Mineiros saem em procissão para agradecer `milagre¿

Quatro dos 33 homens presos na mina participam de emocionante festa popular em bairros humildes da cidade chilena de Copiapó

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

Eram 18h30 desta sexta-feira quando Zunilda Villegas Cañuques terminava de arrumar suas netas para um evento pelo qual todos os moradores do bairro Tiltil Bajo, na cidade chilena de Copiapó, esperaram por mais de dois meses: uma procissão em agradecimento à Virgem del Carmen, por ter salvo os 33 homens presos na mina San José.

nullVentava muito, mas Zunilda andava pela rua de sua casa sem casaco, luva ou cachecol. “É tanta emoção que não tenho frio”, afirmou. Poucas horas antes, ela havia recebido de volta ao bairro os vizinhos Carlos Bugueño , 26 anos, e Pedro Cortéz , 25, que estiveram juntos na mina San José desde o acidente que os deixou presos, em 5 de agosto.

A chegada de Pedro e Carlos foi tranquila. Após receberem alta do hospital de Copiapó na tarde de sexta-feira, ao lado de mais 26 mineiros, eles saíram do local discretamente para evitar o assédio da imprensa. E deu certo: na rua onde vivem havia poucos jornalistas.

Por volta das 19h30, eles deixaram suas casas para participar da procissão e foram recebidos com abraços dos moradores. Visivelmente cansados, falavam pouco e apenas sorriam. A pele branca, de quem passou dois meses sem ter contato com o sol, chamava a atenção.

Durante as orações, eles tiraram os óculos de sol que protegem seus olhos da claridade. Por isso, vizinhos repreendiam os jornalistas que usavam flash e luz forte para fotografar ou filmar os mineiros. Simpáticos, Pedro e Carlos voltaram a colocar os óculos e posaram para fotos ao lado de uma imagem da Virgem Del Carmen, que levaram consigo em uma caminhonete. Atrás deles, uma banda tocava a música que embalava jovens dançarinos, todos fantasiados com roupas típicas. Dezenas de pessoas acompanhavam a procissão, emocionadas.

Foram quase cinco horas de caminhada pelas ruas de Tiltil Bajo e do bairro vizinho, Manuel Rodrigues, onde outros dois mineiros – Pablo Rojas , 45 anos, e Ariel Ticona , 29 – também subiram na caminhonete. A cada trabalhador que chegava, muitas palmas e gritos de “Chi Chi Chi Le Le Le”, o hino preferido dos chilenos.

Nos dois bairros, moradores saíam à janela para ver os mineiros, e as casas onde viviam indicavam se tratar de uma região pobre. Uma delas, a de Osvaldo Ignácio Castillo Cortez, 44 anos, tem papel fundamental na procissão: por sua pequena porta, que leva a um corredor escuro, a população pode subir até um morro de onde se vê toda a cidade. Lá em cima há uma pequena capela, construída há anos por Mario Gómez, 63, que também estava entre os mineiros presos na San José. A imagem da Virgem Del Carmen, um presente da mulher de Mario, Lilian, subiu e desceu da capela por diversas vezes nos dois últimos meses, durante as procissões dos copiapinos que pediam ajuda santa aos trabalhadores.

nullA noite de sexta-feira, então, era de agradecimento. Osvaldo abriu a pequena porta e por lá passaram apenas algumas pessoas, entre elas as quatro estrelas da procissão – Pedro , Carlos , Pablo e Ariel – que subiram o morro carregando a imagem da santa nas mãos. Depois de a colocarem na capela, eles falaram rapidamente com os poucos jornalistas que chegaram ao local. Como se sentiam? “Cansados”, brincou Pablo, ofegante. “Mas muito emocionados.”

A reportagem do iG perguntou se Ariel conheceu a filha Esperanza, de um mês, que nasceu enquanto ele estava preso na mina. Ele sorriu, fez sinal de positivo com as mãos e comentou: “Ela é linda.”

Depois, os mineiros seguiram para a parte final da procissão: descer o morro e as ruas de Manuel Rodrigues e Tiltil Bajo para, após 70 dias, passarem a primeira noite em casa.

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