"Fazer algo belo é quase um ato político", afirma Arnaldo Jabor

Diretor volta nostálgico ao cinema com ¿A Suprema Felicidade¿; leia entrevista

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

AE
Arnaldo Jabor durante a entrevista em São Paulo: "Viramos videogame de Hollywood"
Depois de dirigir oito longas-metragens, Arnaldo Jabor se desencantou pelo cinema no final da década de 1980 e adentrou o jornalismo para se tornar uma das figuras mais polêmicas do país. O retorno acontece quase 20 anos depois, em "A Suprema Felicidade", exibido na Mostra de São Paulo e com estreia nacional marcada para sexta-feira (29). Produção autobiográfica de R$ 12,5 milhões, é pura nostalgia do Rio de Janeiro da década de 1950. O jornalismo "ampliou seus horizontes", mas Jabor, 69 anos, revela que cansou, agora, foi dos comentários que faz em jornais e na TV. "Fazer algo belo num país tão cheio de coisas ruins é quase um ato político."

O iG conversou com diretor e equipe durante uma coletiva de imprensa e, depois, num hotel da capital paulista. Entre os atores, é unânime a ideia de que o projeto era tão pessoal que as histórias do cineasta foram fundamentais para compor os personagens – seu alterego, Paulo, a família e amigos, todos ficcionais, mas com um pé na realidade. "As lembranças do Jabor estavam sempre entre a gente e ele. Na verdade, ele queria que as cenas ficassem melhor que a memória", explica Dan Stulbach, que interpreta o pai de Paulo.

"A cada minuto vinha uma lembrança na cabeça dele", confirma Jayme Matarazzo, o protagonista na fase adulta, "tanto que 90% das cenas eram alteradas na hora da filmagem". A realidade influenciou até a seleção dos atores: Mariana Lima, Jabor confessa, é muito parecida com sua mãe de verdade.

Em "A Suprema Felicidade", a história de Paulinho é contada em três fases, com três atores, da infância ao fim da adolescência. As brigas dos pais, o amor dos avós, a vida no colégio católico, os bares, os puteiros, estão lá. A estreia ambiciosa para os padrões nacionais – 170 cópias – tenta, segundo o diretor, despertar certa polêmica, já que o público estaria acostumado hoje em dia a assistir apenas filmes de ação. "Viramos videogame de Hollywood", afirma. "Não aguento mais filme de robô. Esse é um filme sobre humanos, para humanos."

Não que Jabor seja contra a tecnologia – "a revolução digital é mais importante do que a Renascença", sustenta –, mas o roteiro, que foi "crescendo como uma planta" em casa, depois de ele escrever artigos sobre sua família e adolescência, visava aspectos básicos da vida. "O filme não é propriamente uma celebração do passado. Tento falar de coisas que vivi, mas que continuam existindo: amor, ciúme, educação sentimental, sexual", diz. "Mal me comparando a Proust, das insignificâncias pode sair uma epopeia. A vida cotidiana é épica, mesmo achando que ela não é."

Sobre o Rio de Janeiro dos sonhos que leva para as telas, Jabor reconhece que a cidade mudou muito, está "desfigurada". Mesmo assim, afirma que o espírito essencial para o filme continua existindo. "O Rio mantém uma fome de vida, um respiro, que também sinto em Salvador. Há uma busca da felicidade no Rio, e as pessoas tentam ostentar essa felicidade."

Leia abaixo os principais momentos da conversa que o iG teve com o diretor.

iG: Você já falou bastante sobre isso, e até parece que há uma obrigação de se explicar, mas foram quase 20 anos sem filmar. Muita gente imaginava que você nunca faria cinema de novo. Por que voltar agora, e com essa história?
Arnaldo Jabor: Voltei a filmar porque fiquei com vontade. Adorei ser jornalista, descobri uma profissão muito importante no mundo contemporâneo, que é a voz da sociedade. O mundo contemporâneo tende por um certo autoritarismo, um certo desencanto com a democracia, não só na América Latina, com aquele moleque do Chávez e outros moleques que têm por aí, mas na Europa também. Acho o jornalismo fundamental para preservar a democracia. Mas voltei a fazer cinema porque... É difícil saber por que a gente faz as coisas. Fui fazer cinema na minha vida porque um dia estava conversando com o Cacá Diegues, sobre fazer teatro e tal, e ele sugeriu cinema. Achei uma boa ideia e fiz. A vida da gente pode ser mudada assim, é tudo muito casual. Mas se eu fosse procurar uma razão: fiquei de saco cheio de falar só de política, das críticas ao Brasil – Sarney, Renan, Romero Jucá, Lula, Dilma. Isso começa a encher o saco, porque é tão ficcional, que dá vontade de fazer a verdadeira ficção, que é real. A política virou uma ficção no Brasil, é virtual. Nesse governo do Lula que está terminando agora, por exemplo, 70% das coisas feitas foram todas comunicadas virtualmente. Muitas não existiram no mundo real, só no mundo da comunicação.

iG: Não bastasse voltar depois de tanto tempo, você voltou em um projeto mastodôntico, milionário.
Arnaldo Jabor: O primeiro filme que fiz foi muito caro, o "Pindorama" (1970), que não era bom. Fiz com uma lei de incentivo da época, parecida com a que tem hoje. Era um filme complexíssimo, grande. Eu não sabia filmar ainda, tinha 26 anos, e de repente estava filmando com 500 índios, num quilombo com não sei quantos negros. Quebrei a cara, obviamente. Não eu que quisesse fazer um filme grande [em "A Suprema Felicidade"], mas como é de época, fica muito caro – tem que reconstruir, vestir diferente. Não queria fazer um filme caro. Na verdade, não pensei nisso, não pensei em dinheiro. Ao contrário: não ganhei um tostão, talvez nem ganhe, e ainda tive que botar um dinheirinho que tinha guardado pra fechar as contas. A gente estourou o orçamento no final, foi uma desgraça. Eu e meu sócio, o [Francisco] Ramalho, sabemos o que sofremos.

AE
Não ganhei um tostão com o filme, talvez nem ganhe
iG: Além do impacto tecnológico, o que você descobriu ao retornar para os sets agora?
Arnaldo Jabor: Senti, por exemplo, que existem multidões de novos atores surgindo, dos quais você nunca ouviu falar. É impressionante o que tem de grupo teatral, periférico. E não foi só a coisa tecnológica que me impressionou, mas a facilidade, simplicidade, rapidez com que o filme é feito e o prazer que dá. Fazer cinema não é mais o sofrimento que já foi. As condições melhoraram, desde que você tenha dinheiro para fazer. Se não, você sofre.

iG: Por ser um filme de memórias, uma comparação constante é com Fellini – o adjetivo felliniano já faz parte do filme. O que você acha disso? Incomoda?
Arnaldo Jabor: Não, de forma alguma, tanto que quase dediquei o filme a Fellini. Não que seja um filme felliniano, é preciso saber em que sentido se fala isso. É um filme "felliniano", entre aspas, porque a estrutura narrativa não é como os americanos costumam chamar de "plot driven", não é movida apenas pelo enredo da ação – o mocinho pega o carro, persegue o bandido e no final beija a mocinha. Não. São quadros soltos, cenas que têm que ter vida própria. Acredito num cinema em que a cena não serve apenas para levar para a outra cena. A cena tem que ter valor em si. Isso eu tentei buscar. Vão se somando e dando um sentido geral ao filme. Não existe um sentido só. As coisas têm vários sentidos, como tudo na vida.

iG: Pensando nessa ideia de cenas indepententes, o filme tem uma duração longa. Ficou muita coisa de fora?
Arnaldo Jabor: O filme não é longo, tem 1h57. Longo é mais de duas horas e meia, três horas. Tirei pouca coisa, duas ou três cenas maiores. Desse filme que vocês viram, se eu pudesse remontar, tiraria uns quatro ou cinco minutos, não mais do que isso. Mas também, porra, não custa aguentar mais cinco minutos, tanto filme de três horas por aí [risos]. E isso é só no início, depois ele dispara.

iG: O papel principal e dos parentes foi inspirado por histórias reais, da sua família. Qual foi a inspiração para Marilyn, a dançarina virgem do cabaré?
Arnaldo Jabor: Um amigo meu foi num cabaré no Rio de Janeiro e me falou de uma velha, que ele conhecia dos tempos de garoto, que tinha virado cafetina e gerenciava uma menina deslumbrante, que imitava Marilyn Monroe, de quem estava vendendo a virgindade. Fui lá ver com ele, há uns cinco anos, o filme nem existia ainda. Ela não só não imitava a Marilyn – estava mais para Britney Spears – como não era virgem porra nenhuma, era só papo da mulher. Mas isso me deu a ideia de fazer essa personagem, que acho genial. As coisas nascem, assim, do nada.

iG: O filme vai ter uma estreia ambiciosa, 170 cópias. Qual é a sua expectativa?
Arnaldo Jabor: Não sei. A expectativa é que dê dinheiro, pô [risos], que exploda as bilheterias. Porque o negócio é o seguinte: se você vai assistir "Tropa de Elite" ou "Se Eu fosse Você", você sabe o que você vai ver. Nesse, o espectador não sabe. "A Suprema Felicidade? Que porra é essa?" Essa é a minha curiosidade: será que eles vão, sem saber exatamente o que é o filme?

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG