Um ano após resgate no Chile, mineiros lutam contra desemprego

Homens que ficaram presos na mina San José tentam ganhar dinheiro ministrando palestras, vendendo frutas e voltando à mineração

iG São Paulo |

A comoção causada pelo drama dos 33 homens presos em uma mina no Chile em 2010 provocou previsões de um futuro de riqueza e fama para os mineiros que passaram 70 dias presos a quase 700 metros de profundidade. Um ano após o resgate, a maior parte dos “33 do Atacama” vive com dificuldade e tenta ganhar dinheiro ministrando palestras, vendendo frutas e verduras e voltando à mineração.

"Em um ano viajamos a várias partes do mundo, mas na parte econômica não tem sido muito bom. Estamos trabalhando no dia-a-dia, alguns companheiros estão dando palestras, estão tentando se inserir no mercado de trabalho", disse à BBC Luis Urzúa , o último dos mineiros a ser trazido para a superfície em 13 de outubro de 2010.

Veja no infográfico quem são e como estão os mineiros resgatados há um ano:

Desde então, os mineiros receberam convites para conhecer partes do mundo tão diferentes quanto a Disney World , nos Estados Unidos, o estádio do time de futebol Manchester United, na Inglaterra, e a Terra santa, em Israel, onde foram batizados no rio Jordão.

Cada um dos 33 homens recebeu um cheque de 5 milhões de pesos (cerca de R$ 16,8 mil ) e uma moto do empresário chileno Leonardo Farkas – e muitos usaram essa doação para sustentar suas famílias no último ano.

Com o dinheiro acabando, hoje muitos mineiros tentam ganhar a vida com palestras motivacionais. É o caso de Juan Illanes, Claudio Yañez, Jorge Galeguillos, Omar Reygadas e Mario Sepúlveda , o mais requisitado entre os 33 homens, cujo carisma e animação lhe deram destaque desde o primeiro vídeo gravado dentro da mina. Atualmente Sepúlveda tem uma equipe para promover suas palestras enquanto cuida de um projeto pessoal: um centro na periferia de Santiago para criar cavalos, realizar corridas e tratar os animais.

Veja o especial do iG sobre o resgate dos mineiros no Chile

Osmán Araya e Darío Segovia vendem verduras nas feiras livres de Copiapó, enquanto mineiros como Alex Vega e Carlos Mamani estão desempregados.

Com dificuldade para encontrar novos empregos, muitos optaram por voltar à mineração, como Pablo Rojas. “É o que faço desde os 16 anos. Não sei fazer outra coisa”, disse, em entrevista à BBC.

Dos 33 mineiros envolvidos no episódio, 31 se reuniram para entrar com uma ação contra o Estado chileno alegando negligência por parte dos órgãos de fiscalização da segurança trabalhista. A ação pede um total de US$ 16 milhões em indenizações por conta dos prejuízos sofridos.

Para o presidente chileno, Sebástian Piñera, o ano também foi difícil. Se na época do resgate sua popularidade estava em alta, hoje atinge baixas recordes em meio a protestos estudantis que duram cinco meses.

Apesar das críticas de que não deu a atenção devida aos mineiros no pós-resgate, o governo chileno paga uma pensão de cerca de R$ 880 para 14 dos 33 homens, os mais velhos e os com problemas psicológicos graves. O valor equivale a menos da metade do que a maior parte ganhava na mina San José.

Alguns dos mineiros se incomodam com a percepção geral de que lucraram com o acidente. "Está sendo difícil para mim, não é como muitos chilenos pensam", disse Edison Peña , à BBC. "Tem gente que fala conosco como se fôssemos jogadores de futebol, e não é assim. Não recebemos nada. Vamos levando, se virando. Tem coisas que precisamos aceitar, porque precisamos sobreviver."

Peña, que ficou famoso por correr 10km por dia no interior da mina e pelo fanatismo pelo canto Elvis Presley, teve a oportunidade de participar da Maratona de Nova York e de conhecer a casa onde o cantor morou nos EUA. Porém, em 12 de setembro deu entrada em uma clínica de reabilitação por dependência de drogas e álcool.

Muitos mineiros afirmam se sentir mal e ter pesadelos com o acidente. “Tento ler ou me cansar bastante para que possa dormir direito”, afirmou Omar Reygadas à AP. “Mas se estou sozinho em um espaço fechado, fico ansioso. Tenho que sair e encontrar algo para me distrair ou alguém para conversar.”

Drama com final feliz

Os mineiros ficaram presos em 5 de agosto , após um desabamento de terra na mina San José, localizada em Copiapó, norte do país. Foram 17 dias sem nenhum contato com o exterior, até que, em 22 de agosto, autoridades encontraram uma mensagem em uma sonda que dizia: “ Estamos bem no refúgio, os 33 ”.

Foi o início de uma impressionante operação que levou dois meses. A quase 700 km de profundidade, os mineiros receberam comida , medicação, acompanhamento psicológico e até “ media training ”, enquanto equipes trabalhavam em três frentes para perfurar túneis que chegassem até os mineiros.

Do lado de fora da mina, familiares dos mineiros montaram barracas para acompanhar cada fase do resgate. No acampamento Esperança , como o local ficou conhecido, eles convivam com centenas de jornalistas de meios de comunicação de todo o mundo – entre eles o iG .

Veja também: Infográfico mostra como foi o resgate dos mineiros no Chile

O trabalho de resgate durou cerca de 24 horas e começou às 23h08 do dia 12 de outubro, no momento em que o paramédico Manuel González entrou na cápsula Fênix – desenvolvida para içar os mineiros.

Foram 16 minutos até que González chegasse ao refúgio e cumprimentasse os 33 homens, uma imagem impressionante transmitida ao vivo para todo o mundo. À 0h10 do dia 13 de outubro, Florencio Ávalos tornava-se o primeiro mineiro a ser resgatado. Um a um, os mineiros saíam da cápsula Fênix com ânimo e forma física impressionantes.

Quando Urzúa chegou à superfície e a operação pôde ser considerada um sucesso, a festa na principal praça de Copiapó tornou-se um símbolo da alegria de todo o país. “ Deus só pode ser chileno ”, disse uma moradora ao iG .

Com BBC e informações do The New York Times

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