Sob 700 metros, mineiros foram treinados para lidar com mídia

Ao iG, 'professor' conta que houve preocupação com assédio de imprensa desde o início; aulas foram dadas por videoconferência

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

AFP
Alejandro Pino, chefe da Associação Chilena de Segurança, mostra em 06/10/2010 óculos de sol que foram usados por mineiros durante resgate da jazida San José
Ensinar os 33 homens presos na mina San José, no Chile, a lidar com o assédio da imprensa esteve desde o princípio na longa lista de preocupações da equipe que coordenou a operação de resgate.

Dado o crescente interesse de jornalistas de todo o mundo pela história dos mineiros, o diretor da Associação Chilena de Segurança, Alejandro Pino, recebeu a missão de dar aulas de “expressão oral” aos trabalhadores, mesmo que 700 metros de profundidade separassem professor e alunos.

Por meio de videoconferências, Pino conversou com os mineiros e conheceu cada uma de suas histórias. Em entrevista ao iG , esse ex-jornalista e atual diretor da associação que esteve envolvida em todas as etapas do resgate fala sobre as aulas e a satisfação de concluir com sucesso o que define como “o trabalho mais importante de sua vida”.

iG: Como foi participar do trabalho de resgate dos mineiros?
Alejandro Pino: Foi um desafio. Tínhamos de entregar auxílio médico, alimentos e apoio psicológico a  700 metros de profundidade. Ninguém nunca havia feito isso antes, por isso foi preciso criar novos métodos e sistemas de trabalho. Foi difícil, mas sabíamos que não podíamos deixá-los na mão.

iG: Como os integrantes da equipe se sentem ao ser tratados como heróis pelos chilenos?
Pino: Acho que as pessoas que têm algum grau de heroísmo são os paramédicos que desceram até o fundo da mina. Mas, em geral, apenas fizemos a parte do trabalho que tínhamos de fazer, com muita dedicação e sacrifício. Fiquei sem ver minha família por dois meses, comunicava-me apenas por email e telefone. Mas fiz o trabalho com prazer. Na quinta-feira visitei os mineiros no hospital e fui recebido com aplausos e entusiasmo. Tirei uma foto com eles – uma foto que muitos gostariam de ter. Olho para a foto e a encaro como um símbolo de que cumpri o meu dever. Mas também sinto orgulho de ter feito um trabalho que ajudou a salvar a vida de 33 pessoas.

iG: Como eram as aulas de comunicação oral que o senhor ministrava aos mineiros?
Pino: Dividimos as aulas em duas partes. Em uma delas, os mineiros apenas respondiam perguntas. Muitas eram difíceis e até indiscretas, pois precisava ver como respondiam e como reagiam. Ensinei, também, que eles tinham todo o direito de não responder o que não quisessem. Na segunda etapa, o foco estava em como desenvolver uma conversa. É bem provável que eles sejam convidados a participar de programas de televisão, por exemplo, e queríamos que soubessem contar suas histórias de maneira estruturada. Trata-se de um grupo de pessoas muito inteligentes e com histórias interessantes. Mesmo o que viveram antes do acidente – sua chegada à mineração, por exemplo – é muito interessante. São pessoas apegadas à família e de valores muito fortes.

iG: Alguma história o emocionou mais?
Pino: Por uma questão ética, nunca me refiro ao que conversei com eles. Falamos sobre coisas tão íntimas que poderia escrever um livro, mas isso não me parece justo. Afinal, eles só me contaram tudo isso porque confiaram que eu não me aproveitaria do que dissessem.

iG: O senhor se preocupa com o assédio da imprensa com os mineiros?
Pino: Sou jornalista, sei que o processo é assim mesmo – e expliquei isso a eles. É um assédio que vai passar aos poucos, mas, no fim, eles sempre serão lembrados como um dos 33 mineiros. Assim como suas esposas, filhos, amantes, todos os seus familiares também serão lembrados. Durante as aulas, disse a eles que, após o resgate, amigos que não viam há anos estariam todos os dias em suas casas. Expliquei que muita gente lhes ofereceria negócios milionários e deveriam ter cuidado com isso. E tenho certeza de que eles entenderam. Quando saiu da mina, Mario Sepúlveda disse que não é um artista, mas, sim, um trabalhador. Isso mostra que ele sabe como se defender. Outros mineiros nem vão querer dizer nada: apenas voltar para casa e para uma vida anônima.

iG: Em uma coletiva, o sr. disse que já não sabia se estava ensinando algo aos mineiros ou, ao contrário, aprendendo com eles. Que tipo de aprendizado tirou dessa experiência?
Pino: Acredito que as pessoas começam a seguir um determinado caminho em suas vidas, e muitas vezes deixam de ter contato com as pessoas que não têm a ver com sua profissão e suas atividades. Isso faz com que você se mantenha sempre dentro do mesmo caminho. Aos 67 anos, desviei minha rota e me meti em uma mina. Conheci os mineiros, sua linguagem, seus pensamentos, e isso me fez refletir e crescer muito.

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