28/12 - 22:06, atualizada às 15:25 29/12 - Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
Inúmeros analistas estão prevendo maior influência do Irã em 2007, objetivo que seu governo persegue com determinação e desafio. E, o que pouco se destaca, preocupa vários dos mais poderosos países árabes do Oriente Médio.
O Irã tem vasta extensão, 1 milhão e 600 mil quilômetros quadrados, grande população, cerca de 70 milhões de habitantes. É rico em petróleo, porém não o mais rico. Exporta cerca de US$50 bilhões por ano em petróleo. Mas as exportações da Arábia Saudita, com menos 30 milhões de habitantes, ultrapassam os US$ 160 bilhões. A diferença está em que o governo iraniano tem o sentido de missão.
A maioria dos países árabes, e dos muçulmanos do mundo, 90% do cerca de um bilhão e 300 milhões de indivíduos, é da seita sunita. Suni equivale a tradição. Sunitas se afirmam aqueles que acatam as obrigações do Islã como reveladas a Maomé. o Profeta e Mensageiro, por Deus, Alá. Islã significa submissão. Profeta, numa definição do Aurélio, é quem vê o futuro. Mensageiro é quem transmite mensagem. Maomé saiu à frente de um pequeno grupo de beduínos convertidos a sua fé. E os crentes conquistaram e converteram boa parte do mundo. Ele é uma das grandes figuras da história. Os muçulmanos dizem: "Alá é um só e Maomé, o seu Profeta e Mensageiro". Não veneram imagens. As mesquitas são locais da mais extrema sobriedade.
Menos de 10% dos muçulmanos são xiitas. Esta seita respeita todos os mandamentos do Islã, as palavras de Maomé. Mas se diferencia por venerar a Ali, sobrinho e genro de Maomé, marido de Fátima, a única filha.
A mulher do Profeta optou por um discípulo dele como herdeiro na morte dele. Ali jamais se conformou. Morreu em batalha. Foi degolado. Lembrei isto há dias: a cabeça, na tradição xiita, está em Faluja, cidade iraquiana. Até bem pouco tempo, relativamente, os xiitas não eram reconhecidos como muçulmanos. Cometiam a heresia da veneração de Ali. Até hoje as seitas não convivem bem. Quem acompanha o noticiário sabe dos choques diários entre milícias sunitas e xiitas no Iraque. É explicita a ambição do Irã atual de promover a sua seita. Criar um grande poder xiita no Oriente Médio.
A Arábia Saudita tem um governo fundamentalista de inspiração sunita. O Egito tem um presidente sunita, Mubarak, secular. O Egito é considerado a maior potência militar árabe. Países podem ter a mesma crença mas seus interesses político-econômico não são totalmente coincidentes.
O Irã, país dos arianos, que é o que significa o nome, é dominado pela etnia persa. Os árabes são semitas e jamais se conformaram com domínio de povos estrangeiros. Mas um fenômeno inédito se espalha. O Irã, afirma-se, promove união de fato com os grupos xiitas e procura influir sobre sunitas. É acusado de prestar assistência aos xiitas, a maioria no Iraque, no confronto com os sunitas. Os sauditas estariam dando apoio à minoria sunita. A questão ainda não se resolveu mas xiitas estabelecerem estado autônomo pode ser resultado na hipótese dos americanos saírem derrotados. A inimizade do Irã poderá transformar o Iraque enfraquecido, ou dividido, em base para operações de grupos radicais muçulmanos pelo mundo. Pode estimular o patriotismo religioso xiita onde quer que eles vivam num mundo de grandes movimentos imigratórios. Coisa que Bush, presidente americano, qualifica de tragédia se tiver de optar por retirar seus soldados do Iraque.
O apoio do Irã foi decisivo na criação do Hezbollah (Partido de Deus), de xiitas libaneses, que enfrentaram os israelenses em agosto último com um final não muito claro. O Hezbollah ganhou uma popularidade inédita no mundo árabe. A área que ocupa no Líbano entrou em rápida reconstrução. O Hezbolla se rearmou. E virou grande poder com possibilidades de dominar o país politicamente. E, óbvio, é inimigo mortal de Israel que tem o compromisso de destruir.
Tem mais. O Hamas, que venceu as eleições palestinas, é sunita, porém, tem algo em comum com o Irã: a determinação de não se conformar com a existência do Estado judeu. O Irã assiste ao Hamas.
A população síria é majoriamente sunita. O governo foi assumido por uma seita minoritária, a alawita, que controla o país com mão de ferro. E tem acordos de cooperação firmados em julho passado com o Irã.
O destaque adquirido pelo Hezbollah inspira minorias xiitas existentes nos países árabes. Bahrein, Quveit, por todos eles. O receio é o de que os xiitas se organizem para maior participação no poder. Fechem o cerco a Israel.
O Irã tenta aproximação com a Turquia. Prometeu ajudar o Afeganistão na reconstrução. Procura acordos de cooperação com países muçulmanos que concordem com a idéia. Promove a hipótese dos países árabes em geral se afastarem de suas relações com os americanos. O objetivo final parece o de uma aliança se opondo à ainda existente influência dos Estados Unidos. Joga um jogo perigoso.
Depois da decisão do Conselho de Segurança de submetê-lo a sanções, o Irã, na palavra de seu presidente Ahmadinejad, gabou-se de que seu país já era uma potência nuclear. A resposta egípcia veio numa declaração de Gheit, ministro das Relações Exteriores egípcio: “o fato de alguns países possuírem tecnologia para o uso pacífico da energia atômica não permite que se proclamem potência nuclear”.
Mas o anti-americanismo iraniano é popular junto às massas árabes. E mais ainda o proclamado objetivo de destruição de Israel, único pais não-muçulmano na região.
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