Julie Gavras faz rir para falar de temas importantes; leia entrevista

Diretora de "Late Bloomers" e "A Culpa É do Fidel" fala do uso da comédia e da dificuldade de achar atrizes dispostas a assumir a idade

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Aline Arruda/Agência Foto
A diretora Julie Gavras em São Paulo
Uma comédia romântica com sessentões em conflito. "Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim", na programação da Mostra Internacional de São Paulo , coloca Isabella Rossellini e William Hurt para discutir como o peso da idade afeta a vida a dois. O tema não é exatamente leve – uma suspeita de Alzheimer começa a discussão –, mas a abordagem é tão leve e divertida que "Late Bloomers", exibido no início do ano no Festival de Berlim , proporciona uma experiência deliciosa.

Foi assim também com o primeiro filme da francesa Julie Gavras, "A Culpa é do Fidel" (2006). A estreia da filha de Costa-Gavras na direção falava de radicais políticos no início da década de 1970, mas pelo olhar de uma garotinha enfezada com as mudanças na rotina. O longa-metragem foi um pequeno sucesso nos cinemas brasileiros e ficou meses em cartaz.

"É estranho porque não soube disso por muito tempo. As pessoas não ligam para contar esse tipo de coisa", lembrou ao iG a diretora, que está em São Paulo para divulgar "Late Bloomers". "Oito meses depois da estreia, Walter Salles, que estava distribuindo o filme no Brasil, ligou para dizer que ele ainda estava em cartaz, mesmo num pequeno número de salas. Percebi ao chegar aqui que o filme encontrou eco na memória brasileira, tinha uma relação muito forte. Mas é uma situação muito peculiar, não sei se vou conseguir encontrar isso de novo."

A temática de "A Culpa do Fidel" era alinhada com a história de Costa-Gavras, diretor grego expoente do cinema político mundial, famoso pela trilogia sobre as ditaduras – "Z" (69), na Grécia, "Estado de Sítio" (72), no Uruguai, e "Desaparecido" (82), no Chile. Julie admitiu que o fato de abordar mais uma vez um assunto sério, a velhice, está relacionado à herança do pai, embora de maneira própria.

"Quando se tem um pai como o meu, e com o que herdei dele, percebi que quero fazer filmes sobre temas importantes, mas não do jeito que ele faz. Acho que usar o humor e a leveza foi o que encontrei como um jeito meu de falar sobre esses assuntos. Às vezes fazer alguém rir pode ser mais importante do que dar uma aula."

O roteiro de "Late Bloomers" também tem muito da experiência pessoal da cineasta. "A estrutura da família no filme é como a minha. Temos esse pai, que é uma pessoa importante, colocada num pedestal, a mãe que cuida de tudo e os filhos que tentam lidar como podem com seus pais", disse. "Não é só sobre idade, mas também sobre estar em um casal por um tempo longo, ter que lidar com diferentes etapas, morar junto, ter filhos. Acho que cada casal tem seus passos. Esse, a idade, é só mais um."

Divulgação
Isabella Rossellini e William Hurt no filme
Ditadura da juventude

A ideia surgiu logo depois da gravidez de Julie, na sequência de "A Culpa É do Fidel". Ela cuidava do bebê e assistia a comédias românticas, gênero que adora. "Mas são sempre as mesmas histórias, com a mesma faixa etária de personagens, entre 25 e 30 anos. Pensei: e se eles tivessem 60?", comentou. "Na França, ser jovem é tão positivo, o que é absurdo, porque todo mundo já foi jovem. Ter experiência e saber como usá-la é muito mais interessante."

Produzido na França, "Late Bloomers" curiosamente é falado em inglês e filmado em Londres. A explicação? Falta de atrizes francesas dispostas a assumir a idade. A maioria das candidatas procuradas sequer cogitou participar, depois de ler a história.

"É uma questão complicada na França", lamentou Gavras. "Tinha dois problemas: achar uma atriz que assumisse ter 60 anos e que não tivesse feito cirurgias plásticas. Isabella não tem problema com a idade e também não fez nada na pele. Antes de encontrá-la, assisti aos episódios de 'Green Porno' [série de curtas que narra a vida sexual de animais] e fiquei maravilhada, percebi que ela era a pessoa certa para o filme: tão à vontade com seu corpo e que ri de si mesma. Daí traduzimos o roteiro para o inglês."

nullSegundo a diretora, a idade é praticamente um tabu na França, mas em Hollywood a situação não é nem um pouco diferente – a indústria do cinema joga pesado com as atrizes. "Isabella diz que quando se tem 30, talvez 35 anos, você interpreta a heroína numa história de amor. Depois, entre 40 e 60, é trabalho duro encontrar algum papel. E então, quando passa dos 60, você é a avó (risos)."

O próximo projeto de Julie Gavras no cinema deve refletir a rivalidade entre franceses e ingleses, mais ou menos como Brasil e Argentina. A diretora sentiu isso na pele durante as filmagens de "Late Bloomers" na Inglaterra. "É incrível como ingleses e franceses se odeiam até hoje. Os franceses, inclusive, não odeiam os alemães tanto quanto odeiam os ingleses. Foi tão interessante trabalhar seis meses em Londres que queria usar isso."

Mostra de São Paulo 2011- "Late Bloomers"
Cine Sabesp, 26/10 (quarta), 18h
MIS, 02/11 (quarta), 20h
Unibanco Arteplex 3, 03/11 (quinta), 16h20
Estreia no Brasil: 11 de novembro de 2011

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