Delia Millán Ramala/Gaza, 22 jun (EFE).- O presidente Mahmoud Abbas exonerou hoje Rashid Abu Shabak, um dos principais responsáveis pelos organismos de segurança e, por conseguinte, pela derrota das forças da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e do Fatah na luta com o Hamas pelo controle da Faixa de Gaza.
Abu Shabak era o braço direito de Mohammed Dahlan, homem forte do Fatah em Gaza e assessor de Abbas. Dirigia os serviços de segurança interior da ANP, fortemente identificados com o Fatah, movimento nacionalista de orientação laica liderado pelo presidente palestino.
Alguns setores do Fatah, principalmente a velha-guarda, tinham pedido a exoneração de Abu Shabak, e continuam exigindo a de Dahlan.
As forças leias à ANP e ao Fatah foram derrotadas na semana passada pelas milícias do grupo islamita Hamas em uma batalha que durou cinco dias, na qual os dois lados estavam equilibrados tanto em número de homens como em equipamento.
Analistas militares, tanto palestinos como israelenses, atribuíram a vitória do Hamas à maior motivação e ao melhor treinamento de suas forças, mas também a erros no comando do Fatah.
Vários integrantes do movimento nacionalista fugiram rapidamente para a Cisjordânia após a derrota.
Dahlan esteve ausente dos territórios palestinos durante quase toda a campanha e só retornou no final a Ramala - mas não a Gaza, onde é um dos personagens mais procurados e odiados pelo Hamas.
"No último dia da batalha, não recebíamos ordens. Eu acabei ligando para o celular de um superior e ele estava no Egito", conta Rami, um ex-membro das forças preventivas que não quis dar seu sobrenome.
O superior ordenou que os homens do Fatah abandonassem a batalha pelo controle do quartel-general das forças preventivas, um símbolo de poder em Gaza, o que Rami estranhou.
O ex-membro das forças preventivas disse que se retirou porque, embora esteja "disposto a morrer por fogo israelense", "não queria morrer por fogo palestino".
Alguns, porém, "negaram-se a abandonar o local onde haviam trabalhado e onde estavam lutando junto aos corpos de companheiros caídos. Esses morreram".
O ex-membro das forças preventivas se declara "muito frustrado" com o Fatah, e suspeita até que alguns de seus líderes "queriam que o Hamas ganhasse para colocá-los (os islamitas) em uma situação com a qual eles não podem lidar".
Mas não respondeu aos pedidos do Governo de Gaza para que as forças de segurança retomem seu trabalho. "Eu não mudo de lado. Dói mais a morte da alma que a do corpo", afirmou RamI.
Já em Ramala, Amgad M., que trabalhava nos escritórios de Dahlan em Gaza, não culpa o ex-homem forte. Ele afirma que o resto do Fatah "o deixou sozinho na faixa" contra o Hamas.
"No último dia todos diziam: 'Para que lutar? Eles são mais fortes que nós e, além disso, não temos chefes'", conta Amgad, que saiu de Gaza sem documentos - devido ao risco de ser pego por pessoal do Hamas - e correndo até a fronteira com Israel, que conseguiu atravessar graças à intervenção do Fatah.
A exoneração de Dahlan e de sua equipe também é pedida pelo Hamas para restabelecer um "diálogo interpalestino".
A divisão dos nacionalistas, disse há poucos dias à agência Efe o ex-ministro de Exteriores e dirigente do grupo islamita Mahmoud Zahar, "não beneficia o Hamas, mas o Fatah, porque lhe permite se livrar de elementos daninhos", como considera Dahlan e homens próximos a ele.
Os líderes do Hamas têm repetido que querem retomar o diálogo com Abbas, cuja legitimidade como presidente reconhecem, embora, nas manifestações populares, o acusem de ser um traidor e um instrumento de Israel e dos Estados Unidos.
O primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, poderia, segundo fontes de seu Governo, fazer em breve um discurso no qual explicaria sua postura frente à situação vivida atualmente na ANP.
Os palestinos têm atualmente dois Governos: o de Haniyeh, em Gaza, e o que Abbas mandou formar e é liderado pelo primeiro-ministro Salam Fayyad, na Cisjordânia.
Os dois Governos pretendem representar o conjunto dos palestinos, mas apenas o do Fatah é reconhecido pela comunidade internacional.
O Governo de Haniyeh encontra-se isolado em Gaza, enquanto o de Abbas, que por enquanto ignora os pedidos de diálogo feitos pelo Hamas, concentra-se em uma ofensiva diplomática para consolidar sua posição internacional.
Abbas viajará no domingo ao Egito para uma reunião com o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, que também terá a presença do presidente anfitrião, Hosni Mubarak, e do rei Abdullah II da Jordânia. EFE dm ep