09/07 - 15:58 - AFP

O Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) realizará a partir desta terça-feira em Havana sua XXXI assembléia ordinária. É, no entanto, a primeira vez que o encontro acontece em um país socialista, prova da distensão das relações entre o governo comunista e a Igreja Católica em Cuba.
"Somos uma novidade no contexto da América Latina, já que nossa Igreja soube evagelizar mesmo em uma situação sócio-política diversa do restante do continente por estar em um país socialista", disse o bispo auxiliar de Havana, Juan de Dios Hernández, ao anunciar a reunião.
Um total de 71 delegados da região estão sendo recebidos nesta segunda-feira na Arquidiocese de Havana, liderada pelo cardeal Jaime Ortega, para inaugurar a reunião, às 09H00 (13H00 GMT) de terça, informou à AFP o secretário adjunto da Conferência dos Bispos Católicos de Cuba (COCC), o sacerdote José Félix Pérez.
O encontro, que será encerrado na sexta-feira com missa na Catedral de Havana, acontece a portas fechadas na Casa Sacerdotal San Juan María Vianney - construída em 1917 e recém-restaurada. Presidente e secretário-geral de cada Conferência Episcopal nacional estarão presentes, afirmou Pérez.
Segundo Monsenhor Hernández, secretário-geral da COCC e delegado da CELAM, a agenda da reunião tem três pontos: a eleição dos cinco bispos membros da presidência e outras autoridades do Conselho; a revisão de relatórios das Conferências Episcopais sobre a situação política, social, cultural e da Igreja em cada país; e uma análise das 'tarefas mais urgentes', programas e missões pastorais.
Essas tarefas e programas são resultado das linhas pastorais definidas na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada na cidade brasileira de Aparecida, em meados de maio passado.
Em entrevista divulgada no site da COCC, monsenhor Hernández disse que apesar de viver e trabalhar em um país socialista, a Igreja "não perdeu a missão à qual nunca se pode renunciar, que é a missão evangelizadora".
"A Igreja cubana conseguiu desenvolver esta missão. Aqui estamos, aqui estamos anunciando Jesus Cristo como discípulos e missionários do Evangelho. Nos sentimos, como nunca, em sintonia com a Igreja Latino-Americana e do Caribe", enfatizou.
Durante quase cinco décadas, a Igreja Católica e o Governo do agora convalescente Fidel Castro passaram por duros enfrentamentos, como na década de 60, e períodos de convivência mais pacífica. A trégua atual começou após a visita do Papa João Paulo II, em janeiro de 1998.
A reunião de Havana "é também uma maneira de apoiar nossa Igreja em Cuba, de dar sentido a seu caminhar por esta parte do mundo que é Cuba e ajudará a conhecer nossa realidade", opinou monsenhor Hernández.
Com mais de 600 templos, a Igreja Católica cubana enfrenta há décadas uma grave falta de sacerdotes. Fontes da COCC informaram que cerca de 320 religiosos atuam na ilha atualmente: metade cubanos, metade estrangeiros, vindos principalmente de países como Colômbia, México e Espanha.
Esse déficit começou em setembro de 1961, quando o Governo expulsou 132 sacerdotes católicos, a maioria espanhóis, no momento de maior tensão entre a Igreja e o novo Estado socialista, que abraçou o ateísmo. Outros 460 sacerdotes abandonaram a ilha ao longo dos anos por iniciativa própria.
Neste domingo, o Papa Bento XVI nomeou o sacerdote espanhol Domingo Oropesa bispo da diocese de Cienfuegos, primeiro estrangeiro a participar da COCC desde que Castro chegou ao poder em 1959.
Em Cuba, dos 11,2 milhões de habitantes apenas 15% afirma ser ateu, mesma porcentagem que pratica uma religião de maneira estruturada. Os 70% restantes têm elementos de religiosidade e segue uma fé sincrética, segundo estudos acadêmicos.
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