Jesús García Becerril Paris, 8 mai (EFE).- O presidente francês em fim de mandato, Jacques Chirac, participou hoje pela última vez como chefe de Estado da cerimônia que lembra o Armistício da Segunda Guerra Mundial, sem a presença do sucessor, Nicolas Sarkozy.
A homenagem aos mortos no conflito não repetiu hoje a mesma imagem de 1995, quando o então presidente, o socialista François Mitterrand, convidou Chirac, eleito poucos dias antes, para o ato.
A fotografia de ambos, velhos inimigos políticos, se transformou em uma espécie de transferência simbólica de poderes - o oficial ocorreu dias mais tarde - e deu a impressão de que a troca de comando no Palácio do Eliseu seria feita com normalidade institucional.
Mas Chirac, de 74 anos, não teve a seu lado hoje o antigo protegido Sarkozy, de 52, porque o presidente recém-eleito partiu ontem para férias em Malta, quando também aproveitará para definir a equipe de Governo.
O presidente eleito admitiu há poucos dias que não participaria da cerimônia de hoje, porque não queria aparecer junto ao atual chefe de Estado.
A decisão de Sarkozy mostra a "ruptura tranqüila" que defendeu durante a campanha eleitoral com relação à tradicional política francesa, apesar de fazer parte do gabinete de Chirac durante os últimos cinco anos como ministro do Interior.
Em 16 de maio, Chirac passará oficialmente o poder para Sarkozy e até então manterá todas as competências presidenciais.
Ainda resta a possibilidade de Sarkozy comparecer com Chirac a algum ato público, como o Dia contra a Escravidão, na quinta-feira, ou a final da Copa da França de futebol no próximo sábado, embora isto seja visto como pouco provável.
Na realidade, a transferência de poderes de Chirac para Sarkozy será a primeira entre dois presidentes do mesmo partido político de um mandato para outro durante a V República.
Em 1969, a renúncia de Charles de Gaulle fez com que o interino Alain Poher (presidente do Senado) transferisse o poder para o eleito Georges Pompidou. Com a morte dele, em 1974, Poher assumiu novamente de forma interina para depois deixar o cargo quando Valéry Giscard d'Estaing foi escolhido.
As relações entre Chirac e Sarkozy se modificaram com a passagem dos anos.
O conservador acolheu o jovem Nicolas quase como a um filho há quase 30 anos até a eleição de 1995, quando Sarkozy apoiou Édouard Balladur contra Chirac. O abalo na relação entre ambos se manteve até agora e Chirac mostrou seu apoio sem entusiasmo à candidatura de Sarkozy em março, quando disse que a decisão ocorria de forma "muito natural".
A cerimônia comemorativa do 62º aniversário do Armistício também teve a presença do primeiro-ministro, Dominique de Villepin, outro rival de Sarkozy que deixará o primeiro escalão, além da ministra da Defesa, Michèle Alliot-Marie, que pode entrar no próximo gabinete.
Chirac cumpriu o protocolo institucional ao passar em revista uma seleção das Forças Armadas e depositar uma coroa de flores no túmulo ao soldado desconhecido.
Depois, conversou por alguns minutos com veteranos da Segunda Guerra Mundial sob o Arco de Triunfo da capital francesa antes de seguir para o Palácio do Eliseu, onde prepara a mudança.
Chirac passará a morar em um duplex às margens do rio Sena, em frente ao Museu do Louvre, cedido pela família do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, assassinado em 2005. EFE jgb pp/pa