Protestos e missa marcam "despedida" do acampamento Esperança

Enquanto mineiros resgatados participavam de cerimônia, trabalhadores que não sofreram acidente protestaram por falta de pagamento

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

A aguardada visita dos 33 homens resgatados da mina San José ao acampamento Esperança, onde seus familiares esperaram por eles durante mais de dois meses, aconteceu neste domingo em clima de tensão. Enquanto alguns dos mineiros presos participavam de uma missa, outros trabalhadores da mina San José – que não sofreram o acidente – faziam um barulhento protesto.

Segurando cartazes que diziam “não somos 33, somos 300” e “somos o outro lado da moeda”, os manifestantes pediam que a empresa San Estebán, dona da mina, pague os salários dos últimos 70 dias, além do chamado “finiquito”, espécie de fundo de garantia necessário para que possam ser contratados para outro trabalho.

“A imprensa não conta nossa história e o governo só mostra o lado bonito”, dizia uma das manifestantes. “Nós, que somos os feios, os desamparados, estamos esquecidos.”

Alguns dos 33 mineiros que sofreram o acidente, como Jimmy Sanchéz, Darío Segovia e Carlos Mamani, foram ao encontro dos manifestantes para expressar seu apoio. Outros, porém, deixaram o local sem falar com os ex-colegas de mina San José.

“A minoria saiu para nos dar respaldo, os outros saíram pelos fundos”, afirmou ao iG Pedro Durán, um dos manifestantes. “Estamos pedindo o que eles também vão pedir. Estamos lutando pela mesma coisa.”

Reuters
Familiares de mineradores protestam na região da mina de San Jose

Missa

Os mineiros resgatados começaram a chegar ao acampamento Esperança por volta das 10h. A multidão de jornalistas que os cercava fez com que policiais escoltassem os trabalhadores ou levassem-nos de carro ao local da missa, que foi fechada à imprensa.

Entre os mineiros que participaram da cerimônia estão Juan Aguilar, Luis Urzúa, Darío Segovia, Alex Veja, Daniel Herrera, Pablo Rojas, Jimmy Sánchez, Carlos Mamani e Mario Gómez. Eles sorriram e deram autógrafos, mas resistiram a falar com os jornalistas. Ao lado de seus familiares, ajudaram a desarmar barracas e conheceram alguns “personagens do acampamento”, como o palhaço Rolly, que brincava as crianças, e o professor Adilson Valencia, que dava aulas na escolinha do local.

A missa durou cerca de uma hora e foi celebrada pelo padre Gonzalo Duarte. Segundo ele, a cerimônia foi emocionante e contou com um depoimento do boliviano Carlos Mamani, único dos 33 mineiros que não nasceu no Chile. “Ele expressou carinho e agradecimento e disse que não se sente um estrangeiro, mas, sim, um irmão”, disse o padre.

Despedida

Os familiares dos mineiros também foram à missa para se despedir do acampamento Esperança. Pela primeira vez, Belgica Ramírez, cunhada de Mario Goméz, se sentiu “relaxada” ao chegar ao local. “Viemos fechar o ciclo e dar graças a Deus por esse milagre”, afirmou.

Neste domingo, o acampamento estava bem diferente do que costumava ser nos 70 dias que se passaram entre o acidente e o resgate. A maioria das barracas já havia sido desarmada, o refeitório e a escola estavam fechados e a sala de imprensa, sempre tão lotada, estava quase vazia.

O destino da mina San José ainda é incerto, mas o presidente chileno, Sebástian Piñera, prometeu ouvir os 33 mineiros antes de decidir se o local será fechado ou transformado em um memorial, por exemplo. A ideia agrada Antonia Godoy, que chegou ao acampamento abraçada a uma foto do filho, Richard Villarroel, um dos trabalhadores resgatados.

“Gostaria muito que preservassem esse lugar, porque o que aconteceu aqui foi inexplicável”, afirmou. “Foi algo maravilhoso que uniu o país e o mundo.”

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