Famílias de mineiros dividem acampamento com jornalistas

Saiba mais sobre a rotina do lugar onde parentes e imprensa esperam pelo resgate dos 33 homens presos na mina San José

Luísa Pécora, enviada a Copiapó, Chile |

Enquanto esperam por resgate a cerca de 700 metros de profundidade, os 33 homens presos na mina de San José, no Chile, não têm a dimensão exata de como, na superfície, o acidente sofrido por eles resultou na criação de uma pequena comunidade.

“Este acampamento não será desarmado até que os trabalhadores venham aqui e vejam como seus familiares viveram todos esses dias”, disse ao iG Cristian Tavia, vice-presidente da Associação dos Mineiros do Chile, sobre o acampamento onde estão parentes, equipes de resgate e jornalistas.

Faz sentido: pouco tempo de caminhada pelo acampamento Esperança, como ficou conhecido, é suficiente para que se note o total comprometimento dos parentes com os trabalhadores presos na mina. Além disso, fica evidente a solidariedade dos chilenos com os mineiros e a enorme mobilização de jornalistas de todo o mundo para cobrir um dos acontecimentos mais esperados e de maior repercussão do ano.

O trajeto

Os jornalistas – cerca de 500 estrangeiros, e mais uma multidão de repórteres e cinegrafistas chilenos – têm duas opções de hospedagem: encontrar um espaço vago no próprio acampamento e instalar uma barraca para dormir, ou conseguir um quarto em cidades próximas como Copiapó, a cerca de 45 km do acampamento. Como todos os hotéis e pousadas estão lotados, muitos profissionais improvisam outras soluções, como dormir na casa de moradores da cidade ou pedir abrigo aos colegas de profissão.

Carros para alugar também são difíceis de encontrar, por isso muitos jornalistas utilizam táxi para chegar à mina. Cada corrida custa, em média, 30 mil pesos (cerca de R$ 100) e, no caso de quem sai de Copiapó, o trajeto é feito por uma estrada asfaltada e em boas condições.

A paisagem é impressionante: quilômetros e quilômetros de dunas de areia e nenhuma vegetação, o que faz lembrar que a mina San José está no meio do Deserto do Atacama. Não há turistas nesta região, apenas pequenos sinalizadores que indicam se tratar de uma região mineira.

Todos os carros passam por um posto de controle ao se aproximar da mina San José. Policiais pedem a credencial do jornalista e o documento do motorista antes de liberar a passagem. Alguns quilômetros à frente há um novo posto de controle, de onde os jornalistas seguem a pé.

Contrastes

A chegada à mina é impactante. Por toda parte há cartazes, fotos dos mineiros e bandeiras do Chile, e até nas pedras foram escritas mensagens de apoio. A bela paisagem do deserto, porém, se acaba: são muitas barracas, muitas máquinas e poucos banheiros químicos que fazem com que o local se pareça um pouco com uma obra. Na tarde de sábado, um homem vestido de palhaço que faz atividades com as crianças enchia balões e prendia-os a uma das barracas. Para quê? “Para que o presidente da Bolívia chegue e não veja esse lugar tão feio”, afirmou, em referência a Evo Morales, que deve estar presente no momento do resgate.

O contraste também é grande no que diz respeito ao clima. No início da manhã, todos se protegem do frio; por volta das 10h sai o sol, que se torna implacável às 12h; no fim da tarde, um vento forte anuncia uma noite insuportavelmente gelada.

Rotina

No acampamento Esperança todos devem andar com crachás que especificam sua função, e que estão separados por cores: cinza para os familiares, verde para as equipes de resgate, vermelho para os jornalistas locais e azul para os estrangeiros.

Como a quantidade de repórteres é muito grande, os parentes e equipes de resgatistas se acostumaram a dar a mesma entrevista diversas vezes. Apesar do cansaço, eles são simpáticos e até se tornaram amigos de alguns jornalistas.

Ao lado da sala de imprensa – um pequeno espaço em que os profissionais disputam civilizadamente cadeiras, tomadas e a conexão wi-fi – um grupo de voluntárias serve comida e bebida a todas as pessoas que estão no acampamento, pois no local não há nenhum vendedor ambulante. Na hora do almoço, as famílias têm preferência, mas os repórteres e cinegrafistas também são convidados para sentar à mesa.

Ninguém sabe ao certo quando sua missão estará cumprida. O resgate, que deve começar na quarta-feira, pode levar vários dias, mesmo que tudo corra bem. De qualquer forma, parentes, voluntários e jornalistas têm algo em comum: não deixarão o acampamento Esperança até que os 33 mineiros estejam de volta.

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