1968: Marta Kubisova, uma voz reduzida ao silêncio pelos tanques soviéticos

Em 1968, em Praga, a primavera foi como uma explosão de energia durante muito tempo asfixiada, com o fim da censura, um vento fresco estava soprando por toda parte, lembra a cantora Marta Kubisova, ícone da época, que interpretou a canção mais famosa do período, Oração por Marta.

AFP |

"Que a paz continue no país, enquanto você tiver o poder de decidir o seu destino", diz essa música - que é símbolo de uma grande esperança de liberdade que, em seguida, foi brutalmente esmagada por tanques soviéticos.

Depois de o país adotar um regime alinhado com Moscou, a canção foi banida e os artistas silenciados por 19 anos, de 1970 a 1989.

Quatro décadas mais tarde, Marta Kubisova disse que sempre foi a favor de Alexander Dubcek, que, após a sua nomeação como chefe do Partido Comunista tcheco, em janeiro de 1968, tentou implementar o seu "socialismo humano" - uma interpretação que o Kremlin não aceitou e reprimiu com força, em agosto do mesmo ano.

"A chegada de Dubcek foi semelhante à de Gorbachev 20 anos depois. Pode ser visto como uma última tentativa de restaurar uma idéia antes que seja completamente destituída do seu conteúdo", disse a cantora.

Nessa época, ela gravou uma canção especialmente dedicada a Dubcek: "Você não está sozinho na esperança".

Após o fim da censura, um amplo debate foi feito, em todos os estratos sociais, sobre as atrocidades cometidas após o golpe comunista em Praga em 1948, mas também sobre o estado da cultura e da economia. Dubcek esperava que as reformas econômicas e políticas fossem aprovadas em setembro de 1968 por um congresso extraordinário do partido.

"Naquele tempo, as pessoas, especialmente os jovens, sentiram a necessidade de realmente realizar uma mudança, fazer algo de novo após esses terríveis anos 50, quando o medo foi onipresente", lembra Marta Kubisova, agora com 65 anos.

Já muito popular na época, a cantora pôde respirar o ar da revolta estudantil em Paris, na Primavera de 1968: cantou durante quatro semanas no Olympia, com outros artistas tchecos, em alternância com Joséphine Baker.

"Foi um sucesso surpreendente, as pessoas gritavam 'vitória', sentíamos fortes laços que nos uniam. Bruno Coquatrix me ofereceu um novo contrato por seis meses, mas eu preferi voltar para Praga. Lá havia, nas ruas, a mesma atmosfera de liberdade e mudança de Paris. Mas aqueles que diziam que não devíamos acreditar nos soviéticos infelizmente estavam certos", disse.

Nesse período, ela ofereceu um presente de boa sorte para Dubcek, um pequeno anjo, mas isso não foi suficiente: na noite de 20 para 21 de agosto, a efêmera esperança democrática desapareceu sob os trilhos dos tanques.

"Às três horas da manhã, minha mãe entrou no meu quarto e gritou: 'Marta, se levante, o país está ocupado!'. Ainda sonolenta, eu disse a mim mesma, ' Qual o problema? Meu Deus, não é tão mau se os americanos estiverem vindo'. Nunca pensei que os russos pudessem nos invadir."

A cantora reagiu à sua maneira, gravando "Oração por Marta", sua obra-prima, uma canção alegórica pedindo paz para um povo que, mais uma vez, queria ser dono de seu próprio destino.

Após a saída de Dubcek, a cantora se recusou a se submeter ao novo regime. Por isso, o poder a puniu através da proibição profissional, obrigando-a a trabalhar, durante duas décadas, como secretária.

Após se tornar mãe, se juntou à dissidência em torno do manifesto "Carta 77" de Vaclav Havel. "Os policiais sabiam que a escola de Katia (sua filha) fechava às cinco horas, e eles me chamavam sistematicamente as três ou quatro horas, para me levar para interrogatório", conta a cantora, afirmando que não "guarda amargura" do período.

Apenas em novembro de 1989, na "Revolução de veludo", Marta Kubisova pôde novamente cantar a sua "Oração para Marta" em público, cumprimentando a nova democracia e o povo novamente soberano do seu destino.

jma/fb/sd

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG