Famílias dos mineiros estão no alvo dos impactos psicológicos

Após os 70 dias de angústia, parentes precisam dos mesmos cuidados psicológicos que os trabalhadores resgatados no Chile

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

Apesar do papel secundário que as famílias dos mineiros tiveram em seu resgate cinematográfico de mais de 22 horas, elas agora podem protagonizar juntamente com eles um drama comum após situações de trauma intenso. Quando as luzes das câmeras se apagarem, os flashes dos fotógrafos ficarem escassos e a euforia da sobrevivência diminuir em meio à rotina, os impactos psicológicos, dizem os especialistas, podem vir à tona.

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Roxana Gomez, filha do mineiro Mario Gomez, chora enquanto olha na tela da TV a operação de resgate de seu pai

“Assim como os mineiros, esses parentes podem desenvolver o chamado transtorno do estresse pós-traumático e precisam ser acompanhados de perto”, afirmou Rosaly Braga Campanini, psicoterapeuta e pesquisadora do Programa de Atendimento às Vítimas de Violência – Programa de Violência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O estresse pós-traumático é uma manifestação persistente ou tardia de sintomas como pesadelos recorrentes, angústia, medo e depressão. É assim denominado em duas situações. Uma delas é quando os sintomas duram por mais de dois meses após o trauma. A outra é quando surgem entre 90 dias e em até 5 anos.

Esse problema de saúde, segundo pesquisas  realizadas pela Unifesp, acomete entre 10% e 20% das pessoas que enfrentaram algum episódio trágico ou catastrófico.

Em geral, é estudado após situações como sequestros, terremotos ou quedas de avião. “Mas ninguém tem dúvida de que o episódio dos mineiros pode causar estresse pós-traumático”, comentou Rosaly. “Entre os possíveis pacientes desse transtorno não estão apenas as vítimas diretas da situação violenta e estressante, mas também, principalmente, seus parentes mais próximos”, explicou.

Cheiro de terra

Segundo a especialista da Unifesp, as situações mais triviais podem servir de gatilho para essas manifestações nos mineiros e em membros de suas famílias. “Pode ser desde um cheiro de terra, um ruído de broca ou furadeira, um programa de televisão. Tudo pode aguçar a memória traumática”, afirmou.

Luto em suspenso

As informações divulgadas sobre a saúde dos mineiros pós-resgate dão conta de que, com exceção de uma pneumonia e de algumas inflamações dentárias (já existentes antes dos acidentes), todos estão em boas condições físicas, com alguns podendo ter alta hospitalar ainda nesta quinta-feira.

Segundo Eduardo Ferreira-Santos, psiquiatra coordenador do Hospital das Clínicas de São Paulo e especializado em traumas e violência, os danos psicológicos, porém, são os mais difíceis de ser mapeados e mensurados pois precisam de um acompanhamento em longo prazo.

“O soterramento do Chile é um acontecimento único no mundo. Apesar da catástrofe – que não esperamos assistir novamente –, a situação dos mineiros e de seus parentes é um terreno fértil para pesquisas sobre medicina e psicoterapia. Por isso, acredito que eles precisam ser acompanhados por pelo menos cinco anos”, afirmou o médico.

O especialista acrescenta que, do ponto de vista psíquico, apesar de todos os envolvidos no resgate dos mineiros – eles próprios, seus familiares, socorristas – serem candidatos ao estresse pós-traumático, a manifestação do transtorno depende de outros fatores, como situação psicológica e dramas pessoais vivenciados antes.

“Por vezes, as mulheres e filhos podem ter esse impacto psicológico e a própria pessoa que ficou soterrada não.”

O doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Julio Peres, lembra que, não bastasse a angústia da espera, essas famílias vivenciaram por 17 dias um “luto em suspenso” .

“As primeiras duas semanas foram de ausência total de notíciais. Até surgir aquele bilhete dizendo que os mineiros estavam vivos e bem, os parentes conviveram com uma angústia sobre o imponderável”, afirmou Peres, autor do livro “Trauma e Superação: o que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade ensinam" (editora Rocca). “Essas sensações foram acumuladas e tornam os familiares muito vulneráveis.”

Celebridades, e aí?

O fato é que as manifestações psicológicas são individuais e nenhum especialista consegue afirmar com total certeza como ficará a cabeça dos mineiros após terem emergido dos quase 700 metros e das mulheres depois de tanta expectativa para o abraço do reencontro.

“A grande dificuldade é responder o ‘e aí?’, diz Eduardo Ferreira-Santos. “Não sabemos se os mineiros vão usar essa experiência, seguida de exposição heróica, a seu favor ou de forma prejudicial”, disse. De acordo com ele, também é difícil mensurar se as suas famílias serão mais protegidas ou mais vitimadas por ocupar esse papel secundário – até mesmo na mídia – depois do resgate dos 33 homens.

“A resiliência, que é a capacidade de fazer da adversidade uma coisa boa, depende de cada pessoa. Com esse episódio do Chile, os efeitos são imensuráveis. O que vamos descobrir é se o mundo todo vai entrar em situação de um estresse pós-traumático ou se sairá enriquecido após essa experiência”, disse.

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