculo direto com as lutas históricas de Martin Luther King ou dos Black Panthers (anos 1960/70): “os eleitores podem, enfim, votar em um negro que não é igual aos que conheceram até esse exato momento, um negro que não acusa os brancos de terem inventado a AIDS para dizimar a população negra, e que pleiteia dirigi-lo, ao contrário de chamar o governo norte-americano de terrorista, causador direto dos atentados de 11 de setembro de 2001, em virtude de sua política externa, como [faz] o Reverendo Jeremiah Wright”. Com carisma e serenidade – acrescento.
Conclui Caño que o maior problema de Obama é que muitos negros pensam, calados, o que Wright expressa, e o que Wright expressa representa, ao mesmo tempo, o que muitos brancos temem, calados. Desvio-me: em One + one (1968), filme baseado na gravação de "Sympathy for the Devil", dos e com os Rolling Stones, Jean Luc Godard mostrava os Black Panthers numa garagem de veículos sucateados em Los Angeles, abusando de sua “retórica” revolucionária, às vezes verborrágica, e traficando drogas. Godard ridicularizava também o Maio de 1968. Aliás, ridicularizava, na película, todas as pseudo-manifestações revolucionárias, digamos, juvenilizadas, como um vidente.
| Getty Images |
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| Obama é comedido com relação à política externa americana |
De acordo com o ex-ministro das Relações Exteriores de Israel, Shlomo Ben-Ami, (El País, 1/5/2008), a aventura de George W. Bush no Iraque criou, no país invadido, o primeiro Estado árabe dominado inteiramente por xiitas, o que, por afinidade étnica e religiosa, alinhou-o automaticamente com Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã. Ahmadinejad ignora, hoje, as ameaças de Bush de penalizar o Irã nuclearizado, porque as guerras preventivas fracassaram, haja vista a do próprio Iraque, e não encontram mais nenhum apoio na sociedade norte-americana – jogada numa recessão brutal, nas palavras do escritor norte-americano Russell Banks. Outra das conseqüências da Guerra do Iraque foi que, segundo o ex-ministro de Relações Exteriores de Israel, os bushistas absorvidos por ela entregaram as cabeças palestinas a Israel, acirrando os conflitos no Oriente Médio. Segundo o escritor mexicano Carlos Fuentes, Sadam Hussein era inimigo de Osama Bin Laden, e a invasão, seguida de longa permanência, converteu o Iraque em celeiro de terroristas para Al Qaeda, Hamas e Hesbolá.
Obama mobiliza multidões
Obama precisa neutralizar o Irã e, ciente da tarefa, diz: “se nossos oponentes buscam a destruição, é difícil sentar-se com eles. Todavia, podemos animá-los a pensar em termos práticos, e não em termos ideológicos”.
Sobre o Hamas e o Hezbollah, não hesita em diagnosticar: “meteram-se num beco sem saída de violência, o que debilita suas pretensões”. O historiador Eric Hobsbawm nota que os impérios sobrevivem com a paz, e não com a guerra, que os solapa. Obama parece saber disso.
Obama inspira-se na filosofia dos Pais Fundadores e na dinastia Kennedy. Ouça-se o esquerdista Russell Banks: “Não vejo um político norte-americano suscitar tamanho entusiasmo entre os jovens desde Robert Kennedy, em 1968, antes de seu assassinato, em plena campanha. Ninguém, desde Bobby, conseguiu motivar de tal maneira ricos e pobres, brancos, negros e hispânicos, numa coalizão inédita desde Franklin Roosevelt” (Folha de S. Paulo, 16/3/2008).
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"Tio Sam", personagem dos EUA |
Por que os republicanos o apóiam? Dizem que, antes de serem republicanos, são norte-americanos, e que Obama rechaçou as políticas de divisão interna e a atitude de vencer a qualquer preço. É verdade. Não aceita doações de empresas e se vale da internet para arrecadar capital junto aos cidadãos – inovação, num país de políticos tão corruptos quanto os latino-americanos.
Seu plano econômico, lembra o poeta Charles Bernstein, alinha-se com a ala moderada dos economistas, o que "é bom para os negócios". Resta saber "como ele irá redistribuir a renda recorrendo ao imposto progressivo e eliminando as brechas fiscais que beneficiam os fundos de derivativos e os super-ricos".
Na matéria de El País, de 20 de junho de 2008, que relata o apoio de republicanos a Obama, o repórter Juan Carlos Galindo escreve, revelando racismo (seu ou dos republicanos?): “Son desencantados de todo o tipo y condición que ahora hacen campaña por um candidato demócrata y negro” [grifo meu]. A feminista e esquerdista Camille Paglia o apóia pelas mesmas razões: “Ele me impressionou muito porque está decidido a desfazer a divisão profunda que há entre republicanos e democratas. Essa divisão, que critico há anos, paralisou Washington” (O Estado de S. Paulo, 1/6/2008).
Paglia considera Obama um “homem de esquerda”. O título do mais recente livro de poemas de Bernstein, Girly man (2006), é ironia com a expressão utilizada, quando da invasão do Iraque, pelo governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que vaticinou: “Quem não apóia a guerra é um girly man" [viado, efeminado]. Schwarzenegger é casado com Maria Shriver, filha do político Sargent Shriver e de Eunice Kennedy, irmã de John, Bobby e Ted Kennedy. Maria foi, antes do casamento, destacada jornalista e também autora de alguns livros. É uma big supporter (grande apoiadora) de Obama. É a geléia geral norte-americana ou um momento realmente novo, no qual os partidos vão se reconfigurar de modo mais sólido?
| AP |
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| "Mudanças" - slogan de campanha de Barack Obama |
O que é a filosofia da Independência? A filosofia dos Pais Fundadores? É a que faz os norte-americanos verem, em sua “República”, um experimento exemplar, superior às demais repúblicas, a ser preservado a qualquer preço. Há nele um traço religioso: os Estados Unidos são a nação eleita por Deus para regenerar o mundo por meio da difusão de sua ideologia e de suas instituições. Ou seja, como ensina Marcelo Santos (O poder norte-americano e a América Latina no pós-Guerra Fria, Annablume, 2007):
Tais concepções, quando combinadas, acabaram gerando características permanentes da política externa norte-americana [...]. Primeiro: os Estados Unidos se colocam como um modelo de sociedade a ser imitado [...]. Daí decorrem as suas dificuldades no sentido de grandes acordos que limitem suas ações no sistema internacional. Segundo, as posições dos Estados Unidos são apresentadas como missão, um direito ou um dever no sentido de preservar ou difundir os seus excepcionais ideais democráticos e libertários, ainda que seus interesses possam ser expansionistas, imperialistas e intervencionistas.
É inegável a radical natureza norte-americana de George W. Bush, que, aliás, tem um único mérito: o do fracasso rotundo de seu governo, que permitiu a ascensão de Obama, o provável próximo presidente dos Estados Unidos, “demócrata y negro”. Nunca houve, por exemplo, um dirigente negro em Cuba! Ou um presidente negro no Brasil.
“Dois Obamas”
David Brooks, colunista de The New York Times, afirma, comentando o fato de existirem, para ele, dois Obamas, o dr. Barack e Fast Eddie Obama: “Há décadas não víamos uma criatura política tão eficaz quanto ele. Nem mesmo Bill Clinton teve a esperteza necessária para triunfar na política fingindo renunciar à política”. Dr. Barack é o liberal, o idealista, o “sim, é possível mudar”, ao passo que Fast Eddie Obama é o pragmático que se desfaz do reverendo Wright em segundos, do financiamento público de campanhas em um minuto etc. Faz política fingindo que não a faz. Ora, somente um idiota não percebe que Barack Obama é, em primeiro lugar, um grande político, que, em pouco mais de um ano, destroçou o clintonismo.
O mexicano Carlos Fuentes – amigo de Ted Kennedy – considera Obama de “esquerda”. Na opinião de Bernstein, Obama "parece ser de centro-esquerda, mas não é, pois, assim como Clinton, tem impulsos centro-direitistas que talvez possam ser refreados pelo povo norte-americano, mas ainda é cedo para saber; se bem que, em comparação com Bush...".
Fidel Castro foi – com todos os seus erros gravíssimos no que se refere à condução interna do governo de Cuba – o único político latino-americano que afrontou o etnocentrismo norte-americano, que considera os latino-americanos “seres inferiores”. Castro fez a única revolução americana, além da revolução norte-americana.
| AP |
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| Multidão comparece ao comício do democrata Barack Obama |
Até hoje a direita dos Estados Unidos não perdoa John Kennedy por não ter invadido Cuba no episódio da Baía dos Porcos e trucidado Castro e Che Guevara. Ouviremos de Fast Eddie Obama: “Cala a boca, besta!”? Na verdade, a inepta e bélica elite branca daquele país lança desafios dificílimos ao escravo liberto. Há, nos Estados Unidos, 37 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza – o que representa uma Argentina e três Chiles. Democratas e republicanos transformaram em lei o programa de George W. Bush de escutas ilegais, agora, em junho de 2008. A nova lei permite escutas telefônicas sem ordem judicial (ou seja, sem ordem de um Juiz de Direito, autoridade qualificada, que pertence a um Poder independente), em casos nos quais esteja “ameaçada” segurança nacional. A lei garante imunidade econômica às companhias telefônicas, vedando ações de indenização contra elas. Aumentou o prazo das escutas de três dias para uma semana. McCain liderou os republicanos no trabalho de aprovação dessa lei. Barack Obama a revogará ou Fast Eddie a cumprirá, mantendo, desse modo, a supressão da democracia promovida por Bush naquele país?
Obama e Cuba
Obama afirma que negociará com o regime cubano sem condições prévias, para avançar a causa da democracia em Cuba, e arremata: “nunca negociarei a causa da liberdade”. Uma pausa: essa é afirmação chave que o alinha – pasmem – à Doutrina Monroe, de 1823, ou seja, quando um norte-americano pronuncia a expressão “causa da liberdade” quer dizer luta pela supremacia dos Estados Unidos – que optaram por não terem colônias formais, mas informais, manejadas a distância econômica e culturalmente. Aliás, com a vitória na Guerra Hispano-Americana de 1898, os EUA garantiram sua supremacia em Cuba e, em 1903, foram autorizados a instalar uma base militar em Guantánamo. A Doutrina Monroe teve inúmeros “nomes” ao longo de dois séculos: Pan-Americanismo, Solidariedade Continental, Política do Big Stick, Diplomacia do Dólar, Imperialismo Moral, Defesa do Mundo Livre, Aliança para o Progresso, Guerra contra o Terror.
No entanto, as posições de Barack Obama são bem mais progressistas do que as de John McCain – que se propõe a seguir as diretrizes republicanas tradicionais para a ilha: embargo econômico etc. Obama embaralhou-se, todavia, em suas próprias palavras ao dizer que, se Raúl Castro libertar seus presos políticos, as relações começarão a ser retomadas em tom suave, quando há, hoje, mais presos políticos nos Estados Unidos do que em Cuba, haja vista Guantánamo e Abu Graib, além das prisões secretas espalhadas urbi et orbe, com estrangeiros e cidadãos norte-americanos de oposição dentro delas.
Obama x líderes mundias
Cabe uma indagação pragmática: Lula da Silva – o homem do regime de mercado – é mais honesto ou está mais à esquerda do que Barack Obama? Destaque-se que, em 2003, Lula condenou a invasão ao Iraque e, na mesma semana, apoiou os fuzilamentos ordenados por Fidel em Cuba. Com exceção de Michelle Bachelet, do Chile, e talvez Fernando Lugo, do Paraguai, os atuais presidentes latino-americanos não podem ser levados a sério em suas posições ideológicas e em outros quesitos, como a probidade, por exemplo. Ao perceber-se eleito em 2001, Lula atirou-se nos braços de Bush, por meio do banqueiro Henrique Meirelles, e Fernando Henrique Cardoso é amigo de Bill Clinton, um político corrupto, que governou por meio do Consenso de Washington: estelionato monetário, que empobreceu os latino-americanos que passavam férias em Orlando, enquanto seus parques industriais desapareciam, com a paridade das moedas “locais” com o dólar.
O que dizer do casal Kirchner, que isolou a Argentina do mundo e é acusado diariamente de corrupção? O que dizer do traficante Álvaro Uribe (infelizmente, já respaldado por Fast Eddie)? Nada há a se dizer sobre Hugo Chávez. Ou há? Outra questão pragmática: Nicolas Sarkozy, Gordon Brown? Angela Merkel, Hu Jintao José Luis Zapatero ( o mais digno dirigente de um país europeu hoje) Todos eles, são melhores que Obama?
Obama é melhor opção que McCain
Apesar de reencarnar – em certa medida – o sonho totalitário dos Pais Fundadores, Barack Obama é, evidentemente, muito melhor opção do que McCain, que compartilha os mesmos pontos de vista de George W. Bush no que se refere à Guerra do Iraque, à segurança das fronteiras (evitar imigrantes), à economia (quer aumentar o corte de impostos) e às políticas de saúde pública (pretende privatizar o atendimento); McCain apóia maior “supervisão” no que tange às “técnicas” de interrogatório dos prisioneiros de guerra; todavia, concorda com Bush quanto à restrição dos direitos legais dos presos de Guantánamo.
McCain é, como Bush, contra o direito ao aborto. As únicas divergências entre os dois ocorrem no que toca à questão do meio-ambiente e do clima, na qual o candidato é favorável aos tratados internacionais, como o de Kioto, e ao multilateralismo, quando declara, rompendo com a Doutrina Monroe: “não podemos construir uma paz duradoura baseados apenas em nosso conceito de liberdade”.
Recente pesquisa do Pew Center on Global Climate Change, fundado em 1998, revela, num fato inédito, que, se dependesse do eleitorado mundial, Obama estaria eleito, ao vencer em 21 dos 23 países nos quais os eleitores foram consultados, entre eles, França (ou ex-França?), Alemanha e Espanha. Espera-se, em nível global, que o dr. Barack Obama vença Fast Eddie Obama, que vença Prudêncio, supere o totalitarismo dos Pais Fundadores, aja de um modo multilateral, rompendo com a Doutrina Monroe, abandone o etnocentrismo racista, porque o candidato de Bush já está derrotado. E a democracia, esvaziada pela soberania do “indivíduo” e das empresas, precisa de um novo Tio Sam, ou há alguém que prefira o modelo chinês de Jintao? Um Tio Sam ex-etnocêntrico, ex-bárbaro tecnológico, substantivamente democrático, civilizado, ao eleger um NEGRO, mesmo que centrista, para comandá-lo.
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