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Milhares de párias hindus se refugiam no budismo para vencer a exclusão

29/05 - 10:19 - EFE

Maribel Izcue Nova Délhi, 29 mai (EFE).- Marcados desde seu nascimento pelo estigma da marginalidade, milhares de párias hindus optam por se converter ao budismo para fugir do sistema de castas que os relega à base da sociedade indiana em cerimônias maciças como a celebrada neste domingo em Mumbai.

Atraídos por uma religião que não acredita em hierarquias, dezenas de milhares de pessoas prometeram no domingo "não crer em Brahma, Vishnu, Mahesh, Ram, Krishna ou qualquer outro deus hindu" para se iniciarem no budismo e deixarem para trás a condição de "dalits" ("sem casta").

A conversão reuniu entre 50 e 100 mil pessoas, mas não só "intocáveis", como os párias são comumente chamados. Indianos de tribos nômades também compareceram à cerimônia mediante a qual, segundo o escritor Laxman Emanes - um dos organizadores do evento -, buscam "protestar" pela "apatia" do Governo frente às suas necessidades básicas.

Como boa parte dos fiéis, motivados pela mudança no status social, desconhecem os princípios da filosofia de Buda à exceção de sua rejeição às classes, não faltaram informações sobre as regras e ritos de sua nova religião durante o ato.

A imprensa local indicou hoje, em peso, que a cerimônia, celebrada no hipódromo de Mahalaxmi - paradoxalmente, o nome de uma deusa hindu - de Mumbai, foi uma das maiores conversões maciças da história recente da Índia.

Inicialmente, foi anunciado que o evento seria presidido pelo Dalai Lama, mas o chefe espiritual dos budistas permaneceu em Dharamsala (norte da Índia), sede do Governo tibetano no exílio, confirmou à Efe uma fonte de seu gabinete.

A conversão em massa ocorreu meio século após uma histórica cerimônia na qual 300.000 "intocáveis" abraçaram a religião budista dirigidos por seu líder, Bhimrao Ramji Ambedkar (1891-1956), símbolo até hoje da luta contra o sistema de castas.

Ambedkar nasceu em uma família "dalit", mas após ser educado na Inglaterra e nos Estados Unidos rejeitou a religião hindu e se tornou um ativista social e político denunciando a discriminação do sistema de castas e o comportamento dos brahmanes com as classes "inferiores".

Ele mesmo foi um dos primeiros a se converter ao budismo e organizou inúmeras cerimônias em massa nas quais milhares de pessoas abraçaram outras religiões, normalmente a de Buda, em sinal de protesto à discriminação do sistema hindu.

Ambedkar foi também um dos pais da Constituição indiana de 1950, que aboliu oficialmente o sistema de castas, apesar de meio século mais tarde este sistema continuar vigente em grande parte do país, especialmente na zona rural.

Na prática, os "dalits" acabam se submetendo a tarefas como varrer as ruas, limpar as latrinas ou recolher o lixo das casas. Na hora de casar, enfrentam enormes dificuldades se o cônjuge pertencer a uma casta superior.

Frente à marginalização que os párias ainda sofrem em muitos lugares, o Governo tentou promover alguns planos para reverter esta realidade, como o de criar um sistema de cotas nas universidades, projeto que causou uma onda de protestos em outros nichos sociais que se sentiram prejudicados.

Os "sem casta" também ganharam algumas recentes batalhas políticas, a última nas eleições de Uttar, no norte da Índia, onde uma "intocável" foi escolhida para chefiar o Governo deste estado, o mais povoado da Índia com mais de 180 milhões de habitantes.

A carismática Mayawati Kumari, líder do partido BSP, teve uma votação arrasadora no pleito em maio deste ano, em uma vitória política celebrada como um novo passo à frente na longa luta pelos direitos dos "intocáveis" na Índia. EFE mic lb/ma




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