Delia Millán Gaza, 19 jun (EFE).- Israel abriu nesta terça sua fronteira para algumas pessoas feridas nos incidentes em Gaza, mas, por temer infiltrações do Hamas, manteve fechadas as barreiras diante das quais dezenas de fugitivos palestinos estão acampando.
No longo corredor - de aproximadamente um quilômetro - da passagem de Erez há dezenas de pessoas, mas muitas foram embora após o tiroteio que ontem deixou um morto e seis feridos. Os que ficaram são homens jovens, mas as famílias com crianças recuaram.
"Há quatro dias nós estamos vindo aqui, mas não ficamos durante a noite, fazemos a viagem todos os dias", declarou Hamed, um homem de 34 anos acompanhado por sua mulher e filhos e que pode transitar por Erez pelo fato de sua mulher ser da Cisjordânia.
Quem não tem documentos que comprovem a permissão para ir para Israel, para dali seguir para a Cisjordânia, não pode chegar a Erez, pois milicianos do Hamas instalaram um posto de controle na estrada que leva à fronteira e impede a passagem.
Por isto, dezenas de pessoas optaram por permanecerem noite e dia no corredor de concreto do terminal, no meio do calor e do mau cheiro.
"Dormimos sobre o concreto e o lixo", declarou Riim Salma Abu Shabab, uma palestina de 30 anos que nasceu no Kuwait, que trabalhava em Gaza no Ministério da Agricultura e que deseja voltar para o país de origem porque "ninguém normal fica aqui, pois palestinos matam palestinos".
O Exército israelense distribui água e comida entre os refugiados, mas às vezes ameaça lançar gás lacrimogêneo e gera uma fuga precipitada.
Na última terça, a Estrela de Davi Vermelha conseguiu evacuar seis dos feridos no incidente que aconteceu ontem quando um grupo de milicianos entrou no túnel lançando granadas e atirando contra os soldados israelenses, que responderam ao ataque.
Antes de os feridos serem levados a hospitais de Israel, cerca de 20 horas após os fatos acontecerem, o Exército israelense verificou a identidade de cada um deles.
"Temos que impedir a entrada de algum infiltrado do Hamas", diz uma porta-voz do terminal.
Israel dá sinais de que não sabe lidar muito bem com a crise. De acordo com porta-vozes militares, o Exército tem medo de que algum terrorista suicida se infiltre entre os refugiados e de que surja uma situação humanitária na fronteira.
Além da evacuação dos feridos e da abertura da fronteira para alguns carregamentos de ajuda humanitária, o Exército israelense ocupou hoje com tanques a área palestina de acesso a Erez para evitar que outros atiradores cheguem à localidade.
Israel também abriu a fronteira hoje para que jornalistas entrassem em Gaza, mas eles tiveram que passar por fora do túnel para que as cercas não fossem abertas.
Os sentimentos dos refugiados de Erez diante da atitude de Israel variam muito. "Ontem imploramos que eles levassem um homem ferido para Israel, mas deixaram que morresse aqui", declarou Riim Salma Abu Shabab.
Já Nabil, membro das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa (vinculada ao Fatah), diz: "Desta vez Israel assiste a nossa situação. Foram os homens do Hamas que atiraram ontem, nunca pensei que alguns palestinos me passariam uma impressão pior que os israelenses".
Nabil se sente desprotegido na passagem de Erez, entre os israelenses e as Brigadas de Qassam, braço armado do Hamas.
Já dentro de Gaza, no quartel-general das forças preventivas - do qual só restam escombros - uma jovem que visita o lugar com a família afirma que o que ocorreu em Gaza "não foi um conflito entre irmãos palestinos, mas uma luta contra os infiéis".
"Viemos aqui para ver o lugar onde meu irmão lutou - um jovem com traje paramilitar que os acompanha - e constatar a vitória de Alah", diz a jovem que não quis se identificar.
"Estes a que alguns chamam de irmãos palestinos são os mesmos que torturavam os homens do Hamas e arrancavam o véu do rosto de suas mulheres", acrescenta.
Numa loja de telefonia da cidade, o dono conta a última piada que circula entre os 'infiéis': "É verdade que Alá foi grande com os palestinos: pedimos um Estado e nos deu dois". EFE dm jfc/fal