Documentário mergulha no "Livro Iraniano de Receitas"

Intimista, filme registra na cozinha uma sociedade em transformação no país

Guta Chaves, colunista do iG Comida |

Divulgação
"Livro Iraniano de Receitas" flagra microcosmo das mulheres do Irã
O novo cinema iraniano faz sucesso entre os cinéfilos desde os anos 1990, graças a contestadores e bons diretores que, desde então, tratam de expressar os sopros de abertura daquele país. Intimista, o documentário “Livro Iraniano de Receitas”, dirigido por Mohammad Shirvani, segue a fórmula. Com título aparentemente despretensioso, o filme registra alguns costumes do Irã vistos sob a perspectiva de sete cozinheiras. O foco central é a condição dessas mulheres no cotidiano do forno e fogão.

No microcosmo da cozinha, se evidencia uma sociedade em transformação, em que preciosos hábitos culinários herdados da antiga Pérsia – um dos berços da humanidade – tentam sobreviver em meio à desordem da vida contemporânea e globalizada. Mesmo envolvidas no cenário da tradição islâmica, as mulheres mais jovens padecem por não querer mais passar tanto tempo à beira do fogo. Almejam mais do que mexer panelas, servir pessoas e limpar mesas.

Em contrapartida, as senhoras mais velhas assumem com resignação o legado culinário. Sentem-se mantenedoras da cultura de seu povo e se esmeram por uma vida inteira na cozinha, preparando receitas tão boas – ou até melhores – que as das mães de seus maridos.

Câmera na mão, Shirvani registra a rotina de figuras femininas de sua própria família: a mãe, a irmã, a esposa, além da mãe quase centenária de um amigo. Na tela, elas apresentam iguarias típicas iranianas e confessam detalhes e segredos de suas preparações. Enquanto misturam os ingredientes, é como se dessem também as receitas de suas vidas.

A mãe do diretor, em especial, é convicta de sua condição quase missionária. Explica com entusiasmo as receitas que prepara há 35 anos para o marido e os filhos. E os pratos custam horas para ficar prontos, a exemplo dos tradicionais dolmeh, espécie de charutinhos enrolados em folhas de uva, que aparecem fumegantes no vídeo. Depois da espera, a mãe se satisfaz com os elogios do marido e a família reunida.

Esse convívio em torno da mesa se mostra também em outras cenas familiares. Muitos comem em banquetes postos ao chão, finamente decorados e com pratos visualmente bem cuidados. Orar em agradecimento pelo alimento farto também é parte do ritual.

Ao longo do filme, o demorado tempo de preparo dessa rica culinária é marcado por um ansioso tic-tac de relógio. Um compasso surdo e aflito que expõe (e contrapõe) o novo e o antigo, o desejo incipiente e as raízes da tradição – tão caras à preservação de uma cultura. Uma contradição que parece difícil de ser digerida.

Serviço – “Livro Iraniano de Receitas” na Mostra de São Paulo
Direção de Mohammad Shirvani (Irã), 72 minutos
Centro Cultural São Paulo, 28/10 (quinta), 18h00, sessão 671
Cinemateca - Sala BNDES, 29/10 (sexta), 18h00, sessão 743
Cine Livraria Cultura 1, 02/11 (terça), 14h00, sessão 1149

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