Terror da guerra atormenta "Caterpillar"

Figura de soldado japonês mutilado em combate assobra mulher e plateia

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
A atriz Shinobu Terajima, premiada em Berlim
Na impactante cena inicial de "Caterpillar", a câmera passeia pelos rostos incrédulos da família do tenente Kurokawa. O ano é 1940 e ele acaba de voltar da Guerra Sino-Japonesa, o conflito armado entre China e Japão antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Os oficiais que o trouxeram tem "herói" na ponta da língua e batem continência para dizer que ele foi "devolvido com segurança". Shigeko, a mulher, sai correndo, gritando que "aquilo" não é seu marido. Para o pai, é uma "pilha de carne". Não é para menos: o homem está sem braços, pernas, surdo, mudo e com o rosto queimado.

Essa é a premissa tenebrosa do japonês "Caterpillar" (lagarta, na tradução), cuja história se desdobra em dois eixos dramáticos – o microcosmo da relação entre marido e mulher, de interdependência e rancor, e o patriotismo na guerra, que afeta todo o cotidiano do povoado, numa área rural do Japão. Shigeko busca apoio aí, nos boletins de rádio que levantam a moral da nação. Ela precisa servir ao imperador e ser uma esposa exemplo, cuidando do "deus vivo da guerra", como seu marido passa a ser chamado pela imprensa e, no embalo, pelos outros moradores. A celebridade que tem em casa passa a ser a compensação por todo o trabalho que a personagem enfrenta.

E não é pouca coisa. Consciente, Kurokawa se comunica pelos olhos e através de grunhidos. Exigente, até violento, desenvolve um apetite aterrador por comida e, pasmem, sexo. A situação crítica do casal ainda é alimentada pelo passado, por traumas do fronte e por todo o contexto da guerra – racionamentos, mentiras e o rádio que não para de catequizar ("um bom soldado não sobrevive para ser um prisioneiro vergonhoso", defende o império).

Filmado em 12 dias, com baixo orçamento, "Caterpillar" não deixa evidente seu pequeno porte, nem mesmo nos efeitos para ocultar os membros do ator Shima Ohnishi, que, aliás, está excelente em cena, assim como a atriz Shinobu Terajima, premiada com o Urso de Prata em Berlim. A força da trama está, sobretudo, no elenco.

Com mais de 100 filmes no currículo, o diretor Kôji Wakamatsu já disse que queria mostrar no filme como, para os seres humanos, a vida signica sexo, comida e violência. A trinca está bem representada na espiral doentia que surge entre o casal – a experiência de ver "Caterpillar" é bastante dolorosa. Mas o discurso antiguerra que vai aparecendo aos poucos, até adquirir caráter enciclopédico no final, acaba enfraquecendo a tensão criada, até então, com muita habilidade. Ainda bem que não invalida o esforço de sofrer com os personagens.

Serviço – "Caterpillar" na 34ª Mostra de São Paulo
Direção de Kôji Wakamatsu (Japão), 85 minutos
Unibanco Arteplex 5, 01/11 (segunda), 18h20
Unibanco Arteplex 4, 02/11 (terça), 19h40

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