Miranda July repete excentricidades em "O Futuro"

Diretora e atriz de "Eu, Você e Todos Nós" sugere debate de uma geração, mas só fica na esquisitice

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Cinco anos separam "O Futuro" do primeiro trabalho na direção de Miranda July, o incensado "Eu, Você e Todos Nós". O filme fez sucesso em festivais e ganhou uma legião de fãs por mostrar ao mundo o modo peculiar como a também escritora e artista plástica norte-americana encara a vida. As histórias dos personagens eram envoltas numa aura delicada, doce e melancólica, mas a esquisitice era o que se sobressaía e encantava.

"O Futuro", exibido nesta edição da Mostra Internacional de São Paulo , não perdeu essa estética excêntrica. Desta vez, porém, o amor não é colorido e cheio de romance como em "Eu, Você e Todos Nós". Se encarados como partes do mesmo filme, a primeira é a paixão e a segunda, o fim de caso.

Divulgação
Miranda July e Hamish Linklater em "O Futuro": casal em crise
Na história, Sophie (a própria July) e Jason (Hamish Linklater, da série "The New Adventures of Old Christine") levam uma vida pacata em Los Angeles e estão prontos para dar o próximo passo em sua relação: adotar um gato. Ela, professora de dança para crianças, e ele, técnico de informática por telefone, decidiram acolher o animal seguros de que o bicho, doente, viveria poucas semanas.

Mas Patinha (esse é o nome do gato) pode, segundo a veterinária, viver até cinco anos se for bem tratado e receber amor e carinho. É o suficiente para o casal – que se assemelha até no corte de cabelo – entrar em parafuso. Cinco anos, dizem, é tempo demais para assumir responsabilidade com qualquer coisa que não seja eles mesmos. Afinal, os dois já passaram dos 30. "Daqui a cinco anos vamos ter 40, que são basicamente 50, que viram 60 e daí sobra pouco tempo", refletem.

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Começa, então, uma corrida contra o calendário: Sophie e Jason tem um mês até que o animal ganhe alta e possa ir para casa. É a chance de rever prioridades e tentar achar sentido na vida. Cada um reage à sua maneira. Ele começa a vender árvores de porta em porta, enquanto ela tenta gravar coreografias curiosas na internet e faz sexo com um estranho.

"O Futuro" parece que vai rumar por uma discussão interessante sobre a dita crise dos 30 anos, em que as certezas e ilusões da juventude são revistas e a idade passa a ser uma questão importante. Sem contar a família – o gato é uma clara referência a filhos.

Mas Miranda July não toma esse caminho. A diretora e roteirista está mais preocupada em explorar as excentricidades e vidas vazias de seus protagonistas do que fazer o retrato de uma geração.

nullOs dois são praticamente niilistas, sem acreditar em nada, perambulando por um mundo, para eles, sem razão de ser. Trazem um sentimento de não pertencer, comum aos personagens de July, só que exacerbado. Mais do que deslocamento, torpor. Há um toque de contemporaneidade – a dependência da internet, por exemplo –, mas se a ideia era tomar a desorientação do casal como regra, não funcionou.

De resto, a cineasta sabe como conquistar seu público-alvo. O gato vira narrador de sua história: com voz infantil (feita pela própria diretora), ele conta os dias até seus futuros donos irem buscá-lo. Se veem apenas suas patas dianteiras, manipuladas como um fantoche. Ainda há a arte peculiar de July, que aqui inventa danças bizarras, e uma brincadeira com o fantástico (conversas com a lua, a habilidade de parar o tempo, uma camiseta que se arrasta sozinha).

E só. Também exibido no Festival de Berlim , "O Futuro", no fim das contas, vale pela esquisitice de sua realizadora. Pode ser suficiente para alguns, mas não afasta a sensação de superficialidade.

Mostra de São Paulo 2011 - "O Futuro"
Unibanco Arteplex 4, 27/10 (quinta), 14h, sessão 557
Espaço Unibanco 3, 31/10 (segunda), 17h50, sessão 893

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