Wim Wenders expõe no Masp e afirma: "3D é futuro do documentário"

Cineasta alemão falou em São Paulo de suas fotografias e de projeto de dança

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Marco Tomazzoni
Wenders: "Não há nada mais atraente do que a realidade em 3D"
Uma roda-gigante abandonada na Armênia, um cemitério no Japão, a estátua de um dinossauro californiano, uma cratera na Austrália, o topo de um arranha-céu em São Paulo. Cenas bucólicas ao redor do mundo, testemunhadas e eternizadas por Wim Wenders em fotos da exposição “Lugares, estranhos e quietos”, que será aberta ao público nesta quinta-feira (21), no Masp, integrando a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na qual também assina o cartaz. Segundo o fundador do festival, Leon Cakoff, o diretor alemão tentava há três anos expor seu trabalho no museu, que aparece em seu último longa-metragem, “Palermo Shooting”. Agora, finalmente conseguiu.

Na entrada da exposição, o cineasta explica num texto de apresentação que, ao passear pelas ruas de uma cidade, vira onde aparentemente não tem nada e pronto, está de frente para seu tipo favorito de lugar. Enquanto existem pessoas com atração por drogas, dinheiro ou carros, ele se diz viciado justamente por lugares. “Sinto saudade de uma dúzia ao mesmo tempo”, garante.

Um pouco antes da abertura da exposição para convidados, numa conversa com a imprensa, Wenders reconheceu que seu “vício” começou cedo. “Nasci com esse vício. Quando garoto, tirava quantas fotos possível, só era limitado pelos rolos da câmera, pagos com os trocados que ganhava. Esse vício vem acompanhado de outro, que é viajar. Considero essa minha profissão, ser um viajante.”

O diretor de “Paris, Texas”, “Asas do Desejo”, “Buena Vista Social Club” e outros filmes celebrados disse que por um bom tempo não se considerou um fotógrafo – só percebeu que poderia ter algum material relevante na década de 1980, quando começou a trabalhar com negativos maiores. “Nunca tive aulas de fotografia. Na infância, queria ser pintor, era meu desejo secreto. Por isso, aprendi mais com pintores, a fazer enquadramento, por exemplo, do que com filmes e fotógrafos.”

Nas imagens de Wenders, não há pessoas. Se estão lá, aparecem pequenas, ao longe, ou de costas para a lente. O cineasta explica que esses lugares ermos, vazios, estão à espera de serem populados e podem contar uma história apenas pelo contexto em que estão inseridos – como, de certa forma, os personagens de seus filmes –, tanto que nem precisam de legendas.

“Há grandes fotógrafos de pessoas, como minha mulher, mas não é o que gosto. Talvez pelo fato de fazer um filme a cada dois anos. Numa cena, a paisagem fica apenas como pano de fundo, com os atores na frente. Nas fotos, tento mostrar sua importância, digamos, capturar coisas que ninguém consegue ver. Às vezes, as paisagens contam mais do que as próprias pessoas que vivem nelas. Gosto disso.”

As imagens expostas no Masp são gigantes – algumas chegam a ter mais de quatro metros de largura – e datam de 1983 a 2010. Do Brasil, há fotos de São Paulo e Salvador. O país também está representado indiretamente numa terceira imagem: em túnel de trem em Wuppertal, na grande Düsseldorf (cidade-natal de Wenders), aparecem os famosos bonecos amarelos d'OsGemeos. Wenders lembrou da ocasião em que tirou a foto na capital paulista.

“Estava no topo de um arranha-céu esperando um helicóptero, que não veio. Caminhando por ali, vi o sistema de ventilação, um maquinário que não conhecia, coberto por algo que parecia um fungo, um verde lindo, e fiquei imaginando como podia ter vida naquele lugar e como esses sistemas de ar-condicionado não são nada saudáveis.”

Marco Tomazzoni
Wenders: "Não há nada mais atraente do que a realidade em 3D"
Wenders acabou de filmar um documentário em 3D da companhia de dança de Pina Bausch, morta, vítima de câncer, em junho do ano passado. Segundo o diretor, há décadas os dois queriam fazer algo juntos, mas ele não acreditava haver tecnologia boa o suficiente para um filme de dança. Recentemente, depois de assistir a “U2 360”, o registro em 3D da penúltima turnê da banda, percebeu – apesar de achar o filme tecnicamente um desastre – que enfim era possível assumir a tarefa.

A experiência com o 3D no set é resumida por Wenders em dois pontos: “primeiro, é muito caro; segundo, completamente desajeitado”. Isso porque, em outubro de 2009, quando as filmagens começaram, as câmeras eram enormes, pesadas, se usavam cabos grossos para capturar os dados e era preciso filmar através de espelhos semi-transparentes. Por outro lado, em junho, quando as últimas cenas foram gravadas, as câmeras já eram do tamanho de uma máquina fotográfica. “Está evoluindo muito rápido”, explicou.

Segundo ele, o 3D é o futuro do documentário, em uma evolução parecida com a tecnologia digital. “Há uns 15 anos, o digital só era usado em comerciais caríssimos ou para criar fantasia em blockbusters. Depois, a tecnologia digital salvou o documentário. O que parecia desagradável, maléfico, salvou meu gênero favorito.”

Com o 3D, deve acontecer mais ou menos a mesma coisa, na opinião do diretor. Depois do deslumbramento com “Avatar” e “Alice no País das Maravilhas”, repletos de lugares artificiais – que Wenders despreza completamente –, a tecnologia deve ser utilizada para contar histórias reais. O cineasta já usou e é enfático: “não há nada mais atraente do que ver a realidade em 3D”.

Além da exposição no Masp, Wenders exibe quatro filmes na programação da Mostra: "Até o Fim do Mundo", "Asas do Desejo", "Paris, Texas" e "O Filme de Nick". Inédito em DVD no Brasil, "Até o Fim do Mundo" (1991), estrelado por William Hurt, vem ao país numa versão do diretor, com 280 minutos, quase duas horas a mais da versão que foi chegou aos cinemas, cortada pelos produtores. Wenders participa de uma sessão do filme e profere aula magna falando das obras que influenciaram sua carreira.

Serviço – "Lugares, estranhos e quietos" de Wim Wenders . Masp (Av. Paulista, 1578). De 21 de outubro a 16 de janeiro de 2011. (11) 3251-5644. Terças, quartas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h; quintas, das 11h às 20h. A bilheteria fecha uma hora antes. Ingressos: R$ 15 (grátis nas terças).

Serviço – Wim Wenders na 34ª Mostra de São Paulo
"Até o Fim do Mundo Director´s Cut": no dia 23, às 15h, na Sala Petrobras, na Cinemateca Brasileira; e na sala 2 do Cine Livraria Cultura, às 16h
"Asas do Desejo": no dia 24, às 14h, no Cine Livraria Cultura, sala 2; e no dia 27, às 14h30, no Unibanco Arteplex, sala 6
"O Filme de Nick": no dia 24, às 23h, no Cine Livraria Cultura, sala 2
"Paris, Texas": no dia 24, às 18h50, no Cine Livraria Cultura, sala 2

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