Jerusalém, 1 mai (EFE).- O ministro sem pasta israelense Eitan Kabel apresentou hoje sua demissão, representando a primeira baixa no Governo do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, depois da publicação do relatório sobre o conflito no Líbano.
"Não posso permanecer em um Governo liderado por Olmert. Ele é responsável e deve renunciar", disse Kabel, também secretário-geral do Partido Trabalhista, em entrevista coletiva em Tel Aviv.
Com 19 deputados, o Partido Trabalhista é o principal membro da coalizão parlamentar liderada pelo Kadima, e a renúncia de seu secretário-geral pode encorajar outros a seguirem seus passos.
Olmert e o ministro da Defesa, Amir Peretz, enfrentam uma enorme pressão da opinião pública para que renunciem, após o devastador relatório da comissão que investigou o último conflito no Líbano.
A imprensa estampa hoje manchetes como "Uma pistola na têmpora" ou "Caminho da rua", e a maioria dos colunistas exige a renúncia imediata dos dois.
"Tirai Ehud Olmert e Amir Peretz, e salvai Israel, este é o grito de guerra agora, esta é a missão urgente de todo cidadão", escreve o ex-ministro Yossi Sarid, em sua coluna no jornal "Ha'aretz".
"O relatório não deve nos preocupar, mas nos assustar, nos comover... É um milagre que este país ainda exista", afirma a jornalista Sima Kadmon no "Yedioth Ahronoth".
O veterano Dan Margalit sustenta no jornal "Maariv" que "Olmert e Peretz perderam a confiança do povo e não podem permanecer no Governo".
A Comissão Winograd apresentou no domingo um relatório parcial sobre o fracasso no conflito que Israel travou contra a milícia xiita libanesa Hisbolá entre 12 de julho e 14 de agosto de 2006, que conclui que Olmert, Peretz e o ex-chefe do Exército, Dan Halutz, são os principais responsáveis.
O relatório destaca que a decisão de iniciar o conflito após a captura de dois soldados pela milícia xiita foi feita de forma "precipitada" e "desorganizada", sem "estudar as alternativas, nem as possíveis conseqüências".
Apesar das graves acusações, o primeiro-ministro e o ministro da Defesa afirmaram que não renunciarão, e que seu objetivo é aplicar as recomendações da comissão e corrigir os erros cometidos.
Mas o líder do partido Tafnit (Giro), Uzi Dayan, ex-subchefe do Estado-Maior e ex-conselheiro de Segurança Nacional, considera que "os erros cometidos não podem ser corrigidos".
Dayan convocou para quinta-feira uma manifestação em Tel Aviv para pedir a renúncia do Governo israelense, que, segundo os analistas, servirá de indicador da opinião pública.
Para os analistas, é impossível saber qual será a resposta à convocação porque os partidos de esquerda se dividem entre a exigência de que os dois governantes renunciem devido a seus erros e o pragmatismo político.
A lei israelense prevê duas possibilidades para o caso de renúncia do chefe do Governo: a primeira é a formação de um novo Executivo, sem a convocação de eleições - seja liderado por outro dirigente do Kadima, o partido majoritário, ou por alguém da oposição.
A outra possibilidade é a convocação de novas eleições, apenas 14 meses depois do último pleito geral.
Segundo uma pesquisa do "Canal 2" da televisão israelense, para 26% da população, o líder do Likud, o ultranacionalista Benjamin Netanyahu, é o melhor candidato para substituir Olmert.
Em seguida, com apenas 9%, aparece a ministra de Assuntos Exteriores, Tzipi Livni, do Kadima.
O estudo reflete uma reivindicação em massa por parte da opinião pública para que Olmert (65%) e, principalmente, Peretz (75%) renunciem. Há ainda um apoio majoritário (53%) à antecipação das eleições.
Assessores do primeiro-ministro citados hoje pela imprensa local destacam que Olmert tem consciência de sua situação e reconhecem que será muito difícil que ele permaneça no cargo.
Não é o que acha o veterano político Shimon Peres, terceiro na hierarquia de Governo, para quem ninguém deve renunciar, porque "na democracia, governa quem tem a maioria", e o Kadima tem ainda "uma sólida maioria no Parlamento" com o apoio de 78 dos 120 deputados.
A pergunta feita hoje pelos analistas é por quanto tempo durará a Governo de coalizão, já que o Relatório Winograd encoraja as divisões no Executivo.
O deputado Avishai Braverman, correligionário de Kabel, pediu uma mudança de líderes para que o Governo não perca a pouca credibilidade que lhe resta.
"A liderança responsável pelo fracasso deve sair e, se não o fizer, o Governo está ameaçado de perder toda a confiança do povo", disse.
Até mesmo grandes líderes do Kadima alertam que "é uma questão de dias até que alguém no partido peça abertamente a Olmert que renuncie". EFE elb ev/dgr