Mostra de São Paulo 2011 é aberta com "O Garoto da Bicicleta"

Enxuta, programação abre mão de Hollywood e oferece mais sessões para cada filme

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

De luto pela morte de seu fundador, Leon Cakoff , a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2011 será aberta na noite desta quinta-feira (20) como ele fazia questão: com um grande filme. "O Garoto de Bicicleta", dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, será exibido em cerimônia exclusiva para convidados no Auditório Ibirapuera, junto com o curta "Viagem à Lua" (1902), clássico de Georges Méliès.

A diretora da Mostra, Renata de Almeida, viúva de Cakoff, deve comandar uma homenagem a ele. Entre sexta-feira (21) e 03 de novembro, cerca de 250 filmes serão exibidos em 22 salas da capital, com sessões pagas e gratuitas.

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Cécile De France e Thomas Doret em "O Garoto da Bicicleta", dos irmãos Dardenne
Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes , que dividiu com o turco "Era Uma Vez na Anatólia", "O Garoto de Bicicleta" mostra território novo para os irmãos Dardenne. O naturalismo pessimista das histórias da dupla, famosa por longas como "A Criança", "O Silêncio de Lorna" e "O Filho", continua lá, mas incrivelmente ensolarado.

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Cyril (Thomas Doret), de 12 anos, extravasa em pontapés e pedaladas a frustração por ter sido abandonado pelo pai em um orfanato. Uma criança ligada no 220, prestes a explodir, e que pode machucar muita gente com os estilhaços. Para isso, a escalação do estreante Doret, ruivo, espoleta e com um olhar de dar dó, foi perfeita.

Pelo meio do caminho, a cabeleireira Samantha (Cécile De France) surge como uma chance de abafar aquela rebeldia num ambiente familiar. Pode parecer uma historinha água com açúcar – não se engane. O lado negro do homem segue orientando o trabalho dos Dardenne, com suas idas e vindas carregadas de tensão dramática. A novidade é que os diretores se permitiram ser um pouco mais alegres. Assumir que a vida não é tão ruim assim não poderia fazer mal.

Está confirmada na abertura a presença de Frances Kazan, escritora e viúva do diretor norte-americano Elia Kazan, homenageado com uma retrospectiva, assim como os russos Sergei Paradjanov – alvo de uma exposição no MIS – e Aleksei German. Será a oportunidade de assistir mais uma vez a obras consagradas como "Sindicato dos Ladrões" (54) e "Uma Rua Chamada Pecado" (51), além do documentário "Uma Carta para Elia", em que Martin Scorsese confessa a influência do cineasta, acusado de colaborar com o macartismo, em sua carreira.

A trajetória de Scorsese, aliás, vai ser lembrada pelo lançamento no festival de "Conversas com Scorsese", livro de entrevistas conduzido por Richard Schickel, que virá ao Brasil.

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Cartaz da Mostra de São Paulo 2011, criada por Mauricio de Sousa
Programação menor, mas generosa

Norteada por uma nova diretriz de exibir apenas filmes inéditos no Brasil, a 35ª edição da Mostra de São Paulo diminuiu sua programação. Das mais de 400 atrações de anos anteriores, o total desta vez gira em torno de 250. Ao apresentar o evento há duas semanas, Renata de Almeida afirmou que o evento recebia críticas no passado por seu gigantismo e que a maioria dos festivais estrangeiros adota o ineditismo como regra para compor sua seleção. "É uma experiência corajosa", assumiu Renata.

Leia também: 20 filmes imperdíveis da Mostra de São Paulo 2011

A mudança traz duas consequências notórias. A primeira é a ausência de grandes produções hollywoodianas, que já têm exibição garantida no país e usavam a Mostra para pré-estreias e para medir as primeiras reações do público brasileiro. Boa parte das distribuidoras optou por fazer isso no Festival do Rio, quase simultâneo à Mostra. O resultado foi que "Tudo pelo Poder" , dirigido e estrelado por George Clooney, é praticamente o único representante do cinemão norte-americano. Sobrou mais espaço, portanto, para longas europeus e de filmografias pouco conhecidos, justamente um dos faróis da curadoria.

Outro impacto da programação enxuta é o maior número de sessões. Com menos filmes e o mesmo número de salas, os organizadores da Mostra conseguiram agendar mais horários para cada longa-metragem, dependendo de uma negociação caso a caso. Em geral, o cinéfilo vai ter quatro ou cinco chances para assistir a cada filme, o que ajuda a evitar corridas de uma sala para outra ou a difícil escolha de optar por um ou outro – embora isso fatalmente ainda deva ocorrer.

É que, mesmo menor, a Mostra 2011 ainda está cheia de ótimas opções. Serão exibidos "Fausto", de Alexander Sokurov, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza ; o elogiado "Era Uma Vez na Anatólia" , do turco Nuri Bilge Ceylan; "Habemus Papam" , de Nanni Moretti; "Isto Não É um Filme" , documentário do iraniano Jafar Panahi sobre o período em que ficou em prisão domiciliar; "Frango com Ameixas", da quadrinista Marjane Satrapi ("Persépolis"); "O Futuro" , da queridinha indie Miranda July; e "Caverna dos Sonhos Esquecidos", esperado documentário em 3D de Werner Herzog .

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Atom Egoyan dirige as atrizes Amanda Seyfried e Julianne Moore em "O Preço da Traição" (2009)
Isso sem contar muitos filmes inéditos brasileiros, as retrospectivas e a oportunidade de ver cópias restauradas de clássicos do cinema, um dos grandes trunfos desta edição: "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, "Taxi Driver", de Martin Scorsese, "1900", de Bernardo Bertolucci, "A Doce Vida", de Federico Fellini e "O Leopardo", de Luchino Visconti, só para citar os principais. Só isso já dá para ocupar muitas noites nas próximas semanas.

Entregue anualmente a personalidades do cinema, o prêmio Humanidade será concedido este ano ao diretor canadense Atom Egoyan ("O Preço da Traição", "Exótica"), que vai ministrar em São Paulo uma aula especial e participar do júri da competição de novos diretores, ao lado de Jorge Furtado, do francês Frédéric Boyer, responsável pela Quinzena dos Realizadores em Cannes, do diretor africano Mahamat Saleh Haroun ("Um Homem que Grita"), e da roteirista francesa Elisabeth Perceval. Os prêmios vão de R$ 15 a R$ 45 mil.

As permanentes e pacotes de ingressos continuam à venda na Central da Mostra, montada no Conjunto Nacional – à exceção dos pacotes de 20 ingressos, esgotados –, que permitem garantir uma entrada até quatro dias antes da sessão. Aos outros, resta comprar o ingresso pela internet até a véspera da exibição ou no próprio dia, na bilheteria do cinema. Algumas salas, no entanto, têm entrada gratuita .

Serviço – 35ª Mostra de Cinema de São Paulo
De 21 de outubro e 3 de novembro de 2011

Central da Mostra: Conjunto Nacional (Paulista, 2073), telefone 11 3251 2806
Aberta de 10 a 14 de outubro, para informações, das 12h às 18h. De 15 de outubro a 03 de novembro, das 10h às 21h, para credenciamento e vendas de pacotes e permanentes.

Valores de permanentes e pacotes promocionais
Permanente integral: R$ 390
Permanente integrante Folha: R$ 331,50
Permanente especial: R$ 90
Permanente especial Folha: R$ 76,50
Pacote de 40 ingressos: R$ 285
Pacote de 20 ingressos: R$ 165

Ingressos individuais (adquiridos somente no dia da sessão)
Segunda a quinta: R$ 14 / R$ 7 meia
Sexta a domingo: R$ 18 / R$ 9 meia

Vendas pela internet: Ingresso.com , com antecedência de quatro a um dia antes da sessão

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