"Caverna dos Sonhos Esquecidos" recupera pré-história em 3D

Werner Herzog transforma documentário sobre desenhos rupestres em obra de arte

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Se a tecnologia 3D começa a dar sinais de cansaço – bilheterias menores, espectadores desinteressados –, Werner Herzog está aí dar novo ânimo ao formato. Assim como Wim Wenders , o irriquieto cineasta alemão usou as três dimensões num documentário, e ainda por cima para falar de pinturas rupestres. Um filme educativo vitaminado? Muito mais do que isso, "Caverna dos Sonhos Esquecidos" consegue aliar imagens incríveis a reflexões sobre a história da arte e do homem. Em outras palavras, cinema de primeira grandeza.

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A equipe de Werner Herzog (à direita) ao lado dos desenhos na caverna
O alvo é, nada mais, nada menos, do que um dos maiores patrimônios da história da humanidade. Ao pé de vinhedos e de um rio no sul da França, ladeada por um grandioso arco natural formado na rocha, a caverna Chauvet-Pont-d’Arc guarda os desenhos mais antigos já feitos pelo homem, há 32 mil anos. Os traços só foram conservados porque a entrada da caverna foi fechada por um desmoronamento e ficou milênios selada, sem ligação com o mundo exterior.

Descoberta por exploradores na década de 1990, logo o governo francês percebeu a importância científica e impôs uma série de regras rígidas – a ação de visitantes poderia facilmente deteriorar as pinturas. Uma porta de metal bloqueia a entrada, só se pode andar sobre uma plataforma com 60 centímetros de largura e é proibido tocar em qualquer coisa. Pouquíssimos pesquisadores são autorizados a conhecê-la, e ainda assim por poucas horas, já que a respiração humana favorece a criação de mofo.

Foi nesse ambiente adverso que a diminuta equipe de Herzog, composta por ele e mais três pessoas, capturou as imagens. Mesmo com todas as restrições, a riqueza do material é impressionante. Espantosa por si só, a caverna é recoberta por estalactites, ossos fossilizados e minerais de formatos diversos, belíssimos. O ponto alto, porém, são os desenhos, os primeiros registros que se tem da arte humana.

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Mamutes, ursos, bisões, cavalos, panteras e outros animais da farta fauna pré-histórica estão espalhados pelas paredes irregulares, repletas de reentrâncias e falhas. O 3D foi essencial para mostrar tudo com fidelidade: os desenhos são absolutamente palpáveis.

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Região da caverna Chauvet-Pont-d’Arc, na França
À frente, como entrevistador, e atrás das câmeras, Herzog narra o filme com admiração e paixão. Mais do que instrutiva, a prosa é poética e livre para evidenciar as ideias do cineasta. Como a teoria, por exemplo, de que, na luz bruxuleante das tochas, os desenhos ganhavam a impressão de movimento. Um cinema primitivo, portanto, que ele tenta reproduzir em determinadas passagens.

"Caverna dos Sonhos Esquecidos" está impregnado dessa visão romântica do passado. O título, aliás, é uma referência ao conteúdo dos desenhos, representações do que povoava o imaginário daqueles incríveis homens das cavernas com inspiração artística. Segundo Herzog, em Chauvet-Pont-d’Arc tempo e espaço perdem sentido. Reduzido ao essencial, sobra o sentimento, justamente o que inspira o cinema de Herzog. Muito mais do que simples documentário produzido pelo History Channel.

Como chegou atrasado para integrar a programação da Mostra Internacional de São Paulo 2011 , "Caverna dos Sonhos Esquecidos" só terá duas sessões na programação oficial, na noite desta terça-feira (1). Vale a briga por um ingresso.

Mostra de São Paulo 2011 - "Caverna dos Sonhos Esquecidos"
Unibanco Arteplex 2, 01/11 (terça), 23h00
Unibanco Arteplex 1, 01/11 (terça), 23h59

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