"Kubrick era um criador de problemas", diz produtor do cineasta

Jan Harlan, parceiro do diretor de "Laranja Mecânica", fala sobre sua obra na FAAP

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Aline Arruda/Agência Foto
O produtor Jan Harlan na Mostra de São Paulo
A primeira exibição da cópia restaurada de "Laranja Mecânica" no Brasil, no último final de semana, se estendeu madrugada adentro no Cinesesc, em São Paulo. Ao final, o alemão Jan Harlan, cunhado e produtor do cineasta Stanley Kubrick, começou uma conversa bem-humorada com o público e não deu sinais de cansaço: só parou porque os funcionários do cinema precisavam fechar as portas. É assim que o septuagenário Harlan se porta quando o assunto é Kubrick, com quem trabalhou de 1969 até sua morte, 30 anos depois. Nunca é demais falar de sua obra.

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Hoje em dia Harlan atua como uma espécie de embaixador de Kubrick, que casou com sua irmã, Christina, na década de 1950. Além de ser inicialmente responsável pelo testamento do diretor, Harlan supervisiona a remasterização de seus filmes – como a edição comemorativa de 40 anos de "Laranja Mecânica" –, a produção de extras para o lançamento no mercado doméstico e viaja o mundo dando palestras em universidades e escolas de cinema.

Histórias ele tem para contar. Os dois começaram a trabalhar juntos no final da década de sessenta, quando Kubrick mergulhou fundo nas pesquisas para produzir uma mítica cinebiografia de Napoleão, que nunca saiu do papel. O projeto, recuperado recentemente numa edição luxuosa da editora Taschen, previu um longo período de pré-produção na Romênia, onde "Napoleão" seria filmado. Essa etapa inicial era obrigatória em todo filme de Kubrick, obcecado por minúcias e pela fidelidade em produções históricas.

"[Kubrick] era muito concentrado na pré-produção, em como acertar e fazer um filme que valesse a pena assistir, que ele, teoricamente, gostaria de ver. Nada era fácil e caía no colo. Era uma grande batalha a cada vez", contou Harlan ao iG , lembrando o início da parceria.

Divulgação
Stanley Kubrick nas filmagens de "Laranja Mecânica"
"Eu tinha outro emprego, trabalhava com organizações financeiras em Nova York, Viena, Zurique. Stanley, então, me convidou para ficar um ano na Romênia, na pré-produção, e topei. Acabamos nos conhecendo muito, muito bem, gostávamos um do outro e uma coisa levou à outra. Durante a filmagem de 'Laranja Mecânica' [quando atuou como assistente de produção], dei uma boa olhada no que acontece na indústria do cinema. Basicamente, fazia o que sabia: negociar, planejar, conseguir autorizações. A partir de 'Barry Lyndon' (75), fui oficializado."

Depois de "Barry Lyndon", Harlan fez a produção executiva de "O Iluminado" (80), "Nascido para Matar" (87) e "De Olhos Bem Fechados" (99), além de "A.I. - Inteligência Artificial" (2001), criado inicialmente por Kubrick, mas entregue pela Warner Bros nas mãos de Steven Spielberg. O papel do produtor é fundamental para que um filme seja realizado, mas o alemão, modesto, diminui sua participação e vai contra aqueles que defendem a coletividade como fundamental na autoria de uma obra.

"Eu não tinha nada a ver com que se via na tela. Um filme é feito por uma pessoa, não se engane. Claro que os atores e a equipe técnica também são uma parte muito importante, todo mundo precisa estar certo. Mas um filme de Ingmar Bergman é feito por Ingmar Bergman. Se um filme de Woody Allen fracassa, não é culpa de ninguém a não ser Woody Allen. O mesmo acontece com os trabalhos de Kubrick e de qualquer outro artista."

Criador de problemas

A obra de Stanley Kubrick desde o início foi marcada pela polêmica, mas ganhou maior intensidade a partir de "Lolita" (62), continuou assim com "Dr. Fantástico (64), "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (68) e atingiu o auge com "Laranja Mecânica" (71), alvo do documentário "Era Uma Vez... Laranja Mecânica", exibido nesta edição da Mostra de São Paulo . Quanto a isso, Harlan não tem meias palavras.

"Kubrick era um criador de problemas, o que se precisa numa democracia. Como, por exemplo, Michael Moore. Se é bom ou não, não importa – é necessário", afirmou. "Todos os filmes de Kubrick dividiram plateias. Nunca se pode contentar todo mundo, mas com ele, as pessoas odiavam ou amavam. Sempre reações extremas. Em 'Dr. Fantástico', metade dizia que era o melhor filme já feito e a outra dizia que o cara devia ser preso [risos]."

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Kidman e Tom Cruise em "De Olhos Bem Fechados": o filme favorito de Stanley Kubrick
O cineasta sempre teve fama de difícil. A lenda em torno de sua pessoa trazia relatos díspares de genialidade, perfeccionismo, tirania, excentricidade e alterações extremas de humor. Quando o assunto é esse, Harlan desconversa – "ele era exigente em primeiro lugar consigo mesmo", explica – e garante que se tratava de uma questão de manter o ritmo.

"Todos os grandes artistas são assim. Um grande artista é alguém que faz algo que não desaparece, que não é como o jornal de ontem. Você pode não gostar de Picasso, por exemplo, mas ele nunca vai ser esquecido. Ele mudou as coisas, como os impressionistas franceses, Richard Wagner... São artistas que influenciaram o mundo todo. E acho que Kubrick integra este grupo com destaque. Não só seus filmes vão se manter, como ele era um instigador de ideias, assim como Fellini, Woody Allen, Bergman. Se era uma pessoa difícil? Isso não significa nada."

Jan Harlan volta a falar com o público da Mostra de São Paulo nesta terça-feira (25), às 19h, na Faap, após a exibição de "Era uma vez... Laranja Mecânica". A entrada é gratuita e as senhas serão distribuídas uma hora antes do início. O produtor promete esclarecer dúvidas sobre a obra do diretor – disse estar ansioso por perguntas novas – e falar, por exemplo, de seu filme favorito, "De Olhos Bem Fechados", estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, na época um fracasso de bilheteria.

"É um filme muito difícil, que precisa ser visto mais de uma vez: se depois de dois meses você for assistir de novo, vai ser uma experiência completamente diferente. Kubrick trabalhou no roteiro por 30 anos. Muita gente não concorda, mas não importa: ele achava que aquele era seu melhor filme, que finalmente tinha conseguido."

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