2008, o ano de todos os russos

A Rússia surpreendeu o mundo em 2008, ao impor sua lei à Geórgia, vingando-se das humilhações pós-soviéticas, mas termina o ano desiludida, em meio ao turbilhão da crise financeira mundial.

AFP |

Na manhã de 8 de agosto, tanques, blindados leves e de transportes de tropas russas entravam em massa na Ossétia do Sul, algumas horas depois do início de uma ofensiva georgiana para tentar recuperar esse território separatista pró-Rússia.

Em cinco dias, o Exército russo invertia a relação de forças no terreno, invadindo boa parte do território georgiano e colocando-se às portas da capital, Tbilisi.

Imagens inéditas desde a intervenção soviética em Praga, ou no Afeganistão, estampavam os jornais do mundo inteiro: soldados russos vitoriosos, bradando "Tbilisi! Tbilisi!" do alto das torres blindadas de seus tanques.

"Pela primeira vez desde a queda da URSS, em 1991, a Rússia recorreu às Forças Armadas fora de suas fronteiras. O Ocidente não pôde nem prever, nem impedir essa guerra", comentou Maria Lipman, analista do centro americano de pesquisas Carnegie em Moscou.

O governo russo, que há meses vinha elevando o tom contra a expansão da Otan às suas fronteiras, contra o projeto de escudo americano antimísseis na Europa, ou contra a independência do Kosovo, endureceu a retórica para deixar claro que não recuaria na defesa de seus interesses.

"Pela primeira vez, a Rússia agiu sem levar em conta as reações exteriores, um fator que a influenciava anteriormente em suas decisões", constatou Fedor Lukianov, editor-chefe da revista "A Rússia na política mundial".

Do mesmo modo, o presidente Vladimir Putin orquestrou sua "sucessão" de modo magistral, conseguindo eleger Dimitri Medvedev, no Kremlin, e assumindo o cargo de primeiro-ministro, sem se importar com o que o Ocidente diria.

"Para ele, o essencial é que tudo continue sob seu controle", resumiu Lukianov.

A ofensiva russa, que foi acompanhada de um forte retorno do sentimento nacional frente à vitória sobre um aliado dos Estados Unidos (a Geórgia), fez emergir todas as suspeitas do Ocidente, onde o medo dos "excessos" do imperialismo russo continua bastante vivo.

"Cada manifestação de independência da Rússia ressuscita as velhas fobias. A 'Rússia expansionista' contra os pequenos povos apaixonados pela liberdade: esse clichê secular não desapareceu", ressaltou Lukianov.

Para o ego russo, à euforia reinante em relação à Geórgia acrescenta-se uma série de títulos cobertos pela imprensa: campeão mundial de hóquei sobre o gelo, vitória no Festival Eurovisão, semifinal do campeonato Eurocopa e, finalmente, Miss Mundo.

Enquanto a Rússia parecia no auge, em agosto, graças à sua vitória militar e a seus petrodólares, as coisas de repente mudaram de rumo no outono, com a crise financeira internacional e com a queda do preço dos hidrocarbonetos, sua principal fonte de receita.

Após atingir 7%-8%, o crescimento russo se desacelerou bruscamente, a ponto de alguns analistas falarem, inclusive, de recessão - ainda que a projeção oficial seja de "até 3%" em 2009.

Os investidores estrangeiros se distanciaram, o rublo se desvaloriza, e a torneira do crédito está secando, o que leva a prever um início de 2009 muito difícil para essa economia ainda emergente, sobretudo, no plano social.

"A crise relativiza as idéias sobre as possibilidades ilimitadas da Rússia, que não parece mais subitamente tão estável como há um ano", comentou Lipman.

or-vl/tt

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