Em menos de 24 horas, Chile resgata todos os mineiros

Após 70 dias, trabalhadores deixam a mina San José e comemoram a liberdade com a família ¿ e um país inteiro

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

Após 70 dias de espera, uma noite histórica. Às 23h08 de terça-feira teve início o resgate dos 33 homens presos a quase 700 metros de profundidade na mina San José, no Chile. Uma história dramática que chamou a atenção de todo o mundo e teve um final feliz.

Foi uma longa espera que terminou antes das 22h de quarta-feira. A terça-feira foi de ansiedade e nervosismo no acampamento Esperança, onde familiares vivem desde o acidente, e as informações desencontradas sobre o horário em que começaria o resgate fizeram a tensão aumentar.

Autoridades afirmaram que a operação começaria às 20h, depois “a partir das 18h” e, ainda, às 22h. Enquanto isso, jornalistas aguardavam em uma plataforma de observação e familiares se dividiam pelo acampamento: os mais próximos assistiam a tudo em um local fechado para a imprensa; os demais acompanhavam a transmissão ao vivo em telões ao ar livre e dentro da cafeteria.

A comoção ganhou força no momento em que o paramédico Manuel González entrou na cápsula Fênix e desceu 622 metros, até encontrar os mineiros no refúgio onde ficaram presos desde 5 de agosto. Foram muitos aplausos e gritos de “Chi Chi Chi Le Le Le”, o ‘hino’ preferido dos chilenos.

Depois de 16 minutos, González chegou ao refúgio e cumprimentou os mineiros, uma imagem impressionante transmitida ao vivo para todo o mundo.

Após receber algumas orientações do paramédico, Florencio Ávalos , o primeiro mineiro a ser resgatado, entrou na cápsula Fênix e, cerca de 15 minutos depois, à 0h10, chegou à superfície a salvo. Do lado de fora da mina, seu filho Byron, de sete anos, esperava por ele muito emocionado. No acampamento, familiares e jornalistas não conseguiram conter as lágrimas, enquanto o céu do deserto do Atacama foi enfeitado por balões com a bandeira chilena, lançados ao ar durante a comemoração.

‘Número mágico’

Depois do resgate bem-sucedido de Ávalos, o presidente do Chile, Sebástian Piñera, que acompanha toda a operação de perto, fez um discurso exaltando a união dos chilenos em dois momentos difíceis que enfrentaram em 2010: o terremoto seguido de tsunami em fevereiro e o acidente na mina San José.

"Quando o Chile se une, somos capazes de grandes coisas", afirmou Piñera. "Quero convidar a todos os chilenos que tenham esse compromisso não apenas nas adversidades".

Piñera também chamou a atenção para o fato de que o primeiro mineiro deixou a jazida no dia 13/10/10. Os três números juntos somam 33, o “número mágico” da mina San José: 33 mineiros, 33 caracteres no bilhete que mandaram à superfície (“estamos bien en lo refugio los 33”) e 33 dias de perfuração.

Dono da festa

O segundo mineiro resgatado, Mario Sepúlveda , roubou a cena. Considerado o mais comunicativo entre os trabalhadores (foi ele quem fez a apresentação de todos no primeiro vídeo gravado dentro da mina), Sepúlveda ainda estava subindo na cápsula Fênix quando começou a gritar “Viva Chile Mierda!”.

Um integrante da equipe de resgate pediu que ele se apressasse, ao que Sepúlveda respondeu: “Já vou, já vou”, provocando risos entre os presentes. Ao chegar à superfície, ele abraçou a mulher, chamou o ministro da Mineração, Laurence Golborne, de “chefão”, e distribuiu pedras da mina para ele e para o presidente Piñera.

Muito animado e bem disposto, ele ainda foi até a grade de onde os resgates eram observados e comemorou com os “torcedores”. Depois, em entrevista coletiva, falou sério e disse esperar que o acidente provoque “mudanças profundas” nas condições de trabalho dos mineradores.

Ele ainda pediu para que a opinião pública não trate os trabalhadores da mina San José como artistas. “Quero que continuem me tratando como trabalhador, como mineiro”, afirmou.

nullTranquilidade

Após dois resgates bem-sucedidos, o clima mudou no acampamento Esperança. Mais esperançosos e otimistas, todos assistiam ao resgate com tranquilidade e, a cada mineiro, retirado, faziam uma comemoração menos barulhenta. O forte frio ajudou a fazer com que o número de pessoas assistindo à transmissão dos trabalhos diminuísse aos poucos.

O terceiro mineiro a ser resgatado, Juan Illanes Palma , chegou à superfície por volta das 2h10, com um sorriso no rosto. Quando lhe perguntaram sobre como tinha sido a “viagem” na cápsula Fênix, ele respondeu com bom humor: “Excelente. Foi como um cruzeiro”.

Por volta das 3h10 foi a vez do boliviano Carlos Mamani , único não chileno entre os mineiros; cerca de uma hora depois foi resgatado Jimmy Sánchez , o mais novo do grupo. Devido a uma manutenção na cápsula responsável pelo transporte, o sexto mineiro, Osmán Araya , só voltou à superfície por volta das 5h30 desta quarta. Sétimo a ser retirado da mina, o viúvo José Ojeda foi recebido pela enteada ao chegar à superfície, por volta das 6h21. 

O oitavo a ser resgatado foi Claudio Yañez , solteiro e pai de duas filhas. Mario Gómez Heredia , 63 anos, foi o nono. Mais velho do grupo de trabalhadores presos a cerca de 700 metros, ele trabalha como mineiro desde os 12 anos de idade. Ele caiu de joelhos e rezou em voz baixa ao chegar à superfície.

Décimo a ser resgatado, o mineiro Alex Vega Salazar tem 31 anos. Ele chegou à superfície às 8h53. Durante o tempo em que esteve preso na mina, quase 30 de seus parentes viveram no acampamento Esperança esperando por seu resgate.

O 11º resgatado foi Jorge Galleguillos Orellana , 56 anos, que desde os 15 anos de idade trabalha como mineiro. Hipertenso, ele chegou à superfície por volta das 9h35 de quarta-feira. O mineiro Edison Peña , 34 anos, foi o 12º a ser resgatado. Em seguida foi a vez de Carlos Barrio , 27 anos.

Víctor Zamora Bugueño , 33 anos, foi o 14º mineiro a ser resgatado. O eletricista Víctor Segovia Rojas foi o 15º. O salvamento de Daniel Herrera , motorista de caminhão, fechou o resgate do grupo 2, composto por operários com problemas de saúde.

Última fase

A chegada à superfície do 17º mineiro, Omar Reygadas , de 56 anos, deu início à última fase do resgate dos mineiros do Chile, em que foram içados da jazida de San José os trabalhadores mais fortes fisicamente. O funcionário de manutenção, Esteban Rojas Carrizo , de 44 anos, foi o 18º resgatado dos 33 mineiros que ficaram presos na jazida de San José. Assim como Claudio Yañez Lagos, Rojas também prometeu casamento à sua namorada, com quem está há 25 anos.

Funcionário da mina San José há seis meses, Pablo Rojas Villacorta , de 45 anos, foi o 19º mineiro a ser resgatado. O 20º salvo foi Dario Segovia , irmão da 'prefeita' do acampamento Esperança. A irmã de Dario, Maria, foi apelidada de La Alcaldesa - a prefeita - pelo papel de liderança que ela assumiu no acampamento onde familiares vivem desde o acidente, em 5 de agosto.

Mineiro de duas mulheres, Yonni Barrios foi o 21º a ser salvo. Enquanto estava preso na mina, sua mulher há 28 anos, Marta Salinas, desistiu de ficar no acampamento Esperança após descobrir no local a amante do marido, Susana Valenzuela.

O mineiro Samuel Ávalos Acuña , 43 anos, foi o 22º a ser resgatado na mina San José. Durante os mais de dois meses em que os trabalhadores ficaram na jazida, Ávalos desempenhou a função de verificar a qualidade do ar no local.

Carlos Bugueño Alfaro , 27 anos, foi o 23º mineiro a ser retirado. Bugueño é um dos "palomeros" em seu grupo. Os mineiros se revezam na função de enviar e receber pacotes chamados de "palomas" ou "pombas" mandados pelos canos de suprimentos. 

O mestre de perfuração José Henríquez González , de 54 anos, foi o 24º mineiro resgatado. Ele é um pastor evangélico e, durante os dois meses em que os 33 mineiros ficaram presos a quase 700 metros de profundidade, teve o papel de manter o clima positivo. Ele trabalha em minas há 33 anos.

O chileno Renán Ávalos Silva , de 29 anos, foi o 25º mineiro resgatado da jazida de San José. Renán era um dos palomeros encarregados de enviar e receber pacotes chamados de "palomas" ou "pombas" mandados pelos canos de suprimentos. Quatro meses atrás, Ávalos decidiu ir para a mina de San José com seu irmão Florencio Ávalos , que foi o primeiro mineiro a ser resgatado.

Claudio Acuña Cortés , de 56 anos, foi 26º mineiro a sair da jazida. Ele comemorou seu aniversário de 56 anos em 9 de setembro. Sua mulher mandou para ele de presente uma camisa de futebol autografada pelos jogadores de seu time, o Colo Colo.

O ex-jogador de futebol Franklin Lobos , de 53 anos, foi o 27º mineiro a ser resgatado. Ex-volante da seleção chilena, Lobos disputou a fase classificatória aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984.

O chileno Richard Villarroel Godoy , de 23 anos, foi o 28º a deixar a mina. Villarroel é mecânico, e trabalha no local há dois anos.

O 29º mineiro resgatado foi Juan Aguilar Gaete , de 49 anos. Nascido na cidade mineradora de Los Lagos, Gaete é supervisor.

Raúl Bustos Ibáñez , um engenheiro hidráulico, de 40 anos, foi o 30º mineiro resgatado. Na jazida, ele organizava o sistema de suprimento de água.

O chileno Pedro Cortez Contreras , de 24 anos, foi o 31º resgatado. Contreras é amigo de infância de Carlos, o 23º mineiro resgatado. Eles começaram a trabalhar na jazida ao mesmo tempo.

O penúltimo mineiro a deixar a mina foi Ariel Ticona Yáñez , de 29 anos. Ele é casado com Elizabeth Segovia, que deu à luz uma menina em 14 de setembro - 40 dias depois do acidente em San José.

O chileno Luis Alberto Urzúa é o chefe de turno e foi último a ser resgatado. Ele exercia uma função de liderança entre os outros mineiros e já havia afirmou que não se sente um herói.

Evo Morales

Também na manhã desta quarta-feira, o presidente da Bolívia, Evo Morales, chegou à cidade de Copiapó, próxima à mina San José. "Em nome do governo nacional, não sei como agradecer esse esforço. Será histórico, inédito e inesquecível para o povo boliviano resgatar com vida tantos mineiros e o companheiro irmão Carlos", disse Morales à Televisão Nacional de Chile.

O ministro da Saúde do Chile, Jaime Mañalich, afirmou nesta quarta-feira que "as coisas estão indo extraordinariamente bem até aqui". No twitter, o ministro da Mineração, Laurence Golborne, disse que a equipe está melhorando a frequência de saída. "Até o grupo dos mais delicados está bem", afirmou.

Como cada resgate leva cerca de uma hora, a previsão é que a operação continue durante toda a quarta-feira. Se tudo correr conforme o planejado, em breve todos os mineiros estarão bem – agora em suas casas.

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