Arnaldo Jabor filma crônicas de um Rio de Janeiro fantasioso

"A Suprema Felicidade" surpreende pela produção e se perde no acerto de contas do diretor com o passado

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Jayme Matarazzo, o protagonista de "A Suprema Felicidade" na fase adulta
Arnaldo Jabor é de novo um cineasta. Quase 20 anos depois, o polêmico comentarista retomou agora o posto que uma geração inteira provavelmente nem sabe ter sido seu território por décadas. A desilusão com o cinema foi substituída por outra, a política, e Jabor mergulhou no passado, olhou para o umbigo e saiu de lá com "A Suprema Felicidade", uma sucessão luxuosa de crônicas de sua infância e juventude no Rio de Janeiro. O filme teve pré-estreia na Mostra de São Paulo e, ajudando a manter o bom momento do cinema brasileiro, entra em cartaz nesta sexta-feira (29) com 170 cópias no país.

Um verso de Carlos Drummond de Andrade serve de introdução – "as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão" – e trata de deixar as coisas claras para o espectador: sim, este é um filme, acima de tudo, nostálgico. Paulinho é o alterego de Jabor, em três fases: 8 anos (Caio Manhente), 13 (Michel Joelsas, de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias") e 19 (Jayme Matarazzo, da novela "Escrito nas Estrelas", filho de Jayme Monjardim). Desde 1945, nas comemorações do fim da Segunda Guerra Mundial, o tempo vai e volta na década de 1950 para apresentar seus pais (Dan Stulbach e Mariana Lima), avós (Marco Nanini e Elke Maravilha) e amigos.

A mãe, Sofia, quer trabalhar, enquanto seu marido, piloto da FAB, ciumento, não quer ver a mulher fora de casa. O falador pipoqueiro Bené (João Miguel) reúne a turma do bairro com seus causos e conquistas amorosas. O avô, Noel, é um alegre trombonista da Lapa, professor da filosofia da vida para o neto. Cabeção (César Cardadeiro), o amigo inseparável de confusões e noitadas em boates, bares e bordéis. A confusa Deise (Maria Flor) é o primeiro amor, mas a dançarina Marilyn (Tammy Di Calafiori, excelente), cover da diva hollywoodiana, mudará tudo.

Trata-se de um clássico rito de passagem, portanto. O jovem Paulo sai do colégio católico para se tornar adulto, encontrar o sexo e ver que a vida não era a maravilha que seu deslumbrado olhar de criança imaginava. "A gente tem que descobrir quem a gente é", ele reflete com o amigo. Bom com as palavras, como todo mundo sabe, Jabor sabe escrever crônicas, e é basicamente nisso que ele transforma as memórias do protagonista.

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Marco Nanini se destaca no papel do avô
O cinema de Federido Fellini é uma influência explícita – até a névoa de "Amarcord" chega a aparecer em determinado momento. Jabor não é o mestre italiano e trouxe à tona um Rio de Janeiro mítico, fantasioso, quase folclórico. A tal cidade maravilhosa, que transpira samba, cores, beleza e alegria, explode na tela com força total e produção impecável: o orçamento de R$ 12,5 milhões aparece todo nos figurinos e cenografia de época, com qualidade poucas vezes vista por aqui. Tem até um flerte com o gênero musical, coreografia e tudo.

Esse deslumbramento não prejudica tanto a história – é a ambição do projeto. Jabor quis abarcar todo seu imaginário da juventude de uma vez só, e dá-lhe rolo de filme. A trajetória de Paulinho até gera empatia, mas as boas intenções se esvaem ao longo das duas horas de projeção. Há a nítida impressão de que sequências inteiras poderiam ter ficado na mesa de edição, em especial as cenas de Maria Flor, perdida na papel de uma sensitiva. O acerto de contas do diretor com o passado parece ter falado mais alto.

Sem contar as participações especiais (Ary Foutoura, Jorge Loredo, Emiliano Queiroz), os destaques são Nanini – que faz o avô, mesmo com os lugares comuns ("a vida gosta de quem gosta dela", "é preciso amar sem redes"), brilhar cada vez que aparece –, a sensual Marilyn, surpreendente, e o casal de pais. Não é de hoje que Jabor filma relacionamentos, vide "Eu Te Amo" (1980) e "Eu Sei que Vou Te Amar" (1984). Para isso, seu talento continua intacto: a montanha-russa que é o casamento de Stulbach e Mariana Lima comove com a genuidade. A dúvida é se o público vai se interessar por esse drama pessoal, ainda mais de época.

Assista ao trailer de "A Suprema Felicidade":

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