Cineasta Atom Egoyan comenta "testamento" de Leon Cakoff

Diretor canadense dirigiu curta escrito e estrelado pelo fundador da Mostra de São Paulo

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

A primeira viagem de Atom Egoyan ao Brasil não foi exatamente como o diretor canadense havia imaginado. Um dos convidados para integrar o longa-metragem "Mundo Invisível", produzido pela Mostra Internacional de São Paulo e pela Gullane, Egoyan filmou o curta "Yerevan - O Visível" na capital da Armênia, onde nasceram os pais do cineasta, assim como a mãe de Leon Cakoff, fundador do festival, morto há duas semanas . Cakoff também escreveu e protagoniza o filme. Pudera Egoyan, portanto, estar arrasado.

"Tenho sentimentos conflitantes", disse ao iG o diretor, indicado ao Oscar por "O Doce Amanhã" (2002). "Estou empolgado por estar aqui pela primeira vez, mas também muito triste pela situação." "Yerevan" recupera a história da família de Cakoff, acuada pelo genocídio na Armênia. O avô do jornalista havia imigrado para Nova York na década de 1920 e, ao saber dos conflitos em seu país-natal, embarcou de volta para resgatar a mãe e a filha, que futuramente geraria Leon. Mas ele nunca chegou a seu destino.

Egoyan e Cakoff se encontraram muitas vezes ao longo dos anos e a oportunidade para a filmagem do curta surgiu durante um festival de cinema na Armênia, no ano passado. Cakoff integrava o júri da competição, papel que Egoyan assume nesta edição da Mostra .

"Ele estava muito seguro de como queria se vestir. Parece que sabia que quando exibíssemos o filme não estaria mais neste mundo, porque com aquela roupa e aqueles óculos ele aparenta estar num lugar diferente. Não imaginava que o que estávamos fazendo ia ser seu testamento", disse, espantado.

Criador da arte da Mostra em 2003, Egoyan ganhou fama a partir de Cannes com "Exótica" (1994), suspense com forte conteúdo sexual, que logo se tornou sua marca registrada. Depois vieram outros trabalhos celebrados, como "O Doce Amanhã", "O Fio da Inocência" e "Ararat", que relembra o genocídio armênio.

Seu último longa-metragem é o "O Preço da Traição", estrelado por Liam Neeson, Julianne Moore e Amanda Seyfried. Se trata, na verdade, da refilmagem de "Nathalie" (2003), da francesa Anne Fontaine, e uma das raras colaborações de Egoyan com Hollywood.

"Minha relação [com Hollywood] é complexa", contou o diretor. "Tenho um agente desde 'Exotica', mas tento não perder muito tempo lá, o que é comum. As pessoas falam de projetos incríveis, temos reuniões maravilhosas, mas as coisas não são rápidas o suficiente para mim. Além disso, estou acostumado a ter o controle sobre tudo, é estranho estar numa situação diferente."

Aline Arruda/ Agência Foto
Atom Egoyan na Mostra de São Paulo
A engrenagem da indústria norte-americana prevê exibições-teste para fazer ajustes e, quem sabe, agradar ao público, e os produtores têm certa liberdade nos momentos decisivos, dependendo do contrato. "Há influências de todo lado. Funcionou neste filme, estou satisfeito com ele, mas poderia ter sido um desastre."

Egoyan não raro era abordado com roteiros norte-americanos, só que a maioria nem saiu do papel. "Não há muitos projetos de qualidade. Na maioria das vezes, os roteiros que recebo são thrillers sensuais muito ruins, coisas que honestamente não estou interessado em fazer."

A dúvida na hora de topar ou não também conta muito. "Você até pode ficar empolgado ao ler o roteiro, mas a pergunta certa é se você é a melhor pessoa para fazê-lo. Um dos primeiros projetos que li foi 'Seven - Os Sete Crimes Capitais'. Gostei muito, mas esperei e finalmente disse não. David Fincher fez um trabalho muito melhor do que eu poderia ter feito, até desenvolveu um final diferente do que estava no roteiro original. Passei a admirá-lo muito."

O diretor admitiu que a liberdade que tem no Canadá contribuiu muito para sua carreira. Auxiliados pelo governo, os realizadores conseguem se moldar como autores, sem se preocupar demais com o retorno de bilheteria. "Não teria a carreira que tenho em nenhum outro lugar. Vejo meus colegas norte-americanos e é difícil para eles continuar fazendo filmes. Se seus trabalhos não fazem sucesso comercial, você na verdade não existe."

Ao mesmo tempo, é justamente a opção pelo cinema autoral que afasta os espectadores do Canadá, mesmo nas produções pop. "Temos grandes diretores, grandes filmes, mas é difícil fazer com que o público canadense os assista. Há uma influência muito forte de Hollywood. Aqui, é uma língua diferente - lá, é a mesma."

O próximo filme de Egoyan, com financiamento ainda pendente, é "Devil's Knot" (nó do diabo, em tradução livre). Famoso nos Estados Unidos, o caso que deu origem ao roteiro ficou conhecido como "Os três de West Memphis", de 1993, quando três jovens do Arkansas foram condenados pelo assassinato de três crianças. Acusados de satanismo, os adolescentes só ouviam Metallica e outras bandas de rock pesado.

"É um dos exemplos mais extremos da caça às bruxas contemporânea. Uma comunidade precisava encontrar a quem culpar por um crime que levou emboras suas crianças, e na verdade condenaram três outras crianças. Foram soltos há poucos meses."

A condenação na década de 1990, que levantou sérias acusações de precipitação, motivou o apoio de celebridades, shows para arrecadar fundos à causa e até um documentário, "Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills" (96). "É um drama psicológico, que tem muito a ver com meu universo. Muito sombrio, e por isso mesmo difícil de fazê-lo. Os dramas fortes são o tipo de filme mais difícil de fazer atualmente."

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