Esther Martín
Belém, 22 dez (EFE).- A cidade cisjordaniana de Belém, berço do
Cristianismo, prepara-se mais um ano para receber o Natal, em meio
ao pessimismo da população por causa da falta de peregrinos, apesar
de Israel prever a entrada de 18 mil pessoas entre os dias 24 e 25
de dezembro.
A situação às vésperas das celebrações natalinas gerou tensão em
vários moradores de Belém, principalmente entre os comerciantes e
trabalhadores do setor turístico local, responsável pela renda de
70% da população.
O ministro do Turismo israelense, Yitzhak Herzog, disse esta
semana que seu país adotou uma série de medidas para garantir e
estimular o fluxo de peregrinos em direção a Belém, e que, em 2006,
o número de 270 mil turistas - registrado no ano passado - que
viajaram a esta cidade a partir da vizinha Jerusalém poderia
aumentar.
No entanto, e apesar da decoração natalina, já é possível
perceber que nas lojas, hotéis e na Praça da Manjedoura - centro
nervoso da cidade e a partir de onde se observa a imponente Basílica
da Natividade - há menos grupos de visitantes em comparação aos anos
anteriores, nesta época do ano.
Nasser Al-Allawi, de 35 anos e guia turístico credenciado pela
Autoridade Nacional Palestina (ANP), revela que quase não há
reservas nos hotéis, e questiona se os peregrinos vão mesmo em massa
à cidade.
Allawi diz que, durante todo o dia, apenas dois turistas
visitaram sua loja, um pequeno armazém de lembranças feitas em
madeira de oliveira de Belém, que serve de sustento para seis
famílias.
"Não acho que virá muita gente, porque a situação está perigosa e
as pessoas vêem na televisão. Acho que virão para a missa e logo
irão embora", diz, ao referir-se à tradicional Missa do Galo na
Igreja de Santa Catarina.
O guia explica que, além da tensão vivida nestes dias em Gaza e
na Cisjordânia, há o fato de os estrangeiros considerarem que a
região é perigosa e que o muro de separação construído por Israel
cerca a cidade.
"Belém estará em calma. Não esperamos que aconteçam atos de
violência", disse o prefeito da cidade, Victor Batarseh, tentando
tranqüilizar o visitante estrangeiro.
Batarseh, no entanto, revela que a situação da cidade - e de todo
o distrito de Belém, em geral - não é muito tranqüila.
O prefeito afirmou que Israel continua a construção do muro de
separação que cerca Belém e o confisco de terrenos palestinos, e que
continuam as incursões do Exército israelense, o que, junto com os
últimos confrontos entre facções rivais palestinas, acaba espantando
os turistas.
Nesta cidade - onde a tradição localiza o nascimento de Jesus, há
mais de 2 mil anos -, a população cristã diminui ano após ano, e
hoje é calculada em cerca de 7 mil habitantes, segundo o
representante cristão para Jerusalém do Parlamento palestino,
Bernard Sabella.
Issa Giacaman, o patriarca de uma loja de artigos de imagens
religiosas em madeira e nácar localizada em frente à Gruta do Leite,
onde a tradição diz que uma gota de leite caiu na Virgem Maria,
afirma que a porcentagem de cristãos na Terra Santa caiu em 90% nos
últimos anos.
A maioria dos palestinos cristãos emigrou no início da Intifada
de Al-Aqsa em 2000, e muitos atualmente moram em países da América
Latina.
Giacaman, comerciante palestino de confissão católica, comenta
que a maior parte dos cristãos de Belém são devotos de Igrejas
Orientais. No entanto, recusa-se a fazer comentários sobre a
convivência desta minoria religiosa com os moradores muçulmanos.
"Definitivamente, todos sofremos com a situação, porque ninguém
vem aqui. Há oito anos, tinha 15 empregados em minha loja. Hoje, mal
posso pagar quatro", lamenta. EFE
em pk/an