Ignacio Ortega Pyongyang, 18 abr (EFE).- A capital da Coréia do Norte, Pyongyang, provavelmente a cidade menos conhecida do planeta, exibe, a cada ponto turístico, uma aparente dicotomia: manifestações artísticas do realismo socialista com preços capitalistas.
Da mesma forma que ocorreu com a China nos anos 80, os norte-coreanos entenderam a tempo a importância do turismo como fonte de renda e, não por menos, decidiram abrir as portas do país a visitantes de outros países, inclusive dos Estados Unidos.
Após dois anos sem conceder vistos a americanos, o Governo de Pyongyang permitiu, por ocasião do Festival Arirang, a entrada no país de turistas dos EUA, informaram à Efe os representantes da agência "Koryo".
"Nunca tinha visto tantos estrangeiros desde que cheguei a Pyongyang. Espero que isto seja apenas o início", disse um diplomata russo alocado há um bom tempo no país.
No entanto, ao contrário de sua vizinha do sul, a Coréia do Norte não está disposta a diminuir os preços para atrair turistas.
Embora haja vários hotéis na cidade, os estrangeiros só podem se hospedar em dois, o Koryo, no centro (US$ 135 o quarto), e o Yanggakdo, localizado na ilha do rio Taedong e cuja diária oscila entre US$ 270 e US$ 400.
Como não é possível passear ao léu pela cidade - sob pena de detenção -, o turista tem de alugar um carro durante todo o dia. O preço vai depender da importância do visitante.
As chamadas de telefone são um caso à parte, já que um minuto de conversa custa, no mínimo, US$ 2,7, enquanto a tarifa para enviar um e-mail não depende do tempo, mas dos megabytes (US$ 1,35 por cada 25 MB).
Na prática, não adianta nem sonhar em ter acesso à internet no hotel ou na Biblioteca Nacional, já que esse luxo está reservado aos cientistas e aos militares.
Por outro lado, os restaurantes, administrados por servidores públicos, são acessíveis e oferecem comidas de origens variadas: coreana, chinesa, japonesa, russa, indiana e ocidental.
A lula ao vapor, a tradicional acelga coreana (kimchi), a sopa de tubarão, o pepino com alho, o pato ou javali em pedaços são alguns dos pratos típicos de Pyongyang, que podem ser acompanhados com aguardente de arroz (saquê), chá de cevada e cerveja.
O turista que quiser grandes aventuras e conversar com a população nativa não conseguirá satisfazer essas vontades na cidade, que esconde as mazelas do regime norte-coreano.
Pyongyang, com 2,3 milhões de habitantes, é uma cidade com bastante área verde - 70 metros quadrados de superfície verde por habitante -, sem edifícios velhos, ruas estreitas ou rastro de seus 5.000 anos de história.
Na realidade, a atual Pyongyang tem pouco mais de meio século, se for levado em conta que o Exército americano lançou 428.748 bombas sobre a cidade durante a Guerra da Coréia (1950-53) com o objetivo de devolvê-la à "Idade da Pedra".
Considerações ideológicas à parte, impressiona a visão de uma cidade reconstruída praticamente do zero por um povo imbuído de uma mistura de comunismo e confucionismo, conhecida mundialmente como "juche" (auto-suficiência).
Uma das visitas obrigatórias é a Praça Kim Il-sung - 100.000 ladrilhos de granito branco e 300.000 blocos de pedra -, batizada em homenagem ao fundador da pátria em 1948 e que mistura um pouco do classicismo revolucionário da Praça Vermelha (Moscou) com a amplitude da Praça da Paz Celestial (Pequim).
Subir de elevador na Torre do Juche, uma estrutura de 170 metros de altura, permite ao turista avistar a cidade de cima e entender o alcance da obstinação dos norte-coreanos em trilhar seu próprio caminho.
Já o monumento à fundação do Partido dos Trabalhadores revela que os norte-coreanos optaram por não marginalizar os intelectuais e acrescentaram o pincel à foice e ao martelo.
Caso o turista queira conhecer um pouco da história do país, deve visitar o Mausoléu de Kim Il-sung, que inclui uma estátua do falecido líder com quase 30 metros de altura, e seu lugar de nascimento (as cabanas de Mangyongdae), lugar de peregrinação obrigatório para todo norte-coreano.
Pyongyang tem seu próprio Arco do Triunfo, que é 10 metros mais alto que o de Paris, enquanto os reconstruídos templos budistas remontam o passado do país, onde atualmente só há um deus: o presidente Kim Il-sung.
Além disso, a cidade é adornada com cartazes patrióticos, que convocam a população a resistir aos golpes do imperialismo, enquanto lindas guardas impecavelmente uniformizadas e maquiadas conduzem um trânsito inexistente.
Com a crise econômica na qual o país se encontra imerso desde o fim da URSS (1991), a paisagem urbana da cidade foi transformada em uma multidão de edifícios deteriorados e guindastes em estado catastrófico.
O melhor exemplo da decadência do sistema autocrático norte-coreano é a absurda Pirâmide Ringan, um hotel de 105 andares cuja construção foi paralisada devido à falta de recursos. EFE io lb/sc