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Kossovo: 15 tópicos para entender a tragédia que se inicia

17/02 - 17:24, atualizada às 20:57 17/02 - Leão Serva, Especial para o Último Segundo*

A independência do Kossovo quebra todos os paradigmas da política internacional até hoje. É uma bomba que vai explodir em vários outros países em pouco tempo, reacendendo a tensão nacionalista ou étnica em várias nações do mundo.

Falando em bom português, trata-se da maior bobagem da diplomacia internacional em muitas décadas e nela há uma impressão digital muito forte do microcéfalo George W. Bush. Numa viagem recente aos Bálcãs ele incentivou o movimento autonomista do Kossovo tendo como aparente motivação a fé no discurso pró-americano de seus militantes. Um engano como crer em uma nota de dois dólares impressa em Prístina (a capital do Kossovo).

O que acontece: pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, em 1991, as potências e os organismos internacionais (como ONU e União Européia, etc) deixam um país existente, com fronteiras reconhecidas internacionalmente (no caso, a Sérvia) se fragmentar, deixam um pedaço de país inexistente até então romper os laços com o resto da nação e se tornar independente.

Isso pode despertar imediatamente uma série de "monstros"
nacionalistas, étnicos. Não há mais razão para os curdos da Turquia não quererem ser independentes (e em seguida se juntarem aos do Iraque); não há razão para os núbios não quererem se separar do Sudão; não há razão para os sérvios da Bósnia ficarem sob o governo dessa ex-república (para em seguida se juntar à Sérvia mesmo). E os japoneses das ilhas Kirilas, porque têm que ser parte da Rússia? São centenas de casos desse tipo em todo o mundo.

Para entender esse imbróglio do Kossovo, convém olhar o mapa. Sugiro ir ao Google Maps, digitar "Kosovo" na janela de busca e levar a lupa no canto superior esquerdo até a posição de 200km/100 mi (essa proporção você vai conferindo no canto inferior esquerdo). Desse jeito você terá a Europa do Leste na sua tela, com os Bálcãs em destaque.

Vamos a algumas informações listadas de forma não linear:

1) Kossovo se pronuncia "Kôssovo" e se escreve em inglês "Kosovo".
Como a imprensa brasileira vive de despachos das agências internacionais, o nome da província vem sendo grafado com um S só, o que não se justifica por nenhum manual de padrão para aportuguesamento.

2) O Kossovo é uma província da Sérvia, que por sua vez é uma ex-república iugoslava. Seu caso não é, portanto, como o de Eslovênia, Croácia ou Bósnia, que eram repúblicas dentro da Federação Iugoslava fundada em 1945 e se tornaram independentes em entre 1991 e 1992;

3) Kossovo, Sérvia, Albânia, Hungria, Romênia, Bulgária, Montenegro, Macedônia, Grécia e o pedacinho europeu da Turquia forma a península dos Bálcãs, no sudeste da Europa. A população dos Bálcãs é formada por centenas de povos diferentes, todas misturados em um mosaico de etnias e nações muito complicado, com muitos reivindicando direito a nações independentes. Essa confusão fez com que no começo do século 20 a expressão "balkan", em francês, quisesse dizer confusão, briga de cortiço, "um barraco"; pela mesma razão, "Macedônia" é o antigo nome da salada de frutas em várias línguas européias.

4) No território da atual província do Kossovo nasceu, centenas de anos atrás, o reino dos Sérvios. Era um reino medieval que durante a decadência do império Romano do Oriente (ou Bizantino) chegou a se constituir como uma referência regional. Os sérvios são eslavos (vieram da Ásia no começo da era cristã, como os russos, os croatas, os tchecos, os eslovacos, os eslovênios e os macedônios atuais). O reino dos sérvios tinha a religião cristã ortodoxa, bizantina, e vivia seu apogeu medieval no século 14, quando a região foi invadida pelos turcos-otomanos, povo vindo da Ásia que adotou a religião muçulmana.
Os turcos conquistaram os Bálcãs ao longo do século 14 e a sua grande capital, Constantinopla, em 1453. O reino dos sérvios foi derrotado em uma grande batalha em 1389 (pouco mais de 600 anos atrás) e a maioria dos sérvios fugiu da região nos anos seguintes, migrando para reinos ao norte, dominados pelas potências cristãs, concentrando-se em território de população croata (mesma origem eslava, mesma língua, mesmo tudo, mas religião cristã católica romana), em áreas chamadas Krajina, Eslavônia e em torno da cidade de Belgrado, nas margens do Danúbio, que ficou sendo sua capital. Com isso, os sérvios passaram a ser dominantes ao norte do Kossovo, mas mantêm com sua terra de origem uma relação como a que os judeus têm com Jerusalém: ali estão os marcos históricos de seu povo e de sua religião;

5) com a migração de sérvios para o norte, o principal área de população sérvia passou a ser em torno de Belgrado e na região litorânea entre a Albânia e a Bósnia, numa região chamada em sérvio Monte Negro. Na segunda metade do século 19, quando a Europa assistia a decadência veloz do Império Otomano, essas duas áreas geraram os primeiros países ao mesmo tempo independentes dos turcos e da grande potência européia a rivalizar com eles, o Império Austro-Húngaro.
Nasciam assim, mais ou menos ao mesmo tempo, a Sérvia, Montenegro e o nacionalismo eslavo, fruto da convicção de que era possível conseguir formar nações independentes das grandes potências.

6) A partir da Idade Média, aquela mesma diáspora sérvia deixou no Kossovo uma grande população albanesa. Ao longo da segunda metade do século 20, já sob domínio da Sérvia, parte da Iugoslávia, a população sérvia foi se retirando paulatinamente. Ao mesmo tempo, tanto por ter uma fertilidade maior quanto por migrações de albaneses que deixavam a Albânia (com seu regime super-estalinista e paupérrimo), a população albanesa foi aumentando a sua participação. Nos anos 1960, eram 20% de sérvios contra 80% de albaneses; nos anos 1990 eram 10% a 90%; hoje são 5% de sérvios, majoritariamente velhos e concentrados junto à divisa com a Sérvia.

7) Junto com os bascos, do norte da Espanha e sul da França, os albaneses são o povo mais antigo da Europa, descendente dos antigos Ilírios. Eles estavam ali demarcando a fronteira norte do território grego, ao tempo de Homero, Atenas e Esparta; assistiram de suas montanhas a chegada dos eslavos vindos do Norte nos primeiros séculos da Era Cristã; testemunharam a chegada dos turcos ao longo da Idade Média e durante o domínio destes sua população se converteu majoritariamente ao Islamismo. Quando se fala dos bósnios muçulmanos, trata-se de uma distinção religiosa (uma população eslava de sérvios e croatas, que se converteu ao islamismo); já os albaneses são um grupo étnico predominantemente muçulmano.

8) Em 1912, a Albânia foi uma das últimas nações balcânicas a se tornar independente da Turquia. Suas fronteiras deixaram para fora populações albanesas em Montenegro, na Sérvia (em Kossovo e numa área chamada de Presevo) e numa área disputada por sérvios, búlgaros e gregos, que viria a se chamar Macedônia (a disputa é tão grande que até o nome é disputado pela Grécia). Desde então, a questão albanesa é um fator de instabilidade microrregional em todos esses países.

9) Ao longo dos anos 1980 e início dos 90, os albaneses do Kossovo moveram uma grande campanha pela independência e todos os analistas diziam que por ali começaria a fragmentação da Iugoslávia. Entre 1989 e 1991, logo depois de tensas comemorações dos 600 anos da Batalha do Kossovo (em que os sérvios lembram sua derrota), o governo sérvio diminuiu a autonomia institucional da província. Isso aumentou a tensão e a agitação dos movimentos autonomistas. Mas quando começaram as guerras civis na Eslovênia, na Croácia (em 1991) e na Bósnia (em 1992), os kossovares ficaram contidos, assistiram as sucessivas derrotas dos sérvios.

10) A partir dos acordos de Daytona, que puseram fim à guerra da Bósnia, os sérvios se voltaram para o Kossovo como o próximo risco. Os albaneses de Kossovo surfavam sobre a fraqueza internacional e militar dos sérvios. Em 1999, diante dos sinais claros que perdiam o controle sobre o território, o governo da Sérvia decidiu intervir de forma mais agressiva em sua província. Não aumentou o controle e chamou contra si a comunidade internacional. O resultado foi que a pequena Sérvia foi atacada pela maior coligação militar do mundo, a OTAN. Foi uma surra que só não foi rapidíssima porque a OTAN (liderada pelos EUA) não quis pôr seus soldados no chão em confronto direto com os sérvios, preferindo bombardear durante três meses os pontos de resistência do Estado sérvio (então governado pelo ex-comunista Slobodan Milosevic, de triste memória). Desde então, o Kossovo é administrado pela ONU, embora formalmente parte da Sérvia.

11) Os albaneses de Kossovo querem a independência da Sérvia para em seguida se unir à Albânia. Como, será decidido após à declaração de independência, ao longo dos próximos meses ou anos. Mas não deve demorar muito, como não demorou a unificação alemã, quando caiu o regime comunista na Alemanha Oriental, em 1989.

12) Logo depois da chamada Guerra do Kossovo, entre 1999 e 2000, movimentos separatistas dos albaneses da Macedônia iniciaram uma agitação armada, tentando se beneficiar de um "efeito dominó". Mas em seu caso, a Europa apoiou a repressão imediata pelo governo (predominantemente eslavo) instalado na capital, Skopie. Essa história vai se repetir a partir de agora, devolvendo à Macedônia a tensão que fez com que o jornalista John Reed (autor do clássico sobre a Revolução Soviética de 1917, "Os Dez Dias que Abalaram o Mundo") escrevesse em 1916 que "a questão da Macedônia tem sido a causa de toda guerra importante na Europa pelos últimos 50 anos, e até ela ser resolvida não haverá paz nem nos Bálcãs nem fora deles. A Macedônia é a mais apavorante mistura de raças jamais imaginada. Albaneses, sérvios, romenos, gregos e búlgaros vivem ali, lado a lado, sem se misturar e têm vivido assim desde os dias de São Paulo".

13) A história não se repete, dizia Hegel; uma vez ela ocorre como tragédia e outra como farsa, acrescentou Marx. No caso dos acontecimentos mais recentes nos Bálcãs, estamos assistindo a um
neo-marxismo: as farsas estão se repetindo como prenúncio de tragédias. Certamente a primeira farsa foi a própria guerra do Kossovo, em 1999 (um simulacro de Guerra da Bósnia, preparado para que os Estados Unidos fizessem o que se arrependiam de não ter feito antes, a intervenção para satisfazer à sua população chocada pela violência de europeus contra europeus mostrada na mídia); a segunda farsa é a independência do Kossovo (simulacro da independência de Eslovênia e Croácia); a terceira farsa será a união com a Albânia (simulacro de unificação alemã) e a constituição de uma grande potência regional muçulmana dentro da Europa cristã. A tragédia então será a tentativa de impor um processo semelhante com os albaneses da Macedônia.

14) O século 20 começou marcado pela violência étnica nos Bálcãs (estopim da Primeira Guerra Mundial; acabou sob a violência étnica nos Bálcãs (com as guerras civis sucessivas). O século 21 tem no seu começo essa sombra. A inabilidade da política externa dos EUA e da União Européia vai deixar o risco se tornar realidade.

15) Provavelmente a única chance dessa profecia não se realizar é uma reversão na tendência atual, que só é possível com uma intervenção clara da União Européia que, em vez de deixar o nacionalismo se impor na forma de diversas nações inviáveis imponha um poderoso desenvolvimento regional com grandes linhas de crédito (mais ou menos como vem sendo realizado na Alemanha Oriental), para integrar pelo bolso o que o nacionalismo pode desintegrar pela demência.

* Leão Serva é jornalista, autor de "A batalhe de Sarajevo" (1994) e "Jornalismo e Desinformação" (Senac/2001). 





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