Lac (Albânia), 12 mar (EFE).- A Albânia possui exemplares do Corão que figuram entre os menores e mais antigos do mundo e que resistiram a várias décadas do regime comunista, que impôs o ateísmo e destruiu os templos religiosos.
Um destes raros livros antigos mede apenas 2,68 centímetros de comprimento, 2,16 centímetros de largura, 1,09 centímetro de espessura e pesa só 5,2 gramas.
Seu dono é Skender Prushi, de 64 anos, da cidade de Lac, 55km ao norte de Tirana, cujos antepassados eram de Gjakova, cidade do Kosovo, a província de maioria albanesa que quer sua independência em relação à Sérvia.
A capa é de cor vermelha escura com ornamentos de ouro, e o diminuto livro está dentro de uma caixinha metálica corroída, que por um lado tem um vidro redondo que serve de lupa.
É impossível ler a olho nu as 836 páginas, brancas, e finas como seda, que foram contadas por sua filha.
Tanto o livro como a caixinha são autênticos e estão há gerações em posse da família.
"É a única fortuna da minha casa" diz Skender à agência Efe com os olhos cravados no sagrado livro do Islã, difícil de distinguir entre os copos de água, cinzeiros, maços de cigarros e caixas de fósforos espalhados sobre a mesa.
Em sua família, Skender é o único sobrevivente entre os cinco irmãos mortos há anos e atribui sua vida ao milagroso livro.
Além disso, acredita que o livro salvou a vida de seu filho Vardar, em 1998 quando as balas dos policiais italianos que o perseguiam em Florença perfuraram o pescoço e voltaram a sair de seu corpo.
Segundo os contos de sua avó, esta relíquia do passado remonta ao século XV quando um dos filhos da família, então católica, foi como soldado à Turquia e de lá para a Arábia Saudita onde se converteu ao Islã, chegando a se tornar um imame.
O clérigo muçulmano retornou com o livro para sua pátria, e antes de morrer deixou um recado aos familiares: "Guardem-no e rezem com ele, que é um livro sagrado".
A família católica transformada em muçulmana, como a maioria dos albaneses durante a ocupação otomana, guardou o livro até que Skender o herdou da avó, cujas palavras lembra como se fossem pronunciadas hoje: "Guarde-o porque é um dos Corões mais antigos da história da humanidade".
Skender cumpriu com a palavra, guardando o livro fielmente durante os 46 anos da ditadura comunista que aboliu a religião e destruiu as mesquitas e igrejas.
Para salvar o minúsculo livro dos controles da Sigurimi, a Polícia secreta do comunismo, Skender o enviou às escondidas em junho de 1982 ao Teke (mosteiro muçulmano) de Prizren, no Kosovo, onde o Corão permaneceu durante 24 anos.
"O livro estava sepultado na terra pelo temor que fosse achado pelos sérvios ortodoxos", disse Skender, que o trouxe para casa no final de 2006.
Skender afirma que é "pecado" vendê-lo e que vai devolvê-lo a Medina, Arábia Saudita, país de onde chegou.
Outro albanês, Vangjel Kapedani, também assegura que possui um dos Corões mais antigos do mundo que "merece ser classificado como patrimônio da humanidade".
Segundo Kapedani, o livro data do ano 1471 e é original de um povo de Kruja, localidade próxima a Tirana.
O Corão, de dimensões normais, que está parcialmente danificado por ter permanecido escondido em lugares úmidos durante a época comunista, contém 3388 suras (cada capítulo do Corão) escritas em língua persa e otomana, em letras de ouro caligráficas sobre folhas de papiro.
"Sou ortodoxo e meu nome significa "Evangelho" mas, dado que a origem de todas as religiões é do Oriente Médio, vou presentear o Rei saudita com meu livro", disse Kapedani.
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