28/09 - 14:01 - Luiz Raatz, repórter Último Segundo
SÃO PAULO - Todos os dias, o volume da quantidade de informações oferecidas pela mídia é imensa. Desde os ataques de 11/09, nos EUA, o noticiário traz notícias sobre o terrorismo no mundo. Atentados, mortos e carro-bomba são frequentes. Raro é entender as origens e efeitos do radicalismo islâmico e colocá-los em perspectiva. Esta é a proposta do jornalista inglês Jason Burke em "Al-Qaeda, a verdadeira história do radicalismo islâmico".
O principal argumento deste veterano de coberturas de guerra no Afeganistão e no Paquistão e chefe de reportagem do semanário londrino "The Observer" é que a Al-Qaeda como a conhecemos no ocidente, não existe.
Devido a um trabalho intenso de pesquisa e a própria vivência no sudoeste asiático, Burke tenta traçar um retrato preciso da militância islâmica moderna, desde suas origens, forjada nas lutas coloniais terceiro-mundistas, mas que também remonta aos primórdios do Islã. A organização de Osama bin Laden é parte deste contexto, complexo e amorfo, diz o autor.
A partir de uma narrativa temporal da trajetória política de Bin Laden, Burke reconstitui os principais fatos ocorridos no mundo islâmico nos últimos 30 anos. O mais relevante deles é a guerra dos "mujahedin" (guerreiros santos) afegãos contra os soviéticos nos anos 80. Para o autor, este conflito provocou a radicalização da visão de mundo de Bin Laden e outros.
Burke argumenta, baseado na própria evolução do radicalismo islâmico nos últimos anos, que a Al-Qaeda não é uma rede altamente especializada, hierarquizada sob o comando de Bin Laden, com ramificações por todo o mundo. Algo próximo disso funcionou por algum tempo, mas foi destruído após a ação militar dos EUA no afeganistão.
A organização funcionava muito mais como uma "universidade", que fornecia apoio, treinamento e conhecimento para ativistas que tinham pouco e certas vezes pouco contato com Bin Laden. Algo parecido com a Escola de Sagres - centro de estudo durante as Grandes Navegações portuguesas no século XV a qual nunca se provou que efetivamente ter existido, mas serviu como parábola dos avanços portugueses. Hoje, a Al-Qaeda representa esse papel em relação ao terrorismo islâmico.
O livro desconstrói alguns mitos em torno do terrorista, sejam eles defendidos por partidários de esquerda ou de direita. Segundo Burke, não há prova de que o saudita tenha recebido treinamento da CIA. Também não há indicações de que o radical tenha sido aliado de Saddam Hussein. Também teve problemas no Afeganistão com o regime Taleban. O Mulá Omar quase o deportou para a Árabia Saudita. Burke também da detalhes sobre a família de Bin Laden, sua infância e juventude, suas origens iemenitas e seus conflitos com a realeza saudita.
"Al-Qaeda" também decifra alguns costumes do Islã e explica a origem de termos traduzidos erronamente para o leitor ocidental. No começo da militância de Bin Laden, o termo Al-Qaeda , do árabe "A base", se referia muito mais a um lugar do que a um grupo. Jihad, a guerra santa, na verdade se trata de um "esforço" pela fé que todo muçulmano deve conduzir no dia a dia. A Jihad maior é interior. A menor é contra o inimigo externo.
A obra de Burke vale a pena para quem procura entender um pouco mais sobre o mundo no qual está inserido e percebe que o noticiário não explica satisfatoriamente o que acontece nos dias de hoje.
Al-Qaeda, a verdadeira história do radicalismo islâmico
Autor: Jason Burke
Editora: Jorge Zahar Editor
Preço: de R$ 34 a R$42
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