"O Mágico" mostra outro lado de Tati

Animação do diretor de ¿As Bicicletas de Belleville¿ tem roteiro inédito do mestre

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Sem aprofundar o humor, "O Mágico" aborda drama familiar e perda de inocência
Dois anos antes de morrer, a filha do cineasta e comediante francês Jacques Tati, Sophie Tatischeff (verdadeiro nome da família) entregou a Sylvain Chomet, diretor da animação “As Bicicletas de Belleville”, um roteiro inédito do pai, considerado um dos maiores nomes do cinema mundial, à frente de comédias como “Meu Tio” (1958) e “Playtime - Tempo de Diversão” (1967). Uma década depois, “O Mágico” ficou pronto, com Tati no papel principal, em desenho animado.

A figura lembra o ator – alto, empertigado, trapalhão – e seu personagem célebre, Monsieur Hulot, assim como o tom dos filmes: pouquíssimos diálogos, num roteiro quase mudo; se há humor, ele é físico. A questão, no entanto, é que “O Mágico” está bem longe de ser uma das comédias que tornaram Tati famoso. Funciona como um drama familiar dos mais melancólicos, baseado, comenta-se, no remorso de Tati por abandonar sua primeira filha, ilegítima.

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O pôster original da animação francesa
Tatischeff, o protagonista, é um mágico francês da velha guarda, que luta para manter sua relevância no final dos anos 1950. Enquanto esconde um coelho na cartola e lenços na manga, vê os teatros serem dominados por bandas de rock e suas fãs enlouquecidas. Quando os roqueiros (todos afetadíssimos) estão no palco, a plateia lota. O ilusionista, porém, mostra seus truques para poltronas vazias. Ele cai na estrada, malas e coelho a tiracolo, atrás de um lugar onde possa ficar em temporada.

Acaba no interior da Escócia, num pub minúsculo. Lá, a faz-tudo Alice fica deslumbrada com a arte do mágico e cria a certeza de que ele tem poderes de verdade. Resolve segui-lo para Edimburgo e os dois desenvolvem uma relação de pai e filha. Em tempos bicudos, de pouco dinheiro e trabalho, Tatischeff precisa se virar para vestir e alimentar a nova companheira, nem sempre mantendo a dignidade intacta.

“O Mágico” lida, basicamente, com o amadurecimento e a perda da inocência, e o faz de forma tão dolorida e realista que de modo algum pode ser considerado uma produção para crianças – aqui, a animação é adulta. A decadência do teatro de variedades, por exemplo, é mostrada sem dó: os acrobatas se viram trabalhando como pintores, ao ventríloquo solitário resta conversar com seu boneco, o palhaço se afunda na bebida ouvindo discos circenses e pensando em se matar. Não é para qualquer um.

A animação de Chomet continua elegante e fluída, embora as cores da Grã-Bretanha e dos personagens sejam, como pede a história, contidas, menos brilhantes. “O Mágico” pode, assim, não ter o encanto nem o apelo de seu trabalho anterior, mas recupera a figura de Tati, cara para muita gente. Já é uma vitória e tanto. Atenção para as homenagens a ele espalhadas pelo filme, como “Meu Tio” em cartaz num cinema escocês.

Assista ao trailer de "O Mágico" (sem legendas):

Serviço – “O Mágico” na 34ª Mostra de São Paulo
Direção de Sylvain Chomet (França), 80 minutos
Cine Tam 4, 27/10 (quarta), 19h00, sessão 574
Cine Livraria Cultura 1, 03/11 (quarta), 22h40, sessão 1252

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