"Para crianças, acampar perto da mina é aventura", diz professor

Enquanto esperam resgate, filhos, netos, irmãos e sobrinhos dos mineiros presos estudam e brincam no acampamento Esperança

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

Em meio à confusão de barracas, máquinas e veículos de transmissão que tomaram o acampamento Esperança, onde familiares esperam o resgate dos 33 homens presos na mina San José, balões coloridos indicam que o local também é cheio de crianças.

Cerca de 30 filhos, netos, irmãos ou sobrinhos dos mineiros estão acampados desde o acidente, em 5 de agosto. Eles brincam com os balões coloridos, vestem fantasias, jogam futebol e até vão a uma pequena escola montada há duas semanas.

nullSobrinho do mineiro Franklin Lobo, ex-jogador de futebol que trabalha como motorista na mina San José, Ignacio, 13 anos, é um dos oito alunos que frequentam a escola todos os dias. Ele vive em uma barraca com a família e, pela manhã, tem aulas de matemática, história e língua espanhola. À tarde, gosta de jogar futebol, como fazia seu tio.

“Me sinto bem aqui. Não fico triste porque há muita fé e muita esperança”, afirmou ao iG . “Estamos esperando meu tio e agora falta muito pouco”.

'Aventura'

O professor da escola, Adilson Valencia, 27 anos, se comoveu com a história dos mineiros e no início de setembro deixou sua casa na cidade de San Felipe, 80 km ao norte de Santiago, para trabalhar como voluntário no acampamento.

Além de dar aula para os oito alunos, que vivem em cidades distantes e não podem ir e voltar da escola todos os dias, ele também faz atividades educativas e recreativas com as demais crianças e adolescentes do acampamento, cujas idades variam entre um mês e 18 anos.

nullSegundo ele, mesmo diante das dificuldades da vida na mina San José, as crianças são as menos afetadas pela tristeza. “Eles continuam sendo crianças: brincam o dia todo”, contou. “Esse acampamento tem um nome: Esperança. Eles sabem que seus parentes vão ser resgatados e estão esperando. Para eles, é uma aventura estar aqui”.

Mas o longo período de espera já cansou algumas das crianças, como Luiz, 7 anos. “Não estou triste, mas um pouco entediado”, contou, enquanto brincava com carrinhos na areia em frente à escola. O garoto, que está no acampamento desde o dia 6 de agosto, fará um pedido ao avô, Mario Gómez, quando ele for resgatado: “vou dar um grande abraço nele e pedir que nunca mais entre em uma mina”.

A assistente social Pamela Leiva, 28 anos, que trabalha com as famílias desde o acidente, afirma que não tentou impedir que as crianças fossem levadas ao acampamento, apesar de o local ser bastante inóspito (as temperaturas variam muito e os banheiros químicos costumam estar insalubres).

“Eu não posso interferir e dizer que as crianças estariam melhor em casa porque cada família tem seu jeito, sua cultura e sua identidade”, explicou, acrescentando que mesmo os mais novos “sabem o que está acontecendo”.

'Amigo das crianças'

Depois da escola, as crianças costumam seguir o palhaço Rolly, que organiza brincadeiras e shows musicais, além de distribuir balas e bexigas. Por trás da maquiagem e das roupas coloridas está Rolando González, 42 anos, que viajou 13 horas de ônibus a partir de Iquique, no norte do Chile, para trabalhar como voluntário no acampamento.

Palhaço há 30 anos, ele também é motorista de uma mineradora, o que só fez aumentar sua comoção com o acidente. “Estes 33 homens são meus colegas, porque a família mineira é uma só”, afirmou. “Além disso, os palhaços são amigos das crianças e devem estar com elas quando precisarem de alegria".

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