Gonzalo Robledo Tóquio, 4 jul (EFE).- A nomeação de uma mulher, ex-apresentadora de televisão, para substituir o ministro da Defesa do Japão, Fumio Kyuma, causou mal-estar e cisões no Governo do primeiro-ministro Shinzo Abe, que enfrenta dificuldades às vésperas das eleições para o Senado, previstas para o fim do mês.
Yuriko Koike foi escolhida para o Ministério da Defesa após a renúncia de Kyuma. Ele deixou o cargo ontem, após a polêmica criada por suas declarações, em que considerava "inevitáveis" as bombas atômicas dos Estados Unidos lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no fim da Segunda Guerra Mundial.
Koike, ex-apresentadora de televisão, formada na Universidade do Cairo e especialista em assuntos árabes, foi ministra do Meio Ambiente no Governo anterior. Ela ocupava até agora o cargo de assessora de assuntos de segurança de Abe.
A primeira mulher na história japonesa à frente do Exército tem 54 anos. Ela é a segunda pessoa a ocupar o Ministério, criado em janeiro deste ano.
Desde que chegou ao poder, em setembro, o primeiro-ministro Abe teve que substituir três dos 17 ministros do seu gabinete.
Uma das trocas, no Ministério da Agricultura, foi forçada pelo suicídio do ministro, Toshikatsu Matsuoka, que estava sendo investigado por corrupção.
A gestão de Abe enfrentará a sua primeira avaliação séria no fim do mês, nas eleições para renovar parte do Senado. A nomeação de uma mulher para comandar o Exército está sendo considerada uma estratégia política para reverter sua queda de popularidade.
O primeiro-ministro pretende emendar a Constituição pacifista, que limita a participação do Japão em programas de defesa coletiva fora do seu território.
A escolha de uma pessoa de fora da cúpula do Partido Liberal-Democrático (PLD) para a Defesa, porém, provocou irritação entre os correligionários.
Alguns especialistas em assuntos militares do PLD pretendiam ocupar o cargo. O presidente do conselho de política do partido, Yoichi Masuzoe, disse ontem que Koike não está à altura da missão, segundo o jornal "Yomiuri".
O jornal conservador admite que Koike participou da redação da minuta de lei para a criação de uma versão japonesa do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas setores do Governo insistem que a nova ministra não teve acesso a "informações cruciais" sobre assuntos militares.
As dúvidas sobre o acerto da nomeação aumentam a preocupação dentro do PLD com a forte queda de popularidade do primeiro-ministro.
O suicídio do ministro da Agricultura, a renúncia de Kyuma e a perda em massa de registros de previdência na Agência de Seguros Sociais marcam o pior momento do PLD no Governo de Abe.
Além disso, a saída do ministro da Defesa demonstrou o peso do aliado do PLD na coalizão de Governo, o Partido Novo Komeito.
Considerado o braço político da seita budista Sokka Gakkai, que conta com cerca de 6 milhões de membros, o Novo Komeito condicionou o apoio ao PLD nas próximas eleições parlamentares à renúncia de Kyuma.
Um porta-voz do Novo Komeito criticou as palavras de Kyuma sobre as bombas atômicas. Ele comparou as declarações ao comentário do ministro da Saúde, Hakuo Yanagisawa, que chamou as mulheres japonesas de "máquinas para fazer filhos".
Analistas lembram que o primeiro-ministro demorou quatro dias para encontrar o substituito de Matsuoka após o suicídio. Mas, para a nomeação de Koike, bastaram três horas. EFE gr mf