Bruxelas/Cartum, 23 jul (EFE).- A União Européia (UE) concluiu hoje os preparativos para o envio de uma missão militar sob mandato da ONU ao Chade e à República Centro-Africana, onde milhares de pessoas se refugiaram devido ao conflito na região de Darfur, no vizinho Sudão.
Os ministros do Exterior da UE pediram, em reunião em Bruxelas, o início formal dos preparativos militares para uma eventual missão. A ação teria duração de 12 meses e pode ter entre 1.500 e 3 mil soldados, segundo diplomatas da UE.
O ministro do Exterior francês, Bernard Kouchner disse que a mobilização de soldados começará após o final da temporada de chuvas, em setembro ou outubro. A França já mantém forças na região e ficará à frente da operação.
Em Darfur, os confrontos entre grupos rebeldes animistas e milícias árabes ligadas ao Governo de Cartum deixou mais de 200 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados desde o início, em 2003.
Na época, o Movimento de Libertação do Sudão (MLS) e o Movimento de Justiça e Igualdade (MJI) pegaram em armas para protestar contra a pobreza e a marginalização da região.
A crise desestabilizou as áreas de fronteira nos países vizinhos, principalmente o leste do Chade e o nordeste da República Centro-Africana.
A missão da UE terá como objetivo "reconstruir e restabelecer a segurança", especialmente no Chade, onde a chegada de refugiados de Darfur e as incursões das milícias árabes Janjaweed levaram a população local a abandonar suas casas.
O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) denunciou a constante infiltração de guerrilheiros sudaneses no Chade, onde cometem atos violentos e recrutam homens para combater.
O Alto Representante da UE Para a Política Externa, Javier Solana, disse que conversou no domingo com o presidente do Chade, Idriss Déby. Este teria se mostrado propenso a apoiar a operação da UE.
A iniciativa seria realizada paralelamente ao envio a Darfur de uma força mista da ONU e da União Africana (UA). Ao todo, elas teriam cerca de 20 mil soldados e substituiriam a atual missão da UA de 7 mil homens, que foi incapaz de pôr fim ao conflito.
Solana disse, no entanto, que o "mais importante para a UE" é o envio da força mista, o que foi aceito no mês passado pelo presidente sudanês, Omar Hassan Ahmad al-Bashir.
Os países-membros da UE decidiram hoje, ainda, renovar seu apoio à missão da UA, até a chegada dos novos soldados.
O apoio europeu aos trabalhos do organismo africano consiste em suporte logístico, transporte aéreo, treinamento e presença de assessores policiais e militares. A UE destacou a importância de uma solução política para o conflito em Darfur.
Segundo o grupo, uma paz sustentável na região só é possível se for cumprido plenamente o acordo de paz assinado em 2005 entre o Governo do Sudão e os rebeldes do sul. O documento pôs fim a um conflito de duas décadas entre o norte muçulmano e o sul animista e cristão.
A UE também pediu a todos os grupos rebeldes de Darfur que apóiem outro acordo de paz, o de Abuja (Nigéria), assinado em 2006 pelo Governo sudanês e uma facção do MLS.
Na conferência sobre Darfur organizada pela França no dia 25 de junho, em Paris, 18 países (na maioria ocidentais) e alguns organismos internacionais concordaram em pressionar o Governo sudanês e os grupos rebeldes pela assinatura de um acordo de paz.
No entanto, continuarão fazendo ameaças de sanções internacionais contra o Sudão.
Por outro lado, em resposta às declarações dos europeus, o presidente do Sudão reiterou hoje que em Darfur há segurança e estabilidade, e convidou os governantes do Ocidente a visitar a região.
Bashir fez a declaração no fim de uma visita de três dias às três províncias da região.
Em discurso para milhares de pessoas em Al Yeneina, capital do oeste de Darfur, Bashir destacou que há três meses a área não registra casos de violência ou operações bélicas.
"Apesar disso, no Ocidente, falam do retrocesso da situação em Darfur. Eles (os ocidentais) devem observar o que está ocorrendo no Iraque, no Afeganistão e nos territórios palestinos", ressaltou o presidente.
Nesse sentido, Bashir os desafiou a viajarem a Darfur, como ele, e depois irem ao Iraque e ao Afeganistão, "para que vejam onde imperam o caos e a segurança".
Além disso, o líder acusou os "países e círculos ocidentais" de tentar dividir os habitantes da região segundo a religião, separando islâmicos de animistas e cristãos.
As declarações de Bashir sobre a suposta estabilidade em Darfur contradizem o relatório da missão da ONU para o Sudão. Este denuncia hoje que cerca de 1.200 famílias fugiram do oeste da região "diante do rumor de uma iminente ofensiva das tropas sudanesas".
Por outro lado, o ministro de Interior sudanês, Al Zubeir Bashir Taha, acusou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, de adotar contra o Sudão a mesma "política hostil" assumida pelos Estados Unidos.
Na sexta-feira, Sarkozy e Brown tinham anunciado, em Paris, que estão dispostos a viajar "juntos" a Darfur, exigindo a adoção, o mais rapidamente possível, de uma resolução da ONU para o envio imediato de uma força internacional à região. EFE ik-az-aj is/pa