(embargada até as 20h01 de hoje) Londres, 3 mai EFE).- A revista médica britânica "The Lancet" critica, em sua última edição, o Banco Mundial (BM), por promover políticas de saúde orientadas sobretudo para o mercado, em detrimento dos sistemas de saúde públicos.
Em seu editorial, a revista assinala que o banco parece disposto a reivindicar seu papel de principal agência global para o desenvolvimento de políticas sanitárias, tentando relegar à Organização Mundial da Saúde e à Unicef somente "os aspectos técnicos" do controle de doenças e da gestão de hospitais.
A "The Lancet" elogia alguns pontos da estratégia do BM, em um momento em que os sistemas de saúde de muitos países pobres sofrem com financiamentos deficientes, o colapso dos setores públicos e os processos de privatização não regulados.
Ao mesmo tempo, no entanto, a prestigiosa revista médica expressa sua inquietação pela pretensão do BM de ter experiência e credibilidade no setor sanitário.
Apesar dos fundos provenientes do BM resultarem em melhoras tangíveis nos sistemas de saúde nos países pobres, "a contínua promoção de políticas orientadas para o mercado, e a idéia de que podem se resumir a um conjunto de mercadorias e serviços que se compram e vendem, é motivo de preocupação", segundo a "The Lancet".
A revista se queixa que a atual estratégia privilegia o desenvolvimento do setor privado, e que não contempla a necessidade de reforçar a participação do setor público.
Essa política vem causando insatisfação em ONGs de todo o mundo, o que suscitou uma resposta do presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, que afirmou que o banco vem acentuando seus incentivos ao setor público.
No entanto, assinala a "The Lancet", boa parte da estratégia do Banco segue "sendo nebulosa, e deixando muitas perguntas sem resposta".
Desta forma, não revela qual deveria ser o papel das instituições públicas no setor de saúde, e quais os princípios que devem reger a combinação de atores privados e públicos.
Também não está claro, segundo a revista, em que circunstâncias deveria ser fomentada a participação de provedores privados de serviços sanitários.
Além disso, o Banco não revelou que passos concretos podem ser dados para ampliar o espaço fiscal e aumentar os orçamentos de saúde dos países pobres, de modo que tenham a base de recursos necessária para fornecer um serviço universal de atendimento sanitário básico.
"Seria irresponsável não alertar para os danos que o BM causou aos sistemas de saúde, para sua destruição progressiva das instituições públicas, sua alergia ao universalismo e seu amor ao mercado e aos incentivos econômicos", adverte a revista.
Além disso, segundo a "The Lancet", a natureza fundamentalmente não democrática do Banco, assim como seu papel na criação de uma ciência econômica global que não aliviou a pobreza, nem promoveu um desenvolvimento equitativo, "lhe desqualifica para assessorar os sistemas de saúde em países de renda baixa ou média". EFE jr gs