"Vênus Negra" é experiência torturante

Filme mostra história real de mulher africana explorada como atração circense

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
A atriz Yahima Torres, à frente, e o domador de animais: terror no início do século 19
Figura histórica, a Vênus Hotentote era uma atração de circo na Europa do século 19. Com nádegas avantajadas, fingia ser uma selvagem africana para entreter as plateias brancas, ávidas por bizarrices – anões, abelhas selvagens e ursos eram atrações concorrentes. Em troca do ingresso, o público podia até tocar em seu objeto de curiosidade, às vezes com vara curta. Saartjie Baartman (seu nome verdadeiro) não era uma onça, no entanto, e, indefesa, só emitia dor e humilhação. O espectador de "Vênus Negra", em exibição na Mostra de São Paulo – que teve sessão hiperlotada no Arteplex neste domingo, com gente sentada nas escadas –, sente na pele tudo isso, talvez até demais.

O diretor tunisiano Abdellatif Kechiche ("O Segredo do Grão") começa a contar a história do final, quando a genitália da Vênus, guardada em um vidro, e seu molde em gesso são apresentados numa conferência científica em Paris, 1815. Para os pesquisadores, aquele exemplar hotentote – etnia africana da qual ela era descendente – servia para estreitar as comparações entre homem e macaco e ratificar a "eterna inferioridade" da raça. Uma pequena amostra do etnocentrismo europeu, que encontrava prazer no evidente sofrimento humano – não que as coisas tenham mudado muito de lá para cá.

Saartjie, ou Sarah, era empregada doméstica de Hendrick Caezar (Andre Jacobs, excepcional) na Cidade do Cabo, África do Sul, e foi convencida pelo patrão de que os palcos europeus iam ser sua glória. Seduzida pela ideia de cantar e dançar, acaba dentro de uma jaula, acorrentada pelo pescoço, parte do número criado por Caezar, que interpreta um explorador das savanas. Para suportar a dura rotina, Saartjie afoga as mágoas no uísque, copo atrás de copo. Qualquer sinal de revolta é abafado com fala mansa ou sopapos, e assim ela vai.

Se em Londres um grupo até levou para os tribunais a denúncia de que Saartjie sofria exploração, em Paris a situação fica muito pior. Lá, segundo o domador de animais que passa a gerenciar a carreira da Vênus, "ninguém se importa". Saartjie se torna atração nas rodas da alta sociedade e não demora a provar a libertinagem dos aristocratas.

Estreante, a atriz cubana Yahima Torres está excelente como a protagonista: calada, suporta tudo com expressão amarga e olhos grandes, expressivos, cheios de lágrimas. As provações da personagem – e são muitas ao longo das quase três horas de projeção – viram o mais puro terror.

O que podia ser um trunfo do filme aos poucos vai se transformando em tortura. Mais do que provocar reflexão, como queria o diretor, a violência em doses cavalares provoca repulsa – não foram poucas as pessoas que deixaram a sala ao ver o show de horrores de Saartjie de novo e de novo. Tem-se a impressão de que o efeito seria o mesmo sem esse exagero, palavra que, felizmente, não retrata o conjunto do filme.

Exibida num museu francês até a década de 1980, a Vênus Hotentote virou símbolo na luta pelos direitos humanos: governo sul-africano, na figura de Nelson Mandela, exigiu a repatriação de seus restos mortais. Isso só aconteceu em 2002, quando o corpo recebeu recepção de chefe de estado. Final feliz na vida real, que não tira o gosto amargo da boca.

Serviço – "Vênus Negra" na 34ª Mostra de São Paulo
Direção de Abdellatif Kechiche (França), 159 minutos
Unibanco Arteplex 1, 02/11 (terça), 22h00
Unibanco Arteplex 1, 04/11 (quinta), 18h20

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