'Fizemos o que o mundo esperava', disse último mineiro resgatado

Resgate do líder dos 33 mineiros, Luis Alberto Urzúa, concluiu operação histórica no Chile

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

Após ser içado de quase 700 metros sob o solo, o líder Luis Alberto Urzúa , o último dos 33 mineiros resgatados nesta quarta-feira na jazida San José, disse ao presidente Sebastián Piñera: "Fizemos o que o mundo todo esperava. Os 70 dias que lutamos não foram em vão. Tivemos força, espírito, quisemos lutar por nossas famílias - e isso foi a coisa mais importante."

AFP
Residentes de Copiapó celebram resgate histórico de 33 mineiros de jazida San José, no norte do Chile
Em resposta, Urzúa ouviu do presidente: "Não somos os mesmos, e o país não é o mesmo depois disso. Vocês foram uma inspiração." 

O resgate de Urzúa representou a conclusão de uma operação histórica em que 33 homens presos havia 70 dias na mina San José, no Chile, foram retirados com segurança. Um a um, os trabalhadores deixaram o refúgio a quase 700 metros de profundidade com ânimo e forma física impressionantes em uma operação que ocorreu tranquilamente e durou quase 24 horas

A jornada de resgate começou às 23h08 de terça-feira, no momento em que o paramédico Manuel González entrou na cápsula Fênix e desceu 622 metros, até encontrar os mineiros no refúgio onde ficaram presos desde 5 de agosto. Foram muitos aplausos e gritos de “Chi Chi Chi Le Le Le”, o ‘hino’ preferido dos chilenos.

Depois de 16 minutos, González chegou ao refúgio e cumprimentou os mineiros, uma imagem impressionante transmitida ao vivo para todo o mundo. Foi talvez o momento mais emocionante da operação, mais até do que a chegada dos homens à superfície. Simbólica, a tranquila “viagem” de González ao subterrâneo convenceu até os mais céticos de que o resgate de todos os trabalhadores era mesmo possível.

Após receber algumas orientações do paramédico, Florencio Ávalos , o primeiro mineiro a ser resgatado, entrou na cápsula Fênix e, cerca de 15 minutos depois, à 0h10, chegou à superfície a salvo. Do lado de fora da mina, seu filho Byron, de sete anos, esperava por ele muito emocionado. No acampamento, familiares e jornalistas não conseguiram conter as lágrimas, enquanto o céu do deserto do Atacama foi enfeitado por balões com a bandeira chilena, lançados ao ar durante a comemoração.

Conforme eram resgatados, os mineiros eram levados de helicóptero, em grupos de três ou quatro, ao hospital de Copiapó, onde a população os recebia com festa. Segundo o ministro da Saúde, Jaime Mañalich, todos os trabalhadores estão bem: apenas um deles tem pneumonia e outros dois, problemas dentários.

‘Número mágico’

Depois do resgate bem-sucedido de Ávalos, o presidente do Chile, Sebástian Piñera, que acompanhou toda a operação de perto, fez um discurso exaltando a união dos chilenos em dois momentos difíceis que enfrentaram em 2010: o terremoto seguido de tsunami em fevereiro e o acidente na mina San José. "Quando o Chile se une, somos capazes de grandes coisas", afirmou Piñera. "Quero convidar todos os chilenos a que tenham esse compromisso não apenas nas adversidades."

Piñera também chamou a atenção para o fato de que o primeiro mineiro deixou a jazida no dia 13/10/10. Os três números juntos somam 33, o “número mágico” da mina San José : 33 mineiros; 33 caracteres no bilhete que mandaram à superfície (“estamos bien en lo refugio los 33”); e 33 dias de perfuração.

Dono da festa

O segundo mineiro resgatado , Mario Sepúlveda, roubou a cena. Considerado o mais comunicativo entre os trabalhadores (foi ele quem fez a apresentação de todos no primeiro vídeo gravado dentro da mina), Sepúlveda ainda estava subindo na cápsula Fênix quando começou a gritar “Viva Chile Mierda!”.

Um integrante da equipe de resgate pediu que ele se apressasse, ao que Sepúlveda respondeu: “Já vou, já vou”, provocando risos entre os presentes. Ao chegar à superfície, ele abraçou a mulher, chamou o ministro chileno da Mineração, Laurence Golborne, de “chefão”, e distribuiu pedras da mina para ele e para o presidente Piñera.

Muito animado e bem disposto, ele ainda foi até a grade de onde os resgates eram observados e comemorou com os “torcedores”. Depois, em entrevista coletiva, falou sério e disse esperar que o acidente provoque “mudanças profundas” nas condições de trabalho dos mineradores. Ele ainda pediu para que a opinião pública não trate os trabalhadores da mina San José como artistas. “Quero que continuem me tratando como trabalhador, como mineiro”, afirmou.

Tranquilidade

Após dois resgates bem-sucedidos, o clima mudou no acampamento Esperança. Mais esperançosos e otimistas, todos assistiam ao resgate com tranquilidade e, a cada mineiro, resgatado, faziam uma comemoração menos barulhenta. O forte frio ajudou a fazer com que o número de pessoas assistindo à transmissão dos trabalhos diminuísse aos poucos. Pela manhã, o telão do acampamento Esperança foi desligado e familiares continuaram assistindo ao resgate em áreas reservadas.

O terceiro mineiro a ser resgatado, Juan Illanes Palma , chegou à superfície por volta das 2h10, com um sorriso no rosto. Quando lhe perguntaram sobre como tinha sido a “viagem” na cápsula Fênix, ele respondeu com bom humor: “Excelente. Foi como um cruzeiro.”

Em seguida foram resgatados o boliviano Carlos Mamani , único não chileno entre os mineiros; Jimmy Sánchez , o mais novo do grupo; Osmán Araya , que levou mais tempo para chegar à superfície por causa de uma manutenção na cápsula; José Ojeda , que escreveu o bilhete com o qual as autoridades souberam que os mineiros estavam vivos; e Claudio Yañez , solteiro e pai de duas filhas.

Pela manhã, o resgate mais emocionante foi o de Mario Gómez Heredia , 63 anos, o mais velho entre o grupo de trabalhadores e mineiro desde os 12 anos. Após sair da cápsula, ele caiu de joelhos e rezou . “Voltei à vida”, afirmou, segurando uma bandeira chilena.

A operação continuou com o resgate de Alex Vega Salazar , que era esperado no acampamento Esperança por mais de 30 parentes; Jorge Gaslleguillos Orellana , 56 anos, que desde os 15 anos de idade trabalha como mineiro e é hipertenso; Edison Peña , fã do cantor Elvis Presley; Carlos Barrio , que nas horas vagas é taxista; Víctor Zamora Bugueño , o 14º mineiro a ser resgatado; Víctor Segovia Rojas , que é eletricista; e Daniel Herrera , motorista de caminhão, que fechou o resgate do grupo 2, composto por operários com problemas de saúde.

Em seguida vieram Omar Reygadas , de 56 anos; Esteban Rojas Carrizo , que prometeu casamento à sua namorada; Pablo Rojas Villacorta , que trabalhava na mina há seis meses; e Dario Segovia , irmão da 'prefeita' do acampamento Esperança, Maria Sepúlveda , que foi apelidada de La Alcaldesa.

nullO resgate de Yonni Barrios , “o mineiro das duas mulheres”, foi um dos mais comentados. Enquanto estava preso na mina, sua mulher há 28 anos, Marta Salinas, desistiu de ficar no acampamento Esperança após descobrir no local a amante do marido, Susana Valenzuela. Foi ela quem o recebeu na chegada ao superfície.

Já no final da tarde foram resgatado Samuel Ávalos Acuña , que tinha a função de verificar a qualidade do ar na mina; Carlos Bugueño Alfaro , de 27 anos; o pastor evangélico José Henríquez González ; Renán Ávalos Silva , irmão de Florencio, o primeiro resgatado; Claudio Acuña Cortés , que comemorou seu aniversário de 56 anos em 9 de setembro. Sua mulher mandou para ele de presente uma camisa de futebol autografada pelos jogadores de seu time, o Colo Colo.

O ex-jogador de futebol Franklin Lobos , de 53 anos, foi o 27º mineiro a ser resgatado. Ex-volante da seleção chilena, Lobos disputou a fase classificatória aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Ele foi seguido pelo mecânico Richard Villarroel Godoy , de 23 anos; pelo supervisor Juan Aguilar Gaete , de 49 anos; pelo engenheiro hidráulico Raúl Bustos Ibáñez , de 40 anos; por Pedro Cortez Contreras , de 24 anos.

O penúltimo mineiro a deixar a mina foi Ariel Ticona Yáñez , de 29 anos. Ele é casado com Elizabeth Segovia, que deu à luz uma menina em 14 de setembro - 40 dias depois do acidente em San José.

A chegada à superfície de Luis Urzúa , o chefe de trabalho que fez questão de ser o último resgatado para cumprir a função de líder até o final, significou o sucesso completo da operação. Foi, também, o fim de dois meses de angústia e sofrimento para os mineiros, seus familiares e todos os chilenos.

*Com AP

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