Madri, 27 mai (EFE)- O Jornalismo vive uma "mudança de época" proporcionada pela revolução digital que transformou dramaticamente o papel social e político dos meios de comunicação, segundo especialistas reunidos em Madri pela Fundação Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI), presidida por Gabriel García Márquez. Organizado pela Casa da América e pela Agência Efe para a Tribuna Ibero-Americana, a Fundação convidou para o debate três dos professores da Fundação: o brasileiro Rosental Alves, o francês Jean François Fogel e o espanhol Gumersindo Lafuente. Um quarto docente da escola de jornalismo fundada e inspirada pelo prêmio Nobel de Literatura colombiano chamou para anfitrião o presidente da Agência Efe, Álex Grijelmo, que apresentou seus companheiros como "autênticas referências do novo jornalismo, mas que procedem do anterior" e como "professores de nossa profissão". Os três concordaram na certeza de que a mudança já começou a ser produzida e de que é incerto o alcance de uma transformação "gigantesca, só comparável ao que ocorreu quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa moderna", disse Alves. Este pioneiro do jornalismo digital na América Latina que hoje é professor na Universidade do Texas, destacou que a "internet é a ponta do iceberg de algo muito maior que está acontecendo no mundo, uma revolução digital que está substituindo a sociedade industrial pela sociedade da informação e do conhecimento". "Estamos perante uma mudança no que signific...
Os efeitos, explicou, já são notados: "Nos Estados Unidos é um verdadeiro banho de sangue nas redações. Ao longo da década, 3.600 postos de jornalistas foram eliminados".
Fogel, impulsor da página digital do francês "Le Monde", declarou que estamos perante "um mundo totalmente transformado", no qual os jornais de papel "perdem circulação e publicidade a um nível que era muito difícil de imaginar há pouco tempo".
"Morrerá o jornal que chega para nos dizer o que ocorreu ontem, porque o que passou ontem já lemos, já vimos e já comentamos", previu Fogel, que acredita que o futuro do jornal clássico é "seguir assumindo o papel de aglutinador político, o papel de um meio que ajuda a sociedade a se encontrar".
A curto prazo, afirmou o autor do ensaio "Uma imprensa sem Gutenberg", veremos grandes jornais "que não terão em sua capa a grande notícia do dia anterior, mas apostarão em outra coisa".
O termo revolução foi empregado também por Lafuente, ex-diretor da página digital do jornal espanhol "El Mundo" e diretor do jornal digital "soitu.es", que falou de "uma mudança de época absoluta (...) que não sabemos em que direção nos leva".
Frente a essa incerteza, disse, "sabemos que está ocorrendo algo pela primeira vez na História da Humanidade e, sobretudo, da imprensa: passamos de um quase oligopólio na criação de informação e opinião a uma situação na qual qualquer pessoa pode se transformar em emissora de informação e criadora de opinião".
Usou como exemplo Twitter, o serviço de redes sociais e MicroBlogging que permite a seus usuários publicar textos que nos últimos anos se transformou "em uma ferramenta muito poderosa de informação imediata e de expansão do rumor".
Em relação à mudança, Lafuente argumentou que a indústria midiática "ainda tem tempo de reagir", mas constatou que essa indústria "ainda está na situação de negação do que está ocorrendo, o que impedirá que seja protagonista da mudança".
Sobre o futuro das agências de informação, Lafuente afirmou que "têm um problema", porque o que oferecem "já começam a ser feitos por outros e fazem de outra maneira", e porque "têm um modelo de negócio que é frágil no futuro que se aproxima".
Rosental discordou, defendendo que as agências "têm uma grande oportunidade", em um contexto no qual "o mundo está se 'agenciando'" por causa da necessidade de proporcionar informação com velocidade e eficácia.
"Estamos aprendendo a fazer o que os senhores faziam há 150 anos", disse.
O debate não deixou de lado a própria essência do jornalismo, que como lembrou o presidente da FNPI, o colombiano Jaime Abello, parafraseando García Márquez, está "na ética, na pesquisa e na arte de contar histórias". EFE fpb/bm/db