Eduardo Coutinho mostra comédia trágica da TV brasileira

"Surpresa", filme na Mostra de São Paulo repassa um dia na programação aberta

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Mario Miranda/Agência Foto
Eduardo Coutinho antes da sessão: um "troço"
Figura mais importante do documentário brasileiro, Eduardo Coutinho, 77 anos, tem primado por se desafiar a cada novo filme. Explorou as barreiras do real e da ficção em seus dois últimos longas, "Jogo de Cena" e "Moscou", e, ontem à noite, na Mostra de São Paulo, desvelou o mistério que envolvia "Um Dia na Vida", incluído na programação como uma "surpresa". Sem sinopse, fotos ou entrevistas, o diretor prometia que esta seria sua primeira e última exibição. Logo entende-se por que: "Um Dia na Vida" é a montagem, ao longo de uma hora e meia, de programas e comerciais da TV aberta do Rio de Janeiro.

As 19 horas de material bruto foram gravadas em 1º de outubro de 2009, uma quinta-feira, véspera do anúncio do Rio como sede das Olímpiadas de 2016. O dia, explicou Coutinho após a sessão, foi escolhido por tradicionalmente não ter esportes, atrações específicas (como acontece nos finais de semana) nem um acontecimento catastrófico a dominar os canais. O cineasta disse que esse, compreensivelmente, é seu trabalho menos pessoal e teve receio em se referir a ele como filme – a denominação mais frequente foi "troço".

A única exibição está relacionada a direitos autorais. Sem autorização das emissoras ou dos produtos das propagandas, a solução jurídica foi projetar o filme apenas uma vez e criar suspense para que as pessoas fossem em massa ao Cine Livraria Cultura, que teve seus mais de 300 lugares tomados. Deu certo: além do público em geral, a imprensa compareceu em peso, assim como pensadores e realizadores do cinema nacional, como Jorge Furtado, Eduardo Escorel – que participaram de debate ao final –, Jean-Claude Bernadet, João Moreira Salles e Ismail Xavier, entre outros.

Coutinho explicou que a ideia surgiu de um interesse em fazer "pilhagem", de que tudo hoje é produzido a partir de referências e que, portanto, as acusações de plágio ou a enaltação de originalidade não fazem sentido. Nesse caso, quis realizar algo apenas com citações, de jornais e televisão, por exemplo. Daí a frase que justifica o subtítulo: "material gravado como pesquisa para um filme futuro".

O resultado surpreendeu o diretor, que não quis deixar isso solto numa gaveta. Editou as gravações em formato de longa-metragem e, apesar das restrições, fez questão de exibi-lo no cinema. "Não interessava para nós colocar no YouTube. Numa sala escura, com essa projeção e som, tem um significado. Permite um tipo diferente de aproximação."

Absolutamente certo. Furtado comentou que "a televisão não é feita para ser lembrada", e, de fato, ver, em tela grande, com toda a atenção, o tipo de conteúdo despejado para o público diariamente é chocante. O filme começa às 6h50 da manhã, com um telecurso de inglês. Passa para um desenho de Tom & Jerry, uma boneca que vai ao banheiro e chega a Ana Maria Braga, de preto, tocando "You Give Love a Bad Name" (música do Bon Jovi) no Guitar Hero.

Uma especialista fala dos tipos sanguíneos ("esse é dos famosos, aquele foi de Jesus Cristo"), Dr. Hollywood exibe seus apetrechos cirúrgicos e linha de lingerie para não deixar bumbum e seio caírem, uma mulher mostra suas gorduras para vender uma cinta. À tarde, Wagner Montes defende a morte de um assaltante e, após o vídeo de um homem espancando a namorada, ensina os telesespectadores a acalmar uma mulher – "é só segurar o braço, mermão".

Mario Miranda/Agência Foto
Eduardo Coutinho no debate em São Paulo
A lista é grande. Sonia Abrão, Márcia Goldschmidt bancando o extreme makeover da "mulher mais feia do mundo" (e transformando-a numa sósia), Chaves, Datena, TV Fama ("Silvio Santos dorme com uma cadela", conta Nelson Rubens), novelas, novelas mexicanas, Jornal Nacional, dançarinas do Pânico de biquini no mangue, Amaury Jr, leilão de joias à uma da manhã e pastores, muitos pastores, de profetas a comediantes, com o número da conta bancária no pé da tela.

A descrição pode não fazer jus ao terror que é confirmar o que todo mundo já sabe: a televisão brasileira é um retrato terrível do país. No desespero de chamar a atenção do público que passa na frente da tela ou pula de canal em canal, as emissoras fazem qualquer coisa, sem se importar com qualidade ou conteúdo. De quem compra espaço na programação, então, só resta rir – as gargalhadas saem fáceis, o prazer trash estimulado ao máximo. No final, a culpa: fica o gosto amargo de que a realidade é triste, trágica. Coutinho passou por isso, e quis compartilhar, debater. Simples, muito simples, e por isso mesmo, genial.

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