José María Hernández Manila, 5 mai (EFE).- Os percalços de Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, à Terra Santa, na busca pela Cruz em que Jesus Cristo morreu, são relembrados neste mês de maio pelos católicos das Filipinas.
"Santacruzan", uma contração do espanhol Santa Cruz, é o termo que designa as procissões que levam as ruas do país milhares de pessoas durante todo o mês. Segundo a crença popular, a tradição chegou da região espanhola da Andaluzia, via México, onde já haviam sido popularizadas pelos missionários.
A festa, realizada de noite e iluminada com lampiões e lanternas, é liderada pelas "sagalas", jovens que caminham junto a seus maridos.
A tradição popular diz que as "sagalas" são as encarnações vivas de Santa Helena, que, segundo os contos, embarcou, em 326 d.C., com 75 anos, numa cruzada em busca das cruzes de Jesus Cristo e dos ladrões Gestas e Dimas.
Na procissão filipina também está presente São Macario, bispo de Jerusalém, que para confirmar a autenticidade das cruzes achadas pela santa, as transferiu para a casa de uma mulher doente que foi curada ao tocá-las.
No entanto, a evocação da simbologia católica da cruz tem nas Filipinas outros componentes que derivam do "mouro mouro", a dramaturgia religiosa introduzida pelos frades espanhóis para elogiar as virtudes católicas frente às muçulmanas que dominavam na ilha de Mindanao, no sul.
Assim, o "mouro mouro", que ainda é representado em alguns pontos do arquipélago, recria um mundo de guerras e romances em distantes reinos imaginários, no qual príncipes católicos casavam com princesas muçulmanas para depois expandir essa fé a terras de "infiéis".
O conto remonta a um gênero que, através de seus recursos argumentativos, tinha uma mensagem clara: mostrar aos filipinos a superioridade da cruz sobre a lua islâmica.
O universo de fantasia medieval é o que enriquece o "Santacruzan", com personagens como a Rainha Banderada, que representa, com uma bandeira filipina, a chegada da Cristandade ao arquipélago.
Dita como uma "história em quadrinhos bíblica", o relato fantasioso também apresenta outras heroínas do "Santacruzan": a Rainha Advogada, defensora dos pobres e oprimidos; a Rainha Fé, capitã das virtudes teológicas; e a Rainha Esperança, que, com uma tocha, defende a perseverança.
O colorido desfile, herdeiro de uma forma de evangelizar baseada nas representações dramáticas e pictóricas, é também uma ode às virtudes da mulher filipina, e especialmente ao valor da virgindade feminina na cultura católica.
Não por coincidência o "Santacruzan" se entrelaça em muitos povos filipinos com a outra festa da Virgem Maria por excelência realizada neste mês: as "Flores de Mayo".
A devoção, que segundo os historiadores é celebrada nas Filipinas desde 1864, dez anos depois de Roma proclamar o dogma da Imaculada Conceição, tem como principais atores os filhos mais velhos, que são encarregados de oferecer as flores a María.
Por isso mesmo, a celebração é uma das poucas tradições católicas que continua inalterada nas Filipinas, cuja manutenção foi encorajada pela hierarquia local. EFE jm lb/dp