26/10 - 12:17 - EFE

Bangcoc - Um dia depois de um emissário da Junta Militar se reunir com a líder da oposição de Mianmá, Aung San Suu Kyi, centenas de policiais ocuparam as ruas de Yangun, onde, há exatamente um mês, começaram as maiores protestos em favor da democracia no país.
A Polícia montou controles de segurança e postou agentes armados com fuzis em diversos pontos de Yangun. O patrulhamento é mais intenso nas ruas de acesso aos pagodes de Sule e Shwedagon, os pontos de concentração das centenas de milhares de pessoas que apoiaram os protestos antigovernamentais liderados pelos monges.
Em algumas ruas da parte antiga da cidade, a Polícia também estendeu cercas de arame farpado. Membros da milícia pró-governamental Associação para o Desenvolvimento e a Solidariedade da União de Mianmar patrulhavam as ruas, armados com varas, segundo informou a rádio "Mizzima".
O reforço das medidas de segurança veio um dia depois de as autoridades militares admitirem que estão desenvolvendo uma ampla operação policial para capturar "falsos" monges budistas ligados à organização das manifestações.
"Os membros da Frente Nacional de Monges são em sua maioria ex-presidiários. Os monges falsos que lideraram os protestos violaram as normas religiosas e serão acusados", disse o ministro de Assuntos Religiosos, general Thura Myint, ao jornal "Nova Luz de Mianmar", órgão de propaganda do regime.
A ampla presença policial marcou o fim do período da quaresma budista. Nesta festividade, que marca o início da peregrinação de milhares de monges, as pessoas comparecem em grande número aos pagodes.
Desde que as forças de segurança aplacaram a tiros e aos tabefes as manifestações pacíficas do setembro passado, os mosteiros são vigiados e inspecionados regularmente, e a Polícia restringe a saída dos monges à rua, segundo diferentes versões de residentes em Yangun.
Enquanto continua a perseguição de religiosos, alguns monges buscam refúgio na vizinha Tailândia. Foi o caso de Askin Kovida, considerado o principal organizador das manifestações contra a Junta Militar. Segundo a imprensa tailandesa, ele atravessou a fronteira para escapar da detenção.
Kovida, o monge mais procurado pelas forças de segurança, cruzou a fronteira na semana passada, ilegalmente. Ele utilizou a passagem de Mae Sot, cerca de 400 quilômetros a noroeste de Bangcoc. Vestindo roupas civis e com um crucifixo no pescoço, ele apresentou documentação falsa.
A Junta Militar admite que 10 pessoas morreram durante a repressão dos protestos e 3 mil manifestantes foram detidos. Mas o enviado da ONU para Mianmá, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, acredita que o número é bem maior. Fontes da dissidência calculam 200 mortos e mais de 6 mil detidos.
O reforço na segurança em Yangun se segue também ao encontro de ontem entre Suu Kyi e o ministro do Trabalho, general Aung Kyi. O militar é o interlocutor oficial da Junta com a oposição e com as Nações Unidas.
Suu Kyi, chefe da Liga Nacional pela Democracia (LND), cumpre prisão domiciliar em Yangun desde junho de 2003. O conteúdo da conversa com o ministro não foi divulgado, mas fontes da LND consideraram o encontro, cujas imagens foram divulgadas pela televisão estatal, um sinal de que a Junta está cedendo à pressão exterior.
"O encontro é um sinal de que pode haver diálogo", disse em comunicado Nyan Win, porta-voz da LND.
A LND considerou positiva a libertação, na quinta-feira, de 50 membros do grupo que estavam na prisão de segurança máxima Insein. Hla Pe, integrante da executiva do partido, estava entre os presos.
Dezenas de membros e simpatizantes do partido de Suu Kyi foram presos em suas casas durante as batidas após as manifestações.
Mianmar é governada pelos militares desde 1962 e não realiza eleições parlamentares desde 1990. Na ocasião, o partido oficial perdeu para a LND de Suu Kyi, mas os generais não reconheceram o resultado das urnas.
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