"Os primeiros 17 dias foram um pesadelo", relata mineiro

Antes de serem localizados com vida, mineiros se ajudaram em momentos de desespero, racionaram comida e 'esperaram' a morte

iG São Paulo |

AP
Reprodução de vídeo com a chegada de paramédico ao refúgio dos mineiros (12/10/2010)
Seus corpos estavam se consumindo. Crescia a angústia pela falta de ar e restavam apenas três rações de alimentos e 10 litros de água. As condições precárias em que viveram os 33 mineiros 17 dias, desde o dia do acidente até enviarem prova de vida, fizeram o tempo parecer mais longo e difícil de suportar.

"Os primeiros 17 dias foram um pesadelo", relatou à AFP o mineiro Juan Illanes, de 52 anos, após receber alta do hospital de Copiapó, para onde todos foram transferidos após o resgate de terça-feira.

Nesses primeiros dias após o deslizamento que os sepultou a mais de 600 metros de profundidade no fundo da mina San José não houve notícias deles e pensava-se que poderiam estar vivos em um refúgio de segurança ou ter morrido esmagados.

Mas o colapso ocorreu 300 metros acima deles e não alcançou nenhum trabalhador. Todos puderam se refugiar no abrigo que, entretanto, tinha poucas provisões, como algumas latas de atum e um pouco de leite.

"Estávamos esperando a morte. Estávamos nos consumindo", afirmou o mineiro Richard Villarroel, sobre os dias em que não tinham contato com a superfície, afirmou à imprensa local a partir do hospital onde se encontra junto com a grande maioria dos mineiros.

Organização

Na penumbra, com temperaturas acima dos 30 graus e alta umidade, os mineiros se organizaram para enfrentar esses primeiros dias, quando não tinham certeza se seriam encontrados.
Illanes contou que pouco a pouco, os mineiros conseguiram se organizar. Além disso, relatou Villarroel,  "a comida foi sendo distribuída em porções pequenas, e a água também".

Além da fome, um dos principais fatores que causavam angústia aos trabalhadores é a falta de ar no interior da mina."Estavam desesperados porque faltava ar", relatou Alberto Segovia. "Quando havia apenas 10 litros de água mineral para ser divididos entre todos, começaram a beber água contaminada que estava em tambores e muitos começaram a ter dor de estômago", acrescentou.

União

Nesses momentos os mineiros se uniram mais do que nunca, apesar de se tratar de um grupo heterogêneo, com trabalhadores contratados pela companhia e outros temporários.
"Sem conhecer muitos dos que trabalhavam naquele momento, soubemos nos unir e isso foi o mais importante", afirmou o mineiro e ex-jogador de futebol Franklin Lobos, no hospital. "Nos unimos nos momentos difíceis quando não havia nada, quando tínhamos de tomar água que não era para ser bebida. Nos unimos quando não havia comida, quando era preciso comer apenas umas colheres de atum porque não havia mais", acrescentou.

Se um estava mal, contou Villarroel, "o companheiro do lado lhe dava a mão".

Em um determinado  momento, sem se desesperar, os mineiros resolveram que todos tomariam decisões por votação. "Éramos 33 homens, então 16 mais um era a maioria", disse Luis Urzúa, o chefe do turno do grupo, o último a deixar a mina.

“Sempre decidimos as coisas de forma democrática, fomos um grupo muito organizado", relatou José Henríquez, de 54 anos, considerado o líder espiritual do grupo. 

*Com AFP

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